Soberania digital e espacial europeia passa (também) pela cibersegurança
A IA está a colocar desafios de cibersegurança às empresas. Com data centers a surgir (não tarda) no espaço, a soberania digital e do espaço passa também pela cibersegurança.

A inteligência artificial (IA) e os modelos de IA estão a acelerar os ataques — e a defesa — das empresas ao nível da cibersegurança. Hoje quase metade do tráfego na internet é feita por bots maliciosos. Desafios de cibersegurança que já se colocam no setor do Espaço (com os satélites) e quando já se antecipa (não tarda) a existência de data centers nesta nova fronteira os desafios de cibersegurança estão na ordem do dia. Soberania digital e espacial da Europa também se joga aqui.
“A parte da regulação é fundamental, imprescindível. A realidade é que hoje uma boa parte do tráfego que existe na internet é realizada por bots. E cerca de mais de 50% do tráfego mundial na internet é realizado por agentes, por bots, sendo que desse tráfego, 40% é malicioso, ou potencialmente malicioso” afirmou Sérgio Barbedo, country director & CEO Thales, com base num report global da empresa, durante o debate “Cibersegurança: os Desafios da IA e a Capacidade de Resposta Europeia” da conferência eRadar, que decorreu na quinta-feira no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.
Sérgio Barbedo frisou que os Estados, dentro da sua soberania, precisam de ter “leis que regem aquilo que os seus cidadãos e quem está no seu espaço podem fazer”, assim como “o acesso que podem ter”. O CEO da Thales defende que os Governos têm de elaborar mecanismos de resposta para quando forem “confrontados com agências mais avançadas, que neste momento têm um acesso muito fácil e quase completo aos seus dados, que são a sua soberania e que são a sua proteção”.

Carlos Carvalho, CEO da Adyta, acredita que “disponibilizar a organizações europeias o acesso a modelos restritos, seja OpenAI, seja Anthropic”, pode ser uma “mais-valia, mas não deixa de ser uma mais-valia com uma grande fragilidade estratégica, porque continuamos dependentes de mecanismos e de soluções baseadas, estruturadas e assentes fora da Europa”.
O CEO da Adyta destacou que “apesar dessas soluções nos poderem pontualmente ajudar, muito facilmente poderão ser negadas ou serem usadas contra aquilo que é a Europa“, defendendo que é preciso “começar a ter um pensamento estratégico”. “Devemos ter muita atenção àquilo que deve ser a soberania portuguesa dentro da soberania europeia”, adicionou. Ainda alertou que, se o caminho de regulação da soberania digital for feito pela Comissão Europeia, “vamos continuar a perder tempo a discutir regulação e não a desenvolver tecnologia”.
André Dias, diretor da Unidade de Espaço e Digital do CEiiA, concordou com os restantes oradores, afirmando que a vulnerabilidade é “de facto muito grande” e “claramente muito difícil de corrigir”. Ao abordar os níveis de segurança digital no setor espacial, André Dias refere que “existem, curiosamente, até restrições ou requisitos de cibersegurança mais fortes do que são, por exemplo, aquelas que são as restrições impostas pela diretiva europeia”, uma consequência do EU Space Act.
O diretor da Unidade de Espaço e Digital do CEiiA atentou que, atualmente, os “satélites são enviados para o espaço sem software”. “A prioridade é fazer o software, integrar, lançá-lo o mais rápido possível para ocupar, de alguma forma, a capacidade [dos satélites]”, vincou André Dias, que alertou, também, para a necessidade em criar mecanismos de “garantia de origem da imagem” e a possibilidade de “alterarmos, deturparmos uma imagem e a forma como ela depois pode ser usada”.

Face às ameaçadas colocadas pelos modelos de IA, que aceleram o ritmo dos ataques, é possível falar de cibersegurança? O que podem as empresas fazer para se proteger?
Sérgio Barbedo diz que sim, e até “cada vez mais”, mas alerta para a existência de uma vertente em ter em conta. “Estes modelos ainda não são autónomos, ou seja, eles quando lançam um ataque, alguém lhes ordenou que lançasse o ataque. Não há ainda uma decisão autónoma do modelo”. O líder da Thales acautelou que a Europa, comparada com os Estados Unidos e a China, está “a ficar para trás em termos de capacidade de transformar conhecimento [tecnológico] em valor”.
Para o Country Director & CEO Thales, a resposta para estas ameaças “é uma faca de dois gumes”. “Por um lado, se as empresas não se abrem e não utilizam e não põem as suas equipas e as suas pessoas a utilizar a inteligência artificial, ficam para trás. Por outro lado, se utilizam [modelos de inteligência artificial] sem governance, sem cuidado, sem compreender que estão a mexer em armas de destruição maciça quase, nós de repente passamos a ter os cidadãos com armas fortíssimas nas mãos, correm riscos”, afirmou.
O líder da Adyta, Carlos Carvalho, acredita que a solução “passa, não só por prepararmos ou adaptarmos a Europa a esta realidade digital, mas de começarmos verdadeiramente a acelerar o negócio tecnológico dentro da Europa“. “Enquanto não tivermos na Europa poder tecnológico, vamos estar dependentes sempre de outras organizações, por mais restrições que lhes estejamos a colocar”, vincou.

Aliada a aceleração digital do bloco, Carlos Carvalho defende que a indústria nacional tem “que rapidamente promover parcerias verdadeiras com estas empresas de maior dimensão“, dando a oportunidade às empresas do país de “conhecer o que ali é feito” de modo que Portugal ganhe “capacidade para, em determinados pontos, adicionarmos capacidade tecnológica nacional à camada que essas entidades já estão a fornecer”.
O líder da Adyta defende que estas grandes empresas estrangeiras, como a OpenAI e a Anthropic, “para operarem dentro das nossas fronteiras, dentro do nosso país” devem respeitar a regulação nacional, garantindo “mais independência tecnológica perante outros países”.
“Não vale a pena estarmos fechados no nosso entorno regulatório, porque a competitividade é global“, e é um setor onde “não há fronteiras” físicas, argumenta, por seu turno, André Dias. O diretor da Unidade de Espaço e Digital do CEiiA acredita que, nos próximos dez anos, haverá “data centers de grande escala a operar a partir do espaço” e que esta, “neste momento, é uma realidade inegável”.
Assista aqui o terceiro painel “Cibersegurança: os Desafios da IA e a Capacidade de Resposta Europeia”
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