Sismo nas obrigações mundiais faz tremer juros em Portugal
A inflação persistente e a guerra no Médio Oriente estão a pressionar as obrigações dos EUA ao Japão, de Londres a Frankfurt. Portugal está longe do epicentro, mas não está imune.
- O mercado obrigacionista enfrenta uma turbulência sem precedentes, com yields a 10 e 30 anos a atingirem máximos históricos em vários países, refletindo a pressão inflacionária persistente.
- A venda massiva de dívida pública, impulsionada pelo conflito no Médio Oriente e dados preocupantes sobre a inflação, afeta tanto os EUA como a Europa.
- Portugal, embora não seja dos países mais penalizados, enfrenta custos de financiamento elevados, o que pode impactar negativamente as contas públicas.
O mercado obrigacionista está a viver dias de turbulência que não se viam há anos. Nos EUA, a yield das Treasuries a 10 anos voltou a ultrapassar os 4,5% na semana passada, tocando os níveis mais elevados em 15 meses, enquanto a yield das obrigações a 30 anos cruzou a barreira simbólica dos 5%, um limiar que, em termos sustentados, não era visto desde antes da crise financeira de 2008 e que serve como barómetro do custo do dinheiro a longo prazo na maior economia do mundo.
O fenómeno não é exclusivo dos EUA: de Tóquio a Londres, passando por Frankfurt, a venda massiva de dívida pública está a empurrar os custos de financiamento dos Estados para máximos de décadas, num sinal de que os mercados estão a perder paciência perante a persistência da inflação.
O principal combustível desta turbulência vem do conflito no Médio Oriente, que tem mantido os preços do petróleo em níveis elevados e alimentado receios de que a inflação se torne mais difícil de controlar do que os bancos centrais esperavam. O Brent negoceia atualmente acima dos 111 dólares por barril e desde os primeiros ataques dos EUA e Israel ao Irão a 28 de fevereiro acumula uma subida de 54%.
No último leilão de dívida a 10 anos, realizado na semana passada, Portugal pagou o preço mais alto em 12 anos para se financiar a 10 ano.
A isto somam-se dados preocupantes nos EUA, onde os preços no produtor subiram 6% em abril face ao período homólogo, sinalizando que as pressões inflacionistas estão a propagar-se pela cadeia de valor até ao consumidor.
Estes dados têm levado os investidores a atribuir uma probabilidade de cerca de 50% a uma subida de juros por parte da Reserva Federal norte-americana (Fed) ainda este ano, numa inversão dramática face às expectativas de cortes que dominavam o início do ano.
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Pressões globais com efeitos também em Portugal
O BCE e o Banco de Inglaterra enfrentam pressões semelhantes, com os mercados a antecipar três a quatro subidas de taxas em 2026, com a primeira praticamente garantida em junho. “A inflação vai ser um problema irritante e difícil para os bancos centrais e para os investidores em obrigações”, resumiu Will Hobbs, diretor de investimentos da Brooks Macdonald, à CNBC.
O sismo obrigacionista está a bater recordes históricos em vários países. Na Alemanha, o Bund a 10 anos tocou máximos de 15 anos, acima dos 3,19%, enquanto no Japão a yield das obrigações a 30 anos disparou para 4,2%, o nível mais alto desde que esses títulos foram emitidos, em 1999 — um marco que ilustra a dimensão do choque num país que conviveu com taxas próximas de zero durante décadas.
No Reino Unido, a yield das Gilts a 30 anos chegou a atingir os valores mais altos desde 1998, agravada por uma crise política em torno do primeiro-ministro Keir Starmer que serviu de catalisador para amplificar as preocupações já existentes sobre inflação e sustentabilidade das finanças públicas.
A inflação persistente convenceu os mercados de que os bancos centrais vão apertar o crédito por mais tempo, empurrando os juros da dívida para máximos históricos.
Christine Lagarde, presidente do BCE, questionada se estava preocupada com a turbulência, respondeu, de forma lacónica: “Preocupo-me sempre. É o meu trabalho.”
Portugal não está no epicentro desta tempestade, mas também não está imune. A yield das obrigações do Tesouro português a 10 anos negoceia atualmente nos 3,55%, um nível elevado que foi apenas superado em março quando chegou a ultrapassar os 3,6% pela primeira vez desde outubro de 2023.
Essa pressão ficou bem espelhada no último leilão de dívida promovido pelo IGCP na quarta-feira a 10 anos, com o Tesouro a pagar o preço mais alto em 12 anos para se financiar a 10 anos, o que significa que Portugal está a pagar hoje mais pelos seus empréstimos do que em qualquer momento desde 2017 – uma realidade com impacto direto nas contas públicas e no financiamento futuro do Estado.
A circunstância de Portugal ter melhorado substancialmente os seus fundamentais macroeconómicos nos últimos anos, com descida da dívida pública e melhoria do rating, atenua a pressão comparativamente a países mais vulneráveis, mas não a elimina.
A pressionar a venda generalizada de dívida pública (e por arrasto a subir a yield das obrigações soberanas) está uma reconfiguração profunda das expectativas sobre o custo do dinheiro no longo prazo. Os analistas sublinham que o principal motor não são preocupações com a sustentabilidade das dívidas soberanas, mas sim a convicção crescente de que os bancos centrais terão de apertar a política monetária antes de conseguirem avaliar plenamente os efeitos do choque energético, e que esse aperto vai durar mais tempo do que o previsto.
Com as taxas de juro reais ajustadas à inflação nas Treasuries e nas Gilts a 30 anos a atingir máximos históricos perto dos 2,5%, e com os bancos centrais a apontar para subidas antes mesmo de verem os dados completos, há economistas que alertam para o risco de um erro de política monetária que acabe por travar o crescimento e que force, mais tarde, uma inversão dolorosa.
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