Corticeira Amorim corta mais 212 empregos após reestruturar negócio extra rolhas
Grupo de Santa Maria da Feira baixa gastos com pessoal em 2,5 milhões de euros no terceiro ano seguido de redução da equipa. Desmente “qualquer plano para encerrar" fábricas de rolhas.
A Corticeira Amorim COR 0,76% reduziu o número de trabalhadores pelo terceiro ano consecutivo: terminou o último exercício com um total de 4.637 depois de cortar mais 212 postos de trabalho em 2025. Segundo as contas feitas pelo ECO com base em dados oficiais, face a 2022, em que chegou a atingir os 4.999 funcionários, o grupo de Santa Maria da Feira tem agora menos 362 pessoas ao serviço.
Num contexto de “elevada incerteza, marcado por tensões geopolíticas e transformações significativas no comércio internacional, num ambiente de transformação dos hábitos de consumo de álcool que impõe pressões adicionais sobre o setor vitivinícola”, como descrito pelo CEO António Rios de Amorim, o maior número de saídas (126) aconteceu na unidade de negócios Amorim Cork Solutions, em que concentrou os três segmentos “não rolha”: produção de pavimentos, isolamentos e compósitos de cortiça.
Já na Amorim Cork (rolhas), que vale mais de 80% das vendas consolidadas, a gigante corticeira assegura ao ECO que “não existe qualquer plano para encerrar unidades industriais e concentrar trabalhadores noutras fábricas”, desmentindo o que denunciou Alírio Martins, presidente do Sindicato dos Operários Corticeiros do Norte, segundo o qual o grupo estará ainda a “propor rescisões e a tentar convencer as pessoas a saírem”.
Não existe qualquer plano para encerrar unidades industriais e concentrar trabalhadores noutras fábricas. A mobilidade interna entre unidades integra a gestão operacional corrente, sendo uma prática regular e transparente, circunscrita à mesma área geográfica.
“A mobilidade interna entre unidades das empresas da Corticeira Amorim integra a gestão operacional corrente, sendo uma prática regular e transparente, circunscrita à mesma área geográfica de Santa Maria da Feira, sempre com respeito integral pela lei e pelos direitos dos trabalhadores. Esta gestão de recursos visa responder, em cada momento, às necessidades operacionais e à procura do mercado, promovendo uma afetação eficiente da força de trabalho”, refere fonte oficial do grupo.
A líder mundial na transformação de cortiça viu os lucros baixarem 20% para 56 milhões de euros em 2025. No arranque deste ano registou nova quebra homóloga de 6,5% no resultado e de 8% nas vendas até março, com o “contexto global bastante adverso e de incerteza” a pressionar a confiança dos clientes. O último relatório anual mostra uma descida de cerca de 2,5 milhões (-1,3%) nos gastos com pessoal, que reflete a “redução do número médio de colaboradores apesar do aumento da remuneração média”.
Entretanto, já começaram as negociações com a associação patronal da indústria corticeira (APCOR) para a revisão do contrato coletivo de trabalho. No primeiro encontro, a 24 de abril – o calendário prevê outras rondas até ao final de junho –, as estruturas sindicais propuseram um aumento salarial de 75 euros, uma subida em 95 cêntimos na senha/subsídio de refeição, a implementação das diuturnidades, mais 5% no subsídio de turno e ainda a oferta do dia de aniversário ao trabalhador.

“Prudência” no investimento e fecho de 11 subsidiárias comerciais
No negócio das rolhas, a Corticeira aponta a “deterioração” da eficiência operacional como uma das principais fragilidades, “em grande medida [pela] incapacidade de ajustar a estrutura de custos ao ritmo da redução das vendas, que, conjugada com o mix de produto, conduziu à compressão da margem bruta”.
“A rigidez da estrutura dos custos fixos, aliada à necessidade de preservar capacidade produtiva, níveis de serviço e competências críticas, limitou a flexibilidade operacional no curto prazo”, frisa.
Entre um “otimismo moderado”, por confiar que este ano o setor das bebidas possa ainda iniciar um processo de estabilização após as quedas acumuladas desde 2022, indica aos investidores que está a implementar um “plano rigoroso de adequação da capacidade industrial e redução estrutural de custos” e a conduzir “com prudência” o investimento, estimando um “nível de Capex limitado a cerca de 60% das amortizações do exercício”. Questionada pelo ECO, recusou fornecer detalhes sobre o que está a ser concretizado e sacrificado.

Na Amorim Cork Solutions, que resultou da reestruturação iniciada em maio de 2024 para concentrar numa única estrutura a produção e comercialização de artigos que utilizam a matéria-prima sobrante ou a cortiça que não pode ser utilizada da produção de rolhas, refere que dará “continuidade ao controlo e redução de custos em todas as áreas funcionais” e manterá “uma determinação clara na rentabilidade das estruturas comerciais, através da monitorização sistemática do desempenho por mercado, segmento e equipa”.
Fechou a fábrica de Silves para surpresa da autarquia do Algarve, com a produção a ser transferida para Vendas Novas e os restantes sites industriais (Lourosa, Oleiros e Mozelos) a beneficiarem de “sinergias”. Por outro lado, adianta no mesmo documento que a rede própria de distribuição foi alvo de uma “reorganização profunda” que levou ao encerramento da atividade de 11 subsidiárias comerciais, “mantendo‑se, contudo, a presença física em todos os mercados, exceto no Canadá e na Finlândia”.
No primeiro ano completo desta nova unidade de negócios, que passou a ser liderada por João Pedro Azevedo, excluindo o efeito de alteração do perímetro de consolidação pela alienação da participação na Timberman Denmark, as vendas caíram 11% para 162 milhões de euros. Presente num total de 88 destinos, a progressão em mercados como Reino Unido, Israel e Índia foi insuficiente para compensar as quebras na Alemanha (-12%), nos EUA (-10%) e em Portugal (-12%).
Melhores notícias chegaram do desempenho no setor aeroespacial, em que a faturação progrediu 35,5% face ao ano anterior e em que participou na mais recente missão da NASA (Artemis II), integrada no sistema de proteção térmica da nave. A par dos materiais de isolamento ao fogo para aplicações em baterias de veículos elétricos, a companhia destaca o desenvolvimento de duas novas soluções termoformáveis que visam facilitar e acelerar o processo de revestimento de lançadores e satélites com soluções de proteção térmica da Amorim Cork Solutions.

Finalmente, na Amorim Florestal, o impacto do incêndio ocorrido a 19 de outubro nas instalações em San Vicente de Alcántara (Espanha), que numa fase inicial indicou que resultaria em “danos patrimoniais (incluindo edifícios, equipamentos e matérias-primas) e prejuízos decorrentes de lucros cessantes estimados em aproximadamente sete milhões de euros”, acabou por ser minimizado, uma vez que todas as áreas afetadas encontravam‑se cobertas pelas apólices de seguro.
O grupo fundado em 1870 indica que as operações foram reestabelecidas de forma faseada e sem comprometer a continuidade do negócio, que a cobertura proporcionada pelas apólices contratadas permitiu assegurar a “reposição integral dos danos incorridos, incluindo inventários, edifícios e equipamentos” e também que, “considerando os mecanismos de indemnização acionados, não se verificou qualquer perda económica para a Corticeira Amorim decorrente do incêndio”.
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