Europa precisa de 475 mil milhões de euros para concluir a implementação do 5G e recuperar a liderança digital
Segundo o mais recente relatório da GSMA Intelligence. Nas condições atuais, os operadores europeus só poderiam mobilizar 270 mil milhões de euros, deixando uma lacuna de 205 mil milhões de euros.
Parte desta lacuna está concentrada em áreas diretamente ligadas à resiliência tecnológica. Cerca de metade, cerca de 104 mil milhões de euros, seriam necessárias para estender o 5G aos principais corredores de transporte, enquanto outros 35 mil milhões seriam usados para alcançar a cobertura total da população.
A análise detalha ainda que seriam necessários 38.000 milhões de euros para reforçar a resiliência das redes e mais 28.000 milhões para permitir serviços baseados em inteligência artificial. “O 5G avançado não é apenas uma melhoria de velocidade para o consumidor, mas uma infraestrutura essencial para a indústria, defesa, mobilidade e serviços digitais de próxima geração”, sublinha o relatório.
Na Europa, a implementação do 5G autónomo, que inclui redes privadas, computação de ponta e conectividade por satélite, mal atinge 2% da população, comparado com 80% na China e cerca de 50% na Índia. Esta situação destaca a necessidade de acelerar o investimento em tecnologias críticas para garantir a autonomia tecnológica do continente.
LACUNA DE INVESTIMENTO
A dependência tecnológica da Europa tem sido alvo de debate, especialmente após um relatório no Financial Times que analisa como a vida diária no continente mudaria se não houvesse acesso a serviços digitais dos EUA como o Gmail, Google Maps ou Facebook. Segundo a GSMA, a autonomia tecnológica requer não só alternativas a estas aplicações, mas também o desenvolvimento de infraestruturas críticas.
A Telefónica, uma das principais empresas de telecomunicações da Europa, lidera iniciativas nesta área. A empresa anunciou projetos em áreas como cloud, computação de borda, 5G crítico, satélites, drones, cibersegurança e tecnologias quânticas para reforçar as capacidades estratégicas da Europa num momento de crescente preocupação com a sua dependência tecnológica.
Entre os principais projetos está o EURO-3C, um consórcio promovido em conjunto com a Comissão Europeia e que reúne mais de 70 entidades no continente. Este projeto visa implementar uma infraestrutura federada de telecomunicações, edge, cloud e inteligência artificial com mais de 70 nós em 13 países europeus, direcionada a setores-chave como transportes, energia, saúde e segurança pública.
Além disso, a Telefónica participou em mais de 15 exercícios operacionais críticos de conectividade no âmbito da NATO. Estas redes privadas e seguras são essenciais para operar em cenários sem conectividade convencional ou onde esta possa ser comprometida. Também assinou um acordo com a Sateliot para expandir a cobertura em áreas remotas e marítimas, apoiando serviços críticos de segurança e defesa.
TECNOLOGIA QUÂNTICA E RESILIÊNCIA
O projeto Quantum Telco, anunciado pela Telefónica, procura ajudar as empresas a migrar para padrões resistentes a futuras ameaças quânticas. Este avanço contribui para o debate europeu sobre inteligência artificial, que levanta a necessidade de gigafábricas de IA para fornecer ao continente maior capacidade computacional e avançar redes avançadas, centros de dados eficientes e cibersegurança.
A Europa continua a ficar atrás dos EUA e da China em escala, capacidade computacional, desenvolvimento de chips e distribuição global. Embora existam intervenientes relevantes como a Mistral no campo da inteligência artificial, o continente ainda enfrenta desafios significativos para alcançar líderes mundiais.
A resiliência tecnológica europeia, segundo o relatório da GSMA, não será construída apenas com novas aplicações, mas com redes capazes de operar em situações de crise, processar dados próximos do território, proteger comunicações sensíveis e ligar setores estratégicos em ambientes complexos.
PROPOSTAS REGULATÓRIAS
O relatório propõe três alavancas-chave para incentivar o investimento em tecnologia: favorecer uma maior consolidação nos mercados, avançar para uma gestão mais eficiente do espetro e corrigir as assimetrias regulatórias que limitam o crescimento das receitas dos operadores.
Um quadro regulatório mais equilibrado entre os intervenientes do ecossistema digital desbloquearia novos investimentos em redes, melhoraria a competitividade do setor e aceleraria a inovação tecnológica na Europa. Segundo a GSMA, isto é essencial para que o continente recupere a sua liderança digital e garanta a sua soberania tecnológica perante as potências mundiais.
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