Sete em dez portugueses diz que poupa para a reforma, mas só um terço o faz todos os meses
Há um fosso entre o que os portugueses dizem fazer e o que fazem de facto quando o tema é a reforma, e os números de um novo estudo mostram que o problema é maior do que parece.
- A preocupação com a reforma enfrenta um descompasso entre a intenção de poupança e a prática, com 68% dos inquiridos a afirmarem poupar, mas apenas 34% a fazê-lo mensalmente.
- O Barómetro Doutor Finanças revela que 47% dos portugueses duvidam da capacidade da Segurança Social em cumprir compromissos futuros, refletindo um ceticismo generalizado sobre as pensões públicas.
- Apesar da consciência sobre a importância da reforma, 73% dos inquiridos desconhecem quanto precisam acumular, evidenciando uma lacuna preocupante em literacia financeira e planejamento.
Há um fosso profundo entre a intenção e a prática quando o tema é a reforma. Num país onde a pensão mediana já representa apenas 68% do salário mediano antes de se reformar e com as projeções da Comissão Europeia a apontarem para que em 2050 esse valor possa cair para 38,5% do último ordenado, seria de esperar que os portugueses estivessem cada vez mais atentos à necessidade de construir uma almofada financeira própria.
Porém, o retrato que emerge do Barómetro Doutor Finanças sobre Preparação da Reforma, realizado pelo Centro de Estudos Aplicados da Universidade Católica entre fevereiro e março junto de 700 inquiridos residentes em Portugal, é bem diferente: 68% dos inquiridos afirmam poupar para a reforma, mas apenas 34% o fazem mensalmente e 73% não sabem sequer de quanto precisam acumular para manter o seu nível de vida depois de deixarem de trabalhar.
Esta incoerência entre discurso e comportamento não é surpreendente quando se observa o grau de incerteza emocional que envolve o tema, assim como os resultados de outros inquéritos à literacia financeira dos portugueses.
Quase metade dos inquiridos (47%) não acredita que a Segurança Social consiga cumprir os seus compromissos no futuro e 55% consideram inclusive que a pensão pública não será suficiente para manter o atual nível de vida.
Quando confrontados com a palavra “reforma”, 38% dos inquiridos associam-na imediatamente a incerteza e só depois (35%) a descanso. E quando questionados sobre o que sentem ao pensar no seu futuro pós-laboral, 49% revelam medo ou ansiedade, ao passo que apenas 32% respondem com confiança.
“Os portugueses sabem que a reforma é um tema importante, mas a distância emocional que sentem em relação ao assunto impede muitas vezes que a intenção se transforme em ação concreta”, afirma Sérgio Cardoso, responsável da Academia do Doutor Finanças ao ECO. Ainda assim, 59% encaram a reforma como um direito conquistado, o que revela uma visão que é, simultaneamente, de legitimidade e de fragilidade.
O ceticismo face ao sistema público de pensões é transversal. Quase metade dos inquiridos (47%) não acredita que a Segurança Social consiga cumprir os seus compromissos no futuro, e 55% consideram inclusive que a pensão pública não será suficiente para manter o atual nível de vida.
Quando colocados perante um cenário hipotético em que a reforma corresponderia a 65% do rendimento atual do agregado familiar, 54% antecipam dificuldades graves: 22% admitem que teriam problemas para cobrir despesas essenciais e 32% que não conseguiriam manter o seu estilo de vida. “O sistema está sob pressão e os portugueses sentem isso. O problema é que essa perceção de risco raramente se traduz num plano de ação”, sublinha Sérgio Cardoso.
São os mais jovens quem proporcionalmente mais poupa a pensar no futuro, com 33% dos inquiridos entre os 18 e os 25 anos a declararem fazê-lo.
Apesar do pessimismo face ao futuro das pensões públicas, a falta de planeamento é gritante: dois em cada três portugueses (65%) nunca fizeram uma simulação do valor da sua pensão futura e um terço admite que não sabe sequer quanto irão receber.
A principal barreira para quem não poupa mais para a reforma é a falta de rendimento (52%), muito acima de outras razões como a falta de disciplina (5%) ou de informação (3%). E entre quem já poupa, os instrumentos mais utilizados são Planos Poupança Reforma (PPR) e fundos de investimento (30%), seguidos dos depósitos e poupança simples (27%), enquanto 26% afirma não utilizar qualquer solução de preparação para a reforma.
O estudo aponta também para que sejam as gerações mais jovens as mais consciencializadas para o tema da reforma, e também as mais apreensivas.
- A faixa etária dos 25 aos 35 anos é a que mais rejeita a ideia de adiar o planeamento: 60% discordam ou discordam totalmente da afirmação “tenho tempo para pensar na reforma mais tarde”, uma percentagem superior à das faixas etárias mais próximas da idade de reforma.
- São também os mais jovens quem proporcionalmente mais poupa a pensar no futuro, com 33% dos inquiridos entre os 18 e os 25 anos a declararem fazê-lo. Esta consciência precoce contrasta, porém, com a dificuldade estrutural de agir: a falta de rendimento mantém-se como o principal obstáculo, independentemente da geração.
No plano das aspirações, o retrato é de uma velhice desejada com leveza e plenitude. Viajar é a principal ambição de 58% dos inquiridos para a fase da reforma, seguida de passar mais tempo com família e amigos (19%). Contudo, por detrás dessa imagem de lazer escondem-se receios como problemas de saúde (81%), perda de rendimento (29%) e custos com a habitação (23%).
No fim, os números deste barómetro contam uma história conhecida, mas difícil de aceitar: a de um país que sabe o que precisa de fazer, mas que adia o momento de agir. Quando 73% dos portugueses não sabem de quanto precisam para se reformar com dignidade, o problema deixa de ser apenas financeiro e passa também a ser uma questão de literacia, de confiança e de futuro. E o futuro, como a própria reforma, não espera.
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Sete em dez portugueses diz que poupa para a reforma, mas só um terço o faz todos os meses
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