Hélia Gonçalves: “O nosso sonho é do tamanho que nós quisermos”

  • ECO
  • 18 Maio 2026

Nasceu em Grândola, mas sonhava com voos maiores. Incentivada pela mãe, Hélia Gonçalves foi estudar para Lisboa, apaixonou-se pela cidade, e hoje é reitora da Universidade Europeia.

Hélia Gonçalves, reitora da Universidade Europeia, é a 78º convidada do podcast “E Se Corre Bem?”. Confessa que, olhando para trás, não conseguiria imaginar todas as oportunidades que a vida lhe iria proporcionar, tendo em conta “o tamanho do sítio” que a acolheu para nascer: Grândola. Ainda assim, Hélia Gonçalves garante que é possível chegar-se onde se quiser, independentemente do ponto de partida.

“A verdade é que eu acho que sou um exemplo para outras meninas, que continuam a nascer em zonas onde os sonhos podem ser entendidos como necessariamente mais pequenos, para lhes mostrar que o nosso sonho é do tamanho que nós quisermos. Continuo a defender que a dificuldade é maior, desde logo porque acho que nós criamos sonhos à dimensão do que vemos à nossa volta, mas aí tive a sorte de ter uma mãe à frente do seu tempo, sempre quis que as filhas conseguissem ter uma licenciatura“, começou por dizer.

A ideia da mãe de Hélia Gonçalves era que as filhas saíssem de Grândola e fossem estudar para Lisboa “para serem autónomas e independentes, não dependerem de ninguém, e terem um emprego que lhes permita viver confortavelmente”. E, nesse sentido, a agora reitora acabou por ter, durante muitos anos, um único objetivo: “O limite da minha expectativa era ser suficientemente boa aluna para que esses resultados académicos me permitissem entrar numa boa universidade, tirar um bom curso e a seguir arranjar um bom emprego”.

“Eu adorava Grândola, até porque achava que era o suprassumo daquilo que se podia querer para uma vida. Então, quando vim para Lisboa e entrei na faculdade, eu tinha a certeza absoluta de que ia acabar o curso e que ia voltar para Grândola. Mas isto só durou três meses. Ao fim de três meses de estar em Lisboa, eu já estava a gostar muito da cidade e comecei a perceber claramente que Grândola já não seria para mim. Era pequena“, continuou.

Ainda assim, quando terminou a faculdade, voltou a Grândola e começou a trabalhar na Câmara Municipal. Só que esse regresso apenas intensificou a vontade de sair de lá: “Eu lembro-me perfeitamente de pensar, sozinha no gabinete, que precisava de voar com asas maiores, não para longe, mas para agarrar outros projetos e outras realidades“.

E foi isso que fez. Voltou a Lisboa e começou a trabalhar “numa empresa pequenina, com o Manuel Champalimaud”. “O projeto durou mais ou menos um ano e depois saí. Por questões pessoais, voltei a Grândola e fiquei lá durante quase três anos. Passado esse tempo, os temas de natureza pessoal felizmente resolveram-se e eu rapidamente pensei que ia sair novamente dali. Comecei a mandar currículos e no mesmo dia tive duas propostas de trabalho – uma para ser consultora da PwC e outra da REN, que me daria um emprego calmo e tranquilo para o resto da vida. Claramente, caminhos diferentes”, contou.

Para os seus pais, a escolha óbvia era ir para a REN, mas Hélia Gonçalves quis arriscar e foi para a PwC: “Os meus pais aconselhavam-me a REN pela tranquilidade do emprego para a vida, mas eu fui para a PwC e, ainda hoje, passados mais de 20 anos de ter saído da empresa, sinto que ela me marcou e que é uma escola para a vida porque me ajudou muito a acelerar do ponto de vista profissional“.

“Entretanto, comecei a ser professora no ISCTE e trabalhei durante um ano na PwC e no ISCTE em simultâneo. Foi aí que também comecei o meu doutoramento e soube que ia ser mãe. Mas, nesse momento, quando soube que ia ter a minha filha, decidi sair da PwC e agarrar o mundo e a carreira académica porque percebi que não seria possível conciliar as duas”, admitiu.

Essa incompatibilidade justificava-se, sobretudo, pelas cerca de 15 a 16 horas por dia que Hélia Gonçalves dedicava à vida profissional: “Eu estava na PwC a tempo inteiro, tinha um contrato com o ISCTE, e dava aulas à noite no ISEG, numa pós graduação. Portanto, começava a trabalhar às 8 horas no ISCTE; das 9h30 às 19 horas estava na PwC; e a seguir ia para o ISEG e chegava a casa às 23 horas ou meia noite muitos dias por semana. Claramente, isso é incompatível quando se está prestes a ser mãe ou quando se é mãe. Por isso, eu aproveitei uma oportunidade de reconfiguração da própria PwC e entendi sair”.

Saiu da PwC e ficou no ISCTE, onde deu aulas durante 20 anos. Preferiu dedicar-se à vida académica, onde se sentia “muito feliz”, mas houve um convite inesperado que a fez mudar de cargo quase duas décadas depois. “Eu recebi um email a perguntar se estaria disponível para falar sobre qual deveria ser o perfil de um reitor para uma instituição de ensino superior em Portugal, uma vez que andavam à procura de uma pessoa para esse cargo. E eu humildemente achei que, face aos quase 20 anos de experiência em ensino superior, queriam a minha opinião. Mas não. Só depois é que disseram que não era bem a opinião que queriam, mas sim se eu estava disponível para entrar naquele processo e poder vir a receber uma proposta para ser reitora da Europeia“, esclareceu.

Mesmo surpreendida com a proposta, Hélia Gonçalves aceitou e começou o “processo longo de entrevistas”: “Eu não sabia bem ao que ia, mas acho que é bom deixarmo-nos ir. Eu sabia que sabia muito de ensino superior e eu achava que isso me dava uma vantagem interessante, mas a verdade é que quando mudo de uma universidade pública para uma instituição 100% privada, eu senti rapidamente que estava num mundo completamente novo“.

A principal mudança estava relacionada com o facto de, pela primeira vez, ter de lidar com as “margens de contribuição” de todos os programas que a universidade disponibiliza. “Na Universidade Europeia, temos de fazer contas como todas as famílias. Não podemos gastar mais do que aquilo que recebemos. Há um orçamento que todos os anos é discutido até ao mais pequeno cêntimo porque não podemos ser irracionais do ponto de vista económico”, explicou.

Esta gestão, da qual assumiu a responsabilidade, levou a que Hélia Gonçalves deixasse de ser professora para assumir o cargo de reitora a 100%. Ainda assim, continua a sentir-se professora: “Eu achava que ia sentir saudades de dar aulas, mas acho que substituí a adrenalina da sala de aula pela adrenalina que é estar sistematicamente em representação da universidade, em reuniões com professores, com stakeholders externos, com o negócio, a gerir uma universidade“.

Em apenas cinco anos, reconhece já ter alcançado mais do que imaginou enquanto reitora da Universidade Europeia, mas garante que ainda acredita ser possível chegar mais longe quando pensa no futuro e reconhece que esta capacidade de acreditar deve-se, em muito, ao seu passado e à menina que, ainda sem planos, decidiu sair de Grândola e visitar o desconhecido. “Se falasse com ela hoje, diria: ´Não tenhas medo de errar e de arriscar. Arriscar faz parte da vida. Há coisas que vão correr bem e outras que vão correr menos bem, mas no final as coisas podem correr mesmo bem, como correram´”, concluiu.

Este podcast está disponível no Spotify e na Apple Podcasts. Uma iniciativa do ECO, na qual Diogo Agostinho, COO do ECO, procura trazer histórias que inspirem pessoas a arriscar, a terem a coragem de tomar decisões e acreditarem nas suas capacidades. Com o apoio da Nissan e da Scalpers.

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