Turismo descarta cenário de crise e aponta para verão “estável”

Setor do turismo antecipa um verão de maior prudência, mas sem sinais de crise. Apesar dos custos e da instabilidade, viajar continua a ser uma prioridade para muitos portugueses.

ECO Fast
  • O setor do turismo em Portugal antecipa um verão de 2026 marcado por estabilidade, apesar da prudência dos consumidores devido a fatores geopolíticos e custos elevados.
  • Os principais destinos preferidos pelos turistas incluem Espanha, Grécia e Caraíbas, com uma procura que se mantém forte, embora os consumidores estejam mais atentos a preços e condições de reserva.
  • A instabilidade internacional e o aumento dos custos de transporte aéreo podem levar a uma adaptação nas escolhas dos viajantes, mas a vontade de viajar continua a ser uma prioridade para muitos portugueses.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

O setor do turismo prepara-se para mais um verão com sinais de “estabilidade”, embora marcado por maior “prudência” por parte dos consumidores e por um contexto internacional mais complexo, influenciado pela instabilidade geopolítica e pela subida dos custos do transporte aéreo e dos combustíveis.

Ainda assim, os principais operadores e agentes do setor afastam um cenário de crise e, para já, uma quebra estrutural da procura, quer no turismo interno quer nas viagens dos portugueses ao estrangeiro.

Miguel Quintas, presidente da Associação Nacional de Agências de Viagens (ANAV), antecipa um “desempenho igual ou ligeiramente melhor ao verão de 2025, sobretudo no número de turistas”, embora admita que o “crescimento em valor será mais moderado devido à subida de preços, que leva muitas famílias a ajustar orçamento, duração da viagem ou categoria da oferta”.

Segundo o líder da Associação Nacional de Agências de Viagens, “não existe um abrandamento da procura, mas sim maior prudência”. O cliente, refere, “pergunta mais, compara mais e quer saber exatamente o que está incluído, quais as penalizações em caso de cancelamento, que seguro deve contratar e que alternativas existem se houver alterações de voo”, explica Miguel Quintas.

Ilha Grande Caimão, nas Caraíbas.Stephen Clarke/Cayman Compass.

Entre os destinos mais procurados continuam a destacar-se Espanha, Baleares e Canárias, no segmento de proximidade, Grécia, Itália, Tunísia e Cabo Verde no médio curso, e Caraíbas — com destaque para República Dominicana e México — no longo curso, de acordo com a associação que representa as agências de viagens.

Também na Agência Abreu, Pedro Quintela aponta para uma evolução “globalmente positiva”, embora mais moderada do que no ano anterior. O diretor geral de vendas sublinha que, “após um período inicial de maior cautela devido à instabilidade internacional, a procura tem vindo a recuperar gradualmente, suportada por campanhas promocionais e ofertas ajustadas ao contexto atual”.

Apesar do atual contexto internacional e económico trazer maior prudência nas decisões de compra, as férias continuam a ser encaradas como uma prioridade para os portugueses. O que se verifica é um consumidor mais atento ao preço, às condições de reserva e à perceção de segurança dos destinos, o que tem levado a uma maior procura por campanhas promocionais e opções com boa relação qualidade-preço.

Pedro Quintela

Diretor geral de vendas da Agência Abreu

No alojamento, o Grupo Vila Galé mantém igualmente uma perspetiva de estabilidade. Segundo o administrador Gonçalo Rebelo de Almeida, o ritmo de reservas e o perfil dos clientes estão “muito semelhantes ao ano anterior”, o que leva o grupo a antecipar um 2026 praticamente idêntico a 2025.

Dentro da carteira do grupo, Rebelo de Almeida adianta ao ECO que Madeira e Algarve continuam a destacar-se como destinos sólidos para a época alta, enquanto Lisboa e Porto apresentam um comportamento “um pouco mais instável”, ainda assim em “linha com o ano anterior”. A quota de mercado português mantém-se igualmente estável, representando cerca de 40% do total de clientes.

O ritmo de reservas e perfil de clientes é muito semelhante ao ano anterior. A nossa perspetiva é que 2026 seja praticamente idêntico a 2025.

Gonçalo Rebelo de Almeida

Administrador do Grupo Vila Galé

“Neste momento ainda não sentimos acréscimo motivado pela instabilidade do Médio Oriente nem decréscimo provocado pelo aumento do preço do transporte. No entanto, se a situação se mantiver com o custo do combustível a subir, admitimos que poderá vir a representar acréscimo de custos e preços e consequente abrandamento da procura”, conclui o administrador do grupo que soma 52 hotéis, dos quais 34 em Portugal, e emprega cerca de 4.500 colaboradores.

A CEO da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), Cristina Siza Vieira, considera que o setor do turismo enfrenta atualmente um “contexto de maior incerteza e instabilidade”, embora rejeite a ideia de uma crise. Segundo a responsável, o momento exige “prudência” e cria dificuldades acrescidas na gestão das operações, num cenário marcado pela volatilidade internacional e pela cautela dos consumidores.

Ainda assim, a dirigente acredita que Portugal poderá beneficiar este verão da reorientação de viagens que inicialmente estavam destinadas a mercados mais longínquos ou ao Oriente. O posicionamento do país como um destino “seguro, acessível, que sabe acolher, de sol e mar” poderá favorecer sobretudo os destinos resort e impulsionar a procura nos mercados emissores intraeuropeus.

Não estamos perante uma crise, longe disso, mas perante um contexto de maior incerteza e instabilidade que exige prudência e coloca dificuldades na gestão, a vários níveis.

Cristina Siza Vieira

CEO da AHP

Apesar das perspetivas positivas, Cristina Siza Vieira admite que se sente uma maior cautela por parte dos consumidores, especialmente entre famílias e viajantes individuais, que estão a adiar decisões de reserva, embora sem sinais relevantes de cancelamentos. A CEO da AHP alerta também para o impacto potencial do aumento dos custos do transporte aéreo, que poderá traduzir-se em estadias mais curtas, menor despesa no destino ou maior pressão sobre os preços do alojamento, ainda que, para já, esse efeito não seja considerado significativo.

Siza Vieira chama ainda a atenção para os constrangimentos operacionais nos aeroportos, agravados pela implementação do sistema EES no controlo de fronteiras. Num verão em que Portugal “precisa mais do que nunca de garantir confiança, fluidez e boa experiência de chegada e partida”, a CEO da AHP defende que é essencial assegurar estabilidade na conectividade aérea e nas infraestruturas aeroportuárias. Embora sublinhe a capacidade de adaptação do setor hoteleiro, recorda que muitas das condições necessárias para garantir a competitividade do destino não dependem apenas dos privados.

Consumidores mais cautelosos, mas sem travar viagens

O ritmo de reservas confirma uma tendência de estabilidade com maior racionalidade. Há clientes que reservam mais cedo para garantir preço e disponibilidade, sobretudo famílias, enquanto outros mantêm a procura de última hora, embora cada vez mais arriscada num contexto de preços em alta.

A instabilidade no Médio Oriente tem impacto sobretudo ao nível da confiança. Agências e operadores referem maior cautela na escolha de destinos, mais pedidos de informação e dúvidas sobre escalas e segurança, mas sem uma quebra significativa da intenção de viajar.

Segundo Miguel Quintas” viajar continua a ser uma prioridade para muitas famílias portuguesas, mesmo num ambiente de maior instabilidade global”, embora com maior ponderação do que no passado recente.

Mesmo num contexto internacional mais complexo, marcado por instabilidade geopolítica, aumento dos custos do transporte aéreo e maior sensibilidade ao preço, aquilo que sentimos nas agências de viagens é que viajar continua a ser uma prioridade para muitas famílias portuguesas.

Miguel Quintas

Presidente da ANAV

Também Pedro Quintela sublinha que a “perceção de segurança e a relação qualidade-preço” são hoje fatores determinantes na decisão dos consumidores, que estão mais atentos a promoções e condições de flexibilidade.

Quanto ao impacto dos custos, o presidente da ANAV admite que os preços já influenciam o comportamento dos portugueses, não travando a vontade de viajar, mas alterando escolhas: viagens mais curtas, hotéis de categoria inferior, datas alternativas e substituição de destinos de longo curso por médio curso.

Ainda assim, Portugal mantém-se bem posicionado enquanto destino turístico, beneficiando da imagem de país seguro, estável e competitivo.

Miguel Quintas admite que o país poderá beneficiar parcialmente da atual instabilidade internacional como destino alternativo mais seguro, embora sublinhe a forte concorrência de Espanha, Itália e Grécia no mesmo segmento.

Uma opinião partilhada pelo porta-voz da Agência Abreu que refere que “Portugal mantém a sua perceção internacional como destino seguro, estável e competitivo, tanto junto do mercado externo como interno, reforçando a sua atratividade num contexto internacional mais incerto”.

No mercado interno, há sinais de que alguns portugueses optam por férias em Portugal como alternativa a viagens mais caras ou incertas, com destaque para Algarve, Madeira, Açores, Porto Santo, Alentejo, Centro e Norte. Ainda assim, esta tendência não substitui as viagens ao estrangeiro, mas reflete antes uma adaptação ao contexto económico.

“Quando o preço dos voos sobe, quando há receio de alterações operacionais ou quando o orçamento familiar está mais pressionado, destinos nacionais como Algarve, Madeira, Açores, Porto Santo, Alentejo, Centro e Norte tornam-se opções naturais”, explica Miguel Quintas, ainda assim reforça que é “importante não confundir esta tendência com uma substituição total das viagens ao estrangeiro — os portugueses continuam a querer viajar para fora”.

O setor entra assim no verão de 2026 com expectativas de estabilidade e resiliência, mas também com atenção redobrada à evolução dos custos energéticos e da situação geopolítica internacional, fatores que poderão influenciar o comportamento da procura nos próximos meses.

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