Centeno diz que Governo “talvez pudesse ter-se empenhado um pouco mais cedo” na sua candidatura a vice do BCE
Antigo governador do Banco de Portugal considera que o Governo português se empenhou já tarde na sua candidatura, mas fator decisivo foi preferência europeia por candidato do Leste.
O antigo governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, afirma que o Governo português se empenhou na sua candidatura à vice-presidência do Banco Central Europeu já na fase final do processo, considerando que isso poderia ter acontecido “um pouco mais cedo”. Defende, ainda assim, que “foi a dinâmica europeia que ditou o resultado”.
A escolha dos países da Zona Euro acabou por recair em Boris Vujčić, então presidente do banco central da Croácia, nomeado em março. Mário Centeno foi um dos candidatos que acabou por ser preterido.
“Era um cenário complexo. Necessitava de muito compromisso e de investimento político, também do lado português“, afirmou em entrevista ao programa Prime Time da CNN Portugal, na segunda-feira à noite, onde passará a ter um espaço semanal.
Segundo Mário Centeno, “aconteceu um grande empenho do Partido Popular Europeu no candidato croata, que é meu amigo e meu colega de muitos anos já na banca central”. Considera que “havia também, do lado da Europa, uma preocupação, que aliás acabou por acontecer de forma semelhante no FMI [liderado pela búlgara Kristalina Giorgieva], que é o leste europeu“.
“O Governo português, na fase final do processo, empenhou-se. Enfim, talvez pudesse ter empenhado um pouco mais cedo, mas acho que foi a dinâmica europeia que ditou o resultado“, respondeu o antigo governador do Banco de Portugal, que disse que começou a preparar o processo entre junho e julho de 2025, ainda antes do fim do mandato na liderança do banco central português.
O processo de saída do Banco de Portugal, formalizado em março com a passagem à reforma antecipada aos 59 anos, beneficiando de uma pensão elevada, também foi abordado na entrevista.
Não vou dizer que fui despedido. Mas era necessário cumprir um contrato de trabalho e enquadrar esta transição naquilo que foi o fundo de pensões, as regras do fundo de pensões do Banco de Portugal.
“Posso-lhe dizer que foram seguidas todas as regras. Antes de mim, aposentaram-se, com as mesmas regras, milhares de trabalhadores no Banco de Portugal e no setor bancário e em todas as áreas onde existem fundos de pensões similares”, respondeu Centeno.
O antigo governador disse que a iniciativa partir do seu sucessor, Álvaro Santos Pereira, e que compreendeu “perfeitamente” a situação. “Não vou dizer que fui despedido, mas era necessário cumprir um contrato de trabalho e enquadrar esta transição naquilo que foi o fundo de pensões, as regras do fundo de pensões do Banco de Portugal”, reafirmou.
O que acontecer no futuro será qualquer coisa que estará para além, seguramente, deste ciclo político.
Mário Centeno afastou a possibilidade de voltar à política, pelo menos no atual ciclo político. “Neste momento, não queria iniciar mais um folhetim, fechámos um mais ou menos há um ano, com as questões presidenciais”, disse. “Após sair do Banco de Portugal e ter passado umas semanas nos Estados Unidos a ensinar numa universidade, em Miami, preparado a minha carreira profissional, agora em funções privadas, que abracei, e que vou continuar a desenvolver”, acrescentou.
Se a oportunidade se proporcionasse, dizia que não ao PS? “O que acontecer no futuro será qualquer coisa que estará para além, seguramente, deste ciclo político”, respondeu, garantindo estar “muito focado” nas suas tarefas atuais”.
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