Exclusivo Graphenest entra na Defesa com mira nos drones e prepara ronda de cinco milhões

Blindagem electromagnética é uma das potenciais aplicações do grafeno no setor de Defesa. Empresa de Sever do Vouga quer aumentar produção para 50 toneladas ano, revela CEO.

Depois do setor de mobilidade elétrica e da saúde, a Graphenest quer entrar no setor de Defesa e está a preparar uma ronda de cinco milhões de euros para aumentar a sua capacidade de produção para 50 toneladas de grafeno por ano, material que pode ser usado, por exemplo, na blindagem eletromagnética dos drones protegendo-os de deteção por radares. Em dois anos querem aumentar dos atuais nove para 50 o número de trabalhadores.

“O setor da defesa é, neste momento, uma prioridade estratégica para a Graphenest. O contexto geopolítico atual acelerou a necessidade de soluções europeias para proteção eletromagnética e redução da deteção por sistemas de radar, e o grafeno tem um papel claro a desempenhar nesse domínio”, adianta Vítor Abrantes, CEO da Graphenest, ao ECO/eRadar.

E a empresa já tem um segmento na mira. “Estamos já em negociações com empresas portuguesas de referência no desenvolvimento de equipamentos de defesa, nomeadamente na área dos drones, e esperamos ter novidades concretas nos próximos meses”, revela.

Até agora, a empresa portuguesa atua sobretudo no setor da mobilidade elétrica — “estamos a trabalhar com fabricantes de cablagem e componentes eletrónicos que procuram alternativas mais leves e eficientes às soluções metálicas tradicionais — e saúde — “grafeno surge como alternativa a metais, como a prata, em dispositivos médicos descartáveis, nomeadamente em adesivos condutores para eletrocardiogramas, o que reduz custos e impacto ambiental” —, tendo uma capacidade instalada de cerca de uma tonelada por ano de grafeno na sua unidade de produção em Sever do Vouga, em Aveiro.

O setor da defesa é, neste momento, uma prioridade estratégica para a Graphenest. O contexto geopolítico atual acelerou a necessidade de soluções europeias para proteção eletromagnética e redução da deteção por sistemas de radar, e o grafeno tem um papel claro a desempenhar nesse domínio.

Estamos já em negociações com empresas portuguesas de referência no desenvolvimento de equipamentos de defesa, nomeadamente na área dos drones, e esperamos ter novidades concretas nos próximos meses.

Vítor Abrantes

CEO da Graphenest

Para que serve o grafeno

Descoberto em 2004 pelos físicos Andre Geim e Konstantin Novoselov, na Universidade de Manchester, Reino Unido, o grafeno é uma forma de carbono, sendo considerado um dos materiais mais finos e mais fortes, com uma diversidade de aplicações, dos chips a baterias.

“Desenvolvemos dois produtos validados industrialmente: o G-Shield, um composto termoplástico para blindagem eletromagnética, e o HexaShield, uma tinta condutora à base de grafeno. O nosso foco tem sido claro desde o início: utilizar o grafeno para substituir metais em aplicações industriais, conferindo aos materiais tradicionais propriedades de condução elétrica e proteção eletromagnética”, explica.

“Trabalhamos com parceiros industriais na Europa, temos acordos de desenvolvimento conjunto com a Hubron e a DeltaTecnic para a formulação de plásticos, e mantemos pilotos ativos com empresas nos setores automóvel, eletrónica, saúde e defesa”, refere.

Vítor Abrantes, CEO da Graphenest.

Agora aponta a mira do negócio para o setor de defesa onde vê “grande vantagem” na aplicação do grafeno na blindagem eletromagnética de equipamentos militares, protegendo-os da deteção por radares. Vítor Abrantes detalha o potencial uso. “Os materiais metálicos funcionam por reflexão do sinal eletromagnético, enquanto os materiais à base de grafeno têm uma forte contribuição de absorção. Esta diferença é relevante porque permite que determinados veículos ou equipamentos sejam interpretados de forma diferente por sistemas de radar”, explica.

E dá como exemplo o caso dos drones, mas não só. “Um drone revestido com uma tinta ou plástico à base de grafeno pode não ficar totalmente invisível, mas pode passar a informação de que é uma aeronave de menor dimensão, ou até ser confundido com um objeto natural. Esta capacidade de alterar a assinatura eletromagnética tem aplicações em aeronaves não tripuladas, veículos terrestres, sistemas de comunicação e infraestruturas críticas”, descreve. O uso de grafeno possibilita ainda uma “redução de peso face aos metais tradicionais e permite aumentar a autonomia e a capacidade de carga do sistema“, destaca o CEO da Graphenest.

Um mercado aberto, diz, após a participação da empresa no programa Techstars com a U.S. Air Force, em 2018. “Abriu-nos portas para o ecossistema de defesa e permitiu-nos validar o potencial das nossas soluções em contextos exigentes. Estamos agora a preparar-nos para responder a esta necessidade do mercado com escala“, aponta o gestor.

Aumentar capacidade de produção

Vítor Abrantes acredita no potencial do grafeno para a indústria de defesa, considerando que o setor deverá um “peso significativo no futuro” da empresa, já a partir de 2028.

“O mercado europeu de proteção eletromagnética está avaliado em cerca de 10 mil milhões de euros até 2030, e a defesa representa uma fatia relevante dessa procura, impulsionada pelo rearmamento da NATO e pela necessidade de autonomia tecnológica europeia”, justifica.

“A Graphenest está a posicionar-se como uma plataforma capaz de fornecer soluções qualificadas para sistemas de defesa de nova geração, sistemas autónomos e infraestruturas críticas. Se conseguirmos executar o nosso plano de crescimento, este setor poderá representar uma parte substancial da nossa faturação a partir de 2028“, aponta.

Estamos a preparar um plano de expansão para os próximos dois anos. A meta passa por aumentar a produção de uma para 50 toneladas anuais de grafeno até ao final de 2028, o que nos permitirá responder à procura dos clientes industriais com quem já temos pilotos e acordos.

Vítor Abrantes

CEO da Graphenest

Com produção em Sever do Vouga, a empresa quer reforçar a sua atual capacidade de produção hoje em cerca de uma tonelada por ano. “Assumindo uma pequena incorporação de grafeno nos compósitos e nas tintas, acabamos por ter uma capacidade na ordem das dezenas de toneladas para estes produtos”, diz.

“Estamos já a preparar a expansão e à procura de uma nova localização para conseguirmos responder ao aumento de escala que planeamos para os próximos anos”, adianta. “A meta passa por aumentar a produção de uma para 50 toneladas anuais de grafeno até ao final de 2028, o que nos permitirá responder à procura dos clientes industriais com quem já temos pilotos e acordos”, revela.

Um aumento de capacidade que deverá ser acompanhado pelo crescimento da equipa. “Somos atualmente nove pessoas, com uma equipa técnica forte nas áreas de engenharia química, ciência de materiais e desenvolvimento de produto. Com o plano de expansão, prevemos crescer para cerca de 50 colaboradores até 2028″, adianta.

Engenheiros de produção, técnicos de qualidade, especialistas em desenvolvimento de negócio para os mercados europeu e norte-americano, e funções de suporte, “incluindo um CFO sénior e perfis ligados à gestão de operações” são alguns dos perfis pretendidos. “Queremos construir uma equipa capaz de acompanhar o crescimento industrial e comercial que temos pela frente”, aponta.

…ronda de investimento de cinco milhões

Fundada em 2015, desde então a Graphenest já captou cerca de 3,85 milhões de euros, com investimento inicial liderado pela Portugal Ventures, que permanece como um dos principais acionistas da empresa, tendo em 2023 reforçado essa posição numa ronda de 1,8 milhões, na qual a maior participação foi assegurada pela BuenaVistaEquityPartners (então GED Ventures). Agora, para dar músculo financeiro aos seus planos de crescimento, a empresa planeia uma nova ida ao mercado “já nos próximos meses”.

“O objetivo imediato é levantar uma ronda próxima dos cinco milhões de euros nos próximos meses para iniciar este scaleup industrial”, revela o CEO da Graphenest.

Esta primeira fase permitirá investir em equipamento de produção, infraestrutura laboratorial e reforço da equipa comercial e técnica. Numa segunda fase, planeamos uma ronda Série A de maior dimensão para consolidar a capacidade de produção e acelerar a entrada em mercados como a defesa e a mobilidade elétrica a nível europeu“, adianta.

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