Anúncios no ChatGPT? “É, conceptualmente, muito interessante”, dizem os anunciantes

Rafael Correia,

A OpenAI está a testar anúncios no ChatGPT em nove mercados, onde se inclui o Reino Unido. A Associação Portuguesa de Anunciantes dá a sua visão sobre esta aposta.

Um dos exemplos fornecidos pela OpenAI no seu blog
ECO Fast
  • A OpenAI está a expandir o seu modelo de publicidade no ChatGPT, após testes bem-sucedidos nos EUA, agora abrangendo vários países, incluindo o Reino Unido e o Brasil.
  • A empresa já ultrapassou os 100 milhões de dólares em receitas publicitárias em menos de dois meses e trabalha com mais de 600 anunciantes, destacando a relevância do contexto na interação com os utilizadores.
  • O sucesso a longo prazo da publicidade no ChatGPT dependerá da eficácia e da confiança, defende a APAN, sendo essencial garantir a neutralidade das respostas para evitar riscos de brand safety.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

Penso nos anúncios como um último recurso para nós enquanto modelo de negócio.” Era assim que Sam Altman, CEO da OpenAI, se referia à publicidade na ferramenta de inteligência artificial (IA) da sua startup em maio de 2024, num evento na Universidade de Harvard.

A verdade é que, passados alguns meses, Sarah Friar, diretora financeira da OpenAI, dizia ao Financial Times que se estava a avaliar um modelo de anúncios, acrescentando que a empresa planeava ser “cuidadosa sobre quando e onde os implementar”. “O nosso negócio atual está a registar um crescimento rápido e vemos oportunidades significativas dentro do nosso modelo de negócio existente. Embora estejamos abertos a explorar outras fontes de receita no futuro, não temos planos ativos para introduzir publicidade”, sublinhava na altura

Dois anos passados, a OpenAI está a abraçar o modelo da publicidade. Com os testes iniciados em fevereiro nos EUA, o sucesso do piloto levou a uma primeira fase de alargamento, à qual se juntaram a Austrália, a Nova Zelândia e o Canadá em março. Já este mês, a OpenAI anunciou uma nova expansão do modelo de testes para o Reino Unido, Brasil, Japão, Coreia do Sul e México.

O atrativo do ChatGPT: contexto e intenção

Em Portugal, a Associação Portuguesa de Anunciantes (APAN) vê esta entrada no mercado publicitário como “um sinal inequívoco de que a inteligência artificial deixou de ser apenas um tema de inovação tecnológica para se tornar um vetor central na forma como as marcas comunicam e se relacionam com os consumidores”.

Mas o que torna o ChatGPT tão interessante para os anunciantes? “É o contexto em que a interação ocorre”, refere Ricardo Torres Assunção, secretário-geral da APAN, em resposta ao +M.

Estamos a falar de um ambiente de elevada intenção e envolvimento, quando o utilizador está ativamente a procurar informação, a tomar decisões, a resolver problemas. Isso representa uma oportunidade muito diferente, por exemplo, de um feed de redes sociais, onde a publicidade surge de forma interruptiva. A proximidade ao momento de decisão é, em teoria, um ativo muito valioso para as marcas“, explica.

Num momento em que captar atenção genuína é cada vez mais difícil e dispendioso, um ambiente como o do ChatGPT oferece algo considerado raro: o utilizador não está a fazer scroll distraído, mas a construir um raciocínio. “Nesse contexto, uma mensagem de marca verdadeiramente relevante e útil tem uma probabilidade de impacto muito superior à média do mercado digital. A possibilidade de integrar a publicidade de forma contextual e não intrusiva é, conceptualmente, muito interessante”, acrescenta o responsável.

Apesar disso, Ricardo Torres Assunção nota que, estando-se numa fase inicial de teste e aprendizagem, “seria prematuro tirar conclusões definitivas“. Há questões relevantes que precisam de respostas concretas antes de uma adoção generalizada, “tais como critérios de segmentação, garantias em termos de brand safety e transparência“.

Uma ambição bilionária e o desafio de destronar gigantes

Apesar de a incursão ser recente, a OpenAI indicou, em março, ter ultrapassado os 100 milhões de dólares (cerca de 86 milhões de euros) em receitas em menos de dois meses após o lançamento do piloto nos EUA. A empresa revelou estar a trabalhar com mais de 600 anunciantes e assegurou que as métricas de confiança em relação à privacidade não tinham sido impactadas. Aproximadamente 85% dos utilizadores das versões gratuita e Go da OpenAI nos EUA são elegíveis para ver anúncios, mas menos de 20% os visualizam diariamente.

Em abril, o portal Axios noticiou que a OpenAI espera atingir 2,5 mil milhões de dólares em receitas publicitárias este ano, e a impressionante marca de 100 mil milhões de dólares até 2030 — um número que se baseia no objetivo de atingir 2,75 mil milhões de utilizadores semanais.

A consultora Madison and Wall descreveu esta ambição como “altamente improvável”, mas não tecnicamente impossível, prevendo que o mercado publicitário mundial chegue aos 1,23 biliões de dólares até 2030 — assumindo um crescimento anual de 7,5% e excluindo a China, onde a OpenAI não deverá operar em grande escala.

De acordo com a World Advertising Research Center (WARC), o objetivo da OpenAI significaria absorver cerca de 8% de todo o mercado disponível. “Este número parece grande, mas não é inédito. A Google, a Meta e a Amazon detêm quotas de mercado comparáveis ​​ou até maiores atualmente”, lembra a entidade.

No entanto, há que ter em conta a velocidade. A Alphabet (empresa-mãe da Google) demorou 18 anos a atingir o objetivo que a OpenAI quer alcançar em apenas cinco. Já a Meta demorou 14 anos. Para chegar aos 100 mil milhões em 2030, a OpenAI necessitaria de mais do que triplicar a sua receita a cada ano durante três anos consecutivos (a partir de 2027) — “uma taxa de crescimento sem precedentes no setor publicitário“, refere a WARC.

Perante esta ambição, Ricardo Torres Assunção considera que, “se a OpenAI conseguir escalar de forma sustentável, garantindo simultaneamente eficácia, segurança da marca, transparência e respeito pela privacidade, poderá tornar-se um novo player relevante no ecossistema publicitário digital“.

Contudo, descarta a ideia de que possa ultrapassar plataformas como a Google ou a Meta a curto prazo. “Parece-nos excessivo. Essas empresas têm décadas de maturidade publicitária, infraestruturas muito robustas, escala global comprovada e ecossistemas integrados que não são facilmente replicáveis no curto ou médio prazo“.

Para o secretário-geral da APAN, o cenário mais provável e interessante para as marcas é o ChatGPT ocupar “um espaço complementar e diferenciado”, capturando um segmento de alta intenção “que hoje está relativamente subaproveitado” e reduzindo a dependência “de dois ou três grandes gatekeepers“.

O Modelo de Negócio e o Funcionamento dos Anúncios

Desde o lançamento do piloto, a OpenAI tem adaptado a sua oferta comercial. Numa primeira fase, a empresa pedia 60 dólares por CPM (custo por mil impressões) com um compromisso mínimo de 250 mil dólares. Agora, os valores rondam os 25 e 45 dólares de CPM (compromisso mínimo de 50 mil dólares entretanto abandonado). Além disso, permite definir valores entre 3 e 5 dólares por clique (CPC) e criou um pixel de rastreamento de conversão.

Ao mesmo tempo, criou uma plataforma de gestão de anúncios abrindo o piloto a todas as empresas nos EUA — e recrutou, em março, David Dugan para assumir o cargo de vice president e headof global adssolutions na empresa. O executivo transitou da Meta, onde era vice president of global clients and agencies, e conta no seu percurso com passagens pela Arnold e pela Digitas.

De acordo com a OpenAI, o sistema seleciona os anúncios com base na sua relevância perante o contexto e a intenção da conversa, analisando fatores como “dicas de contexto, página de destino, título e o texto do anúncio”. Os anunciantes podem fornecer dicas de contexto para orientar a correspondência, embora não se tratem de palavras-chave exatas. Na prática, os anúncios são exibidos no final das respostas geradas pelo chatbot.

Acho que, nesta fase, eles querem obter o máximo de dados possível para perceberem tudo sobre o engagement, o que funciona, o que não funciona, o que gera efetivamente cliques e o tipo de conteúdo que podem promover”, afirmou Jai Amin, diretor de soluções na Jellyfish, ao Digiday. A publicação relatou ainda que o código do píxel de conversão da plataforma foi atualizado com um sistema de gestão de consentimento, permitindo aos utilizadores revogar a permissão de rastreio a qualquer momento — um passo considerado essencial para cumprir os regulamentos europeus e preparar a entrada na União Europeia.

No anúncio da expansão global em março, a OpenAI confirmou o otimismo: “Os resultados iniciais são encorajadores. Não observámos impacto nas métricas de confiança do consumidor, [registamos] baixas taxas de rejeição de anúncios e melhorias contínuas na relevância. Estes sinais positivos permitem-nos avançar para a próxima fase”.

Os anunciantes portugueses estariam dispostos a avançar?

“Relativamente à dimensão do investimento e às condições comerciais, é natural que, numa primeira fase, este seja um território mais acessível a grandes anunciantes globais ou a marcas com maior capacidade financeira“, antecipa o representante da APAN.

Caso a funcionalidade chegue a Portugal, “será importante perceber se o modelo evolui no sentido de se tornar mais inclusivo, permitindo também a entrada de anunciantes nacionais de menor dimensão, algo que historicamente tem sido determinante para a adoção de novas plataformas no nosso mercado”.

“Se a OpenAI seguir um caminho semelhante [ao adotado nos EUA], e não há razão para crer que não o fará, o mercado português poderá eventualmente vir a ter acesso a soluções adaptadas à sua realidade“, antecipa. A APAN aconselha que os anunciantes portugueses se mantenham informados e participem nos pilotos europeus, argumentando que “a aprendizagem antecipada vale sempre o investimento”.

Mas de onde sairão os orçamentos das marcas para investir no ChatGPT? “A experiência histórica mostra-nos que o surgimento de novos meios digitais tende, numa primeira fase, a provocar sobretudo uma realocação interna dentro do envelope digital. Os orçamentos destinados a search, display ou redes sociais são revistos e parte desse investimento é canalizado para experimentação em novos formatos e plataformas”, resume Ricardo Torres Assunção.

Já o desinvestimento nos meios tradicionais costuma ser “um processo mais lento e estrutural, que decorre de múltiplos fatores e não de uma decisão singular“. “A questão central permanece a mesma de sempre e o investimento seguirá os resultados. Se a plataforma conseguir demonstrar eficácia comprovada, atribuição clara e retorno mensurável, os orçamentos virão, seja do digital existente, seja de meios tradicionais. Se não o conseguir, ficará pela experimentação pontual de alguns anunciantes pioneiros”, conclui.

O Risco: confiança, brand safety e privacidade

Para a APAN, o sucesso da publicidade no ChatGPT a longo prazo depende de dois pilares indissociáveis: a eficácia e a confiança. Ricardo Torres Assunção alerta que a credibilidade da plataforma assenta na perceção de neutralidade e imparcialidade das respostas. “Qualquer perceção de que a publicidade está a contaminar essa neutralidade pode ter um efeito muito negativo, não apenas na eficácia das campanhas, mas na relação do utilizador com a própria plataforma“, explica o secretário-geral. “Para os anunciantes, isso representa um risco de brand safety que não pode ser ignorado”, destaca.

Para o mitigar, a OpenAI estabeleceu algumas barreiras, referindo que “os anunciantes não têm acesso às suas conversas, histórico de conversas, lembranças ou dados pessoais. Os anunciantes recebem apenas informações agregadas e não identificáveis sobre o desempenho de seus anúncios, como o total de visualizações ou cliques”.

Além disso, anúncios sobre temas sensíveis ou regulamentados, incluindo saúde, saúde mental ou política e anunciantes em setores como encontros, saúde, serviços financeiros ou política estão excluídos da publicidade e esta não aparece em contas utilizadas por menores de 18 anos.

A separação clara entre conteúdo editorial e conteúdo publicitário é um princípio fundamental do ecossistema publicitário responsável e é uma área onde a regulação europeia, nomeadamente o Digital Services Act, coloca exigências cada vez mais precisas. A OpenAI terá de demonstrar que está preparada para cumprir essas exigências de forma rigorosa”, destaca Ricardo Torres Assunção.

Para os anunciantes que valorizam a sua reputação e têm compromissos sérios em matéria de publicidade responsável, que é o perfil dos associados da APAN, este será um critério de avaliação inegociável antes de qualquer decisão de investimento“, conclui.

O Contraponto: A Perspetiva da Anthropic

Enquanto a OpenAI constrói a sua máquina de anúncios, a rivalidade no setor da IA sobe de tom. A Anthropic, criadora do modelo Claude (o principal concorrente do ChatGPT), posicionou-se no extremo oposto, lançando um manifesto onde apresenta a sua ferramenta como “um espaço para pensar”.

Há muitos lugares bons para a publicidade. Uma conversa com o Claude não é um deles“, garantiu a Anthropic. “A publicidade impulsiona a concorrência e ajuda as pessoas a descobrir novos produtos (…). Mas incluir anúncios em conversas com o Claude seria incompatível com o que queremos que ele seja: um assistente genuinamente útil para o trabalho e para o pensamento profundo.”

A empresa defende que, ao contrário dos motores de busca, as conversas com as IA são abertas, íntimas e frequentemente usadas para resolver problemas complexos ou abordar temas sensíveis.

Para a Anthropic, introduzir incentivos comerciais criaria um conflito de interesses. “Queremos que o Claude atue inequivocamente nos interesses dos nossos utilizadores. Por isso, fizemos uma escolha: o Claude permanecerá sem anúncios. Os nossos utilizadores não verão links ‘patrocinados’ (…), nem as respostas serão influenciadas por anunciantes.”

Para vincar esta diferença de visão e fazer o contraponto, a Anthropic chegou mesmo a aproveitar o espaço publicitário mais caro do mundo — o Super Bowl — para lançar uma campanha a criticar abertamente a aposta comercial da OpenAI.

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