O que faz a Cerebras, a empresa de IA que disparou quase 70% na estreia em bolsa?
A Cerebras Systems estreou-se no Nasdaq após um grande IPO, subindo quase 70% no primeiro dia e refletindo a euforia dos investidores em torno da inteligência artificial.
A empresa norte-americana Cerebras Systems, especializada na produção de chips de inteligência artificial (IA), entrou na bolsa norte-americana na passada quinta-feira. Mas esta não foi apenas mais uma empresa de IA a chegar aos mercados. No primeiro dia de negociação, as ações da Cerebras dispararam quase 70%, naquela que se tornou a maior oferta pública inicial (IPO) de uma tecnológica dos últimos anos, um reflexo claro da enorme expectativa e da euforia que continuam a marcar o setor da inteligência artificial.
Fundada em 2015, na Califórnia, a empresa tornou-se conhecida por desenvolver alguns dos maiores e mais poderosos chips de IA do mundo, chamados Wafer-Scale Engines (chips de grande escala feitos num único wafer). Ao contrário dos processadores tradicionais, os chips da Cerebras ocupam praticamente uma placa inteira de silício, permitindo velocidades muito superiores no treino de modelos de inteligência artificial. Atualmente, a empresa compete diretamente com gigantes como a Nvidia no setor de hardware para IA.

A empresa foi fundada por Andrew Feldman, Gary Lauterbach, Michael James, Sean Lie e Jean-Philippe Fricker, todos antigos membros da empresa SeaMicro, que foi adquirida pela Advanced Micro Devices (AMD) anos antes. O objetivo da equipa era revolucionar a forma como os sistemas de inteligência artificial processam grandes quantidades de dados, eliminando as limitações dos chips tradicionais. Nos últimos anos, a Cerebras ganhou bastante destaque devido ao crescimento massivo da IA generativa, tendo já fechado uma parceria com a Amazon em março passado. Além disso, a companhia expandiu os seus serviços para estudantes e investigadores através de programas educativos e acesso à cloud, permitindo que universitários experimentem modelos avançados de IA sem precisarem de supercomputadores próprios.
A estreia em bolsa acabou por confirmar o enorme entusiasmo dos investidores em torno da empresa. A Cerebras definiu inicialmente o preço do IPO nos 185 dólares por ação, depois de já ter aumentado anteriormente o intervalo de preços devido à forte procura registada durante as apresentações aos investidores. No total, a empresa vendeu 30 milhões de ações e conseguiu captar cerca de 5,55 mil milhões de dólares, naquele que se tornou o maior IPO tecnológico nos Estados Unidos desde a entrada em bolsa da Uber, em 2019.
Mas o verdadeiro impacto surgiu logo após o início da negociação em bolsa. As ações dispararam cerca de 68% no primeiro dia, encerrando a quinta-feira nos 331 dólares por ação e levando a avaliação da empresa para perto dos 95 mil milhões de dólares. Para se ter uma ideia da dimensão desta valorização, em fevereiro a Cerebras tinha sido avaliada por investidores privados em pouco mais de 23 mil milhões de dólares.
Segundo o Wall Street Journal, muitos investidores interessados em participar no IPO acabaram por não conseguir receber ações durante a oferta inicial, sendo depois obrigados a comprá-las diretamente no mercado. Esse desequilíbrio entre procura e oferta terá contribuído para a forte subida das ações logo na estreia. O sucesso da operação transformou também os principais executivos da empresa em multimilionários. A participação do CEO Andrew Feldman passou a valer cerca de 3,2 mil milhões de dólares, enquanto a posição do diretor tecnológico Sean Lie ficou avaliada em aproximadamente 1,7 mil milhões de dólares.
Apesar da euforia em Wall Street, nem todos os analistas estão convencidos de que a Cerebras conseguirá manter este crescimento a longo prazo. Alguns especialistas, citados pela CNBC, consideram que a tecnologia da empresa ainda está numa fase relativamente inicial e questionam até que ponto os seus chips conseguem competir, em larga escala, com o ecossistema já consolidado da Nvidia.
Analistas do banco Davidson classificaram mesmo a tecnologia da empresa como “demasiado nicho”, argumentando que, embora os chips Wafer Scale Engine sejam extremamente rápidos em determinadas tarefas, oferecem menos flexibilidade do que os sistemas tradicionais utilizados atualmente pela maioria das empresas de IA.
Ainda assim, a estreia da Cerebras mostra como o mercado continua disposto a apostar agressivamente em tudo o que esteja ligado à inteligência artificial. Depois da explosão da IA generativa iniciada pelo lançamento do ChatGPT, os investidores passaram a olhar não apenas para os modelos de IA, mas também para toda a infraestrutura necessária para os treinar e executar. E é precisamente nesse ponto que empresas como a Cerebras se querem posicionar.
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