Drones já são o ‘campeão nacional’ da indústria de defesa
A Europa e Portugal estão a investir em Defesa. Mas como podem as empresas tirar partido destes investimentos massivos e, com isso, dinamizar a economia do país? O debate chegou à conferência eRadar.

- A Conferência Anual eRadar destacou a importância da indústria de defesa portuguesa, com a Tekever a exemplificar a agilidade na adaptação de drones para as forças ucranianas em resposta à guerra.
- Os drones representam cerca de 20% das exportações do setor de defesa em Portugal, com um crescimento impulsionado pela necessidade de reforçar capacidades de defesa na Europa.
- A Indústria de Defesa portuguesa quer ser incluída em projetos bandeira europeus como o "Space Shield" ou "Drone Shield": "Se não respondermos rapidamente, outros países vão ocupar esse espaço". A necessidade de maior soberania digital poderá ser oportunidade.
- A sustentabilidade do crescimento da indústria de defesa após o aumento de investimentos é incerta, exigindo a inclusão de outras áreas da economia para garantir um desenvolvimento a longo prazo.
Poucos meses depois da invasão russa da Ucrânia, a Tekever teve um pedido das forças ucranianas. Pediram-se aos fabricantes de drones a atuar no país para mudar os motores dos sistemas. “Para uma empresa que vem do lado da aeronáutica é uma coisa absolutamente louca. Nós em três semanas tínhamos mudado os sistemas todos, numa semana de campo na Polónia, fizemos retrofit das trocas aos sistemas que já lá estavam e no fim do mês estavam literalmente a voar com motores novos”, conta Rui Lobo, diretor da Tekever.
“É um exemplo do que, quando falamos em agilidade, não é só do lado do software, mas também do lado do hardware. O que aconteceu com os outros todos [fabricantes de drones que lá estavam] foi que ficaram para trás”, conta. “É uma questão de velocidade”, sintetiza o diretor da Tekever durante o painel “Europa à Defesa: O que Ganha a Indústria Portuguesa?”, no âmbito na conferência do eRadar, que decorreu esta quinta-feira no Centro Cultural de Belém.
Os drones — setor onde a Tekever atua — já representam cerca de 20% das exportações do setor de defesa português e estão em franco crescimento. Com a Europa apostada em reforçar as suas capacidades de defesa, poderão os drones afirmar-se como um ‘campeão nacional’ do setor? Afirmar-se como um cluster?
“De alguma forma já é, não é?”, reage Rui Lobo. “Na nossa opinião, é precisamente na área do software onde nós [enquanto país] temos mais capacidades até, do ponto de vista da formação das pessoas, da disponibilidade, os recursos que temos, de criar essa área de campeão nacional”, diz.

“Não estamos só a falar de sistemas aéreos, estamos a falar de autonomia do sentido lato, que vai ter cada vez mais necessidades de software de inteligência artificial associada. É onde Portugal, claramente, tem mais capacidade e mais possibilidade de criar este cluster à volta dos sistemas autónomos”, aponta o diretor da Tekever.
A guerra na Ucrânia, o elevar da tensão política entre a Europa e o velho aliado americano, sob a liderança da Administração Trump e, mais recentemente, o conflito no Médio Oriente, estão a colocar o tema da defesa no topo das prioridades dos Estados. A União Europeia (UE) está a libertar fundos e a avançar com programas como o SAFE para dar robustez financeira aos países membros nos seus esforços de reequipamento das Forças Armadas da UE.
Portugal garantiu 5,8 mil milhões de euros para comprar fragatas, caças, viaturas blindadas… O foco está a ser na indústria de defesa incumbente esquecendo a nova indústria de defesa? Estará o país apostar as fichas numa velha guerra e a ficar despreparado para a nova guerra?
“Não sou especialista de defesa e, portanto, não consigo avaliar numa perspetiva macro. O que é a nossa experiência é que há lugar para os dois e há necessidade de haver os dois. Não é que a defesa alavancada e suportada em hardware vá desaparecer, vai ser sempre necessária, tem é um papel diferente”, diz Rui Lobo. “O desafio aqui, mais do que se a discussão, deve ser se compramos X fragatas ou Y caças, é como é que essas fragatas e essas caças vão ser incorporadas numa nova abordagem militar em em que obviamente a autonomia vai ter um papel muito mais importante”, atira.
E estará a indústria de defesa nacional com capacidade de dar resposta às necessidades da Forças Armadas? E o que está a retirar de mais-valias para a economia portuguesa estes avultados investimentos europeus no setor?

“Temos a capacidade hoje que não tínhamos há 12 anos. Temos empresas neste momento a exportar drones para a Ucrânia, a lançarem satélites para o espaço, a Força Aérea a mostrar imagens reais das observações que fazem a nível espacial, envolvendo empresas nacionais. Temos um cenário completamente diferente do que tínhamos há 12 anos”, elenca José Neves.
“Isso é muito importante, de certa forma também cria uma pressão maior sobre os decision makers, nomeadamente o Ministério da Defesa, porque nós temos neste momento a capacidade que não tínhamos. Portanto, cada vez mais temos que pensar em contratar menos fora e desenvolver mais em Portugal”, argumenta o presidente da AED Portugal, associação que reúne mais de 100 empresas do setor de defesa, espaço e aeronáutica no país.
“Olhando para o SAFE, é a economia que irá pagar o SAFE, portanto, convém que o próprio governo português se proteja na intervenção”, atira o responsável da AED Portugal.
Projetos bandeira europeus como “Space Shield” [Iniciativa da UE que visa proteger ativos espaciais e serviços europeus contra ameaças, integrando satélites nacionais e comerciais] ou o “Drone Shield” [iniciativa estratégica de defesa da UE para proteger o continente contra ameaças aéreas como drones russos, veículos aéreos não tripulados (UAV) ou ‘drones kamikaze’] são, argumenta José Neves, “projetos em que Portugal pode ter um papel crítico que não tinha há cinco anos” o que, diz, significa “mais pressão para os decision makers portugueses, que temos uma indústria capaz, que temos que forçar, de certa forma, a nossa presença em Bruxelas neste tipo de decisões”.
“Temos que ter, se calhar, um pouco mais de velocidade. Nós temos o talento, temos o timing para esse talento, agora temos que acompanhar o timing europeu”, diz. “E as coisas na Europa estão a acontecer muito rapidamente. Mas para os projetos como o Space Shield, se não respondermos rapidamente, outros países vão ocupar esse espaço“, alerta.
Soberania digital: uma oportunidade para as empresas portuguesas
“O mínimo que se pode esperar, e acontecerá seguramente, é que com os contratos de investimentos associados às aquisições haja investimento na indústria portuguesa. O que se devia esperar é que, no estabelecimento e na definição desses investimentos, se olhe para onde é que eles geram mais valor e um valor que não se fique pela manutenção do equipamento comprado e que haja capacidade de exigir [que] essa capacidade [seja alargada] para o resto da economia. Para criar e dar oportunidades à indústria portuguesa. Isto significa ter uma visão flexível das regras que outros países têm, e Portugal não tem tido historicamente“, atira Adolfo Mesquita Nunes
O partner da Pérez-Llorca lembra que estão a ser feitas alterações ao Código dos Contratos Públicos, “que não são hiperrelevantes para aqui, mas que flexibilizam brutalmente ” e, por outro lado, “há uma indústria mais preparada para poder conseguir negociar com o Estado, ajudar na definição dessas condições, que não existia há mais tempo”, destaca.

Mas, na contratação/compra de equipamento, é importante que haja “outras áreas da governação, precisamente aqueles que vão olhar para além da aquisição e da utilização, que vão olhar para a mancha que pode ficar na indústria portuguesa”, refere quando questionado sobre que condições poderiam ser criadas para que a indústria de defesa nacional tirasse maior partido das grandes aquisições militares que estão a ser fechadas para as Forças Armadas nacionais.
Adolfo Mesquita Nunes alerta igualmente para um tema que não só poderá representar uma oportunidade para as indústrias de defesa nacionais, como coloca em cima da mesa um novo desafio: a soberania digital na era da IA. Quem controla os dados? Que jurisdição se aplica em caso de litígio, “se eu der uma ordem a esta empresa, ela vai respeitar ou vai respeitar a ordem de um Estado diferente do meu?”, questiona o advogado.
Incógnitas que podem trazer vantagem às empresas europeias. “Se o Estado português quiser ter soberania nacional, para além de uma soberania europeia, uma vantagem acrescida que as empresas portuguesas têm é poder dizer ao Estado português, ‘há aqui uma capacidade de atuabilidade, de controle, de jurisdição, que em momentos de crise — e os momentos de crise não são apenas guerras — há aqui uma redundância e poder de atuação'”, aponta Adolfo Mesquita Nunes.
Mas isso traz igualmente desafios para as empresas. “A estrutura de governance da empresa tem que ser capaz de comprovar que há transparência sobre a sua estrutura acionista, sobre a quem é que ela cumpre ordens”, aponta. Mas não só. Qual é a sua cadeia de fornecimento, que controlo exerce sobre ela.
E como se consegue essa autonomia, quando, de momento, os principais players de IA são não-europeus? “Da mesma forma que a Europa olhou para a indústria de defesa que tinha e disse ‘preciso de dar aqui um salto’, está a fazer exatamente a mesma coisa na área da inteligência artificial”, aponta Adolfo Mesquita Nunes.
“Onde é que tipicamente a inovação acontece antes de qualquer outro sítio? É na área da defesa. E isto também é assustador. De repente, os Estados estão-se a aperceber que na área mais central da soberania, tudo aquilo que começa a ser determinante está no setor privado e não controlam”, alerta.
“É um wake-up call. E, portanto, empresas europeias, portuguesas, que tenham capacidade de dar resposta a esta ideia de jurisdição europeia, têm uma vantagem competitiva e eu acho que algumas das nossas empresas conseguirão ter um papel nisso”, afirma.
Manter a dinâmica a longo prazo na defesa para não ser “nova agricultura”
Francisco Oom Peres olha para o setor e coloca a questão? Haverá capacidade de manter a dinâmica de crescimento no pós onda massiva de investimento na Defesa?
“Esta onda de crescimento e desenvolvimento de negócios na área da defesa e do espaço começou antes desta confusão geopolítica dos últimos anos e deste boost orçamental que tem estado a ser dado. Isto para nós está a funcionar como um acelerador. Isto permitiu-nos, do ponto de vista financeiro, ter aqui um boost que nos permitiu ir trabalhar em escalas que não estávamos habituados”, começa por comentar o chief operating officer da Orion Technik.
Para o responsável da empresa, que atua no setor de aeronáutica e MRO, há “dois desafios muito grandes” que o setor enfrenta. “Vamos ter a capacidade de manter este ritmo quando esta torneira for fechada. Ou vamos ser a nova agricultura: ‘se há subsídios e SAFES a gente consegue crescer e pôr satélites no espaço e vender, por aí fora… No dia em que fecharem a torneira, conseguimos ou não conseguimos?”, questiona.
“Não querendo ser mal interpretado, [agora] é um momento em que é relativamente fácil vender no curto prazo, mas temos de nos preparar para o que vem a seguir, porque isto não vai durar sempre, como é expectável”, alerta.

Para manter essa dinâmica há que envolver outras empresas que não apenas do setor. “Isto não pode ficar restrito ao ecossistema das empresas de defesa e de espaço. Para que se torne numa tendência de longo prazo, precisamos rapidamente trazer outras áreas da sociedade que, por regra, não têm estado presentes. Quantas universidades é que estão aqui presentes? Quantos institutos, de pós-graduações, de formação de executivos, de escolas técnicas que nós, portanto, precisamos, não estão de forma contínua presente neste nosso ecossistema?”, aponta.
“Vamos ter de encontrar forma de transpor este investimento a ser feito no curto prazo nas indústrias deste ecossistema, que encontrar formas de rapidamente agilizar os processos para trazer outras indústrias portuguesas, outras áreas da economia portuguesa para dentro deste movimento. Sem estes dois elementos, corremos o risco de isto ter sido um momento esporádico, e não conseguirmos criar as condições para que se torne um movimento de médio e longo prazo como todos nós esperamos que aconteça”, diz.
“Temos que pensar no sucesso destes negócios daqui a 10, 20 anos e não numa mera capacidade de ganhar negócio no curto prazo e capitalizar os fundos que atualmente estão disponíveis nos diferentes instrumentos”, alerta.
Assista aqui ao painel “Europa à Defesa: O que Ganha a Indústria Portuguesa?”
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