Imigrantes são responsáveis por mais de metade dos novos empregos criados na Zona Euro desde 2021

A Zona Euro tem hoje 173 milhões de trabalhadores e os imigrantes, sozinhos, foram responsáveis por mais de metade do crescimento laboral dos últimos quatro anos. O envelhecimento fez o resto.

ECO Fast
  • A Zona Euro registou a criação de mais de 7,8 milhões de novos empregos desde 2019, superando as expectativas de crescimento da força de trabalho.
  • Os trabalhadores mais velhos e os imigrantes têm sido fundamentais para este aumento, com os imigrantes a representarem 10% da força de trabalho em 2025.
  • A Europa enfrenta o desafio de integrar adequadamente imigrantes e trabalhadores mais velhos, pois a baixa taxa de natalidade pode comprometer o crescimento futuro.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

A Zona Euro criou mais de 7,8 milhões de novos trabalhadores desde o final de 2019, atingindo os 173 milhões em meados de 2025, um nível muito acima do que seria esperado se a força de trabalho tivesse seguido a tendência dos dez anos anteriores, que apontaria para apenas 167 milhões.

Os responsáveis por esse feito não são os jovens que entram no mercado de trabalho, mas os mais velhos que recusam sair dele e os imigrantes que chegam dispostos a trabalhar. Num continente a envelhecer, é esta a história de como a Europa tem conseguido adiar o declínio.

Os trabalhadores mais velhos e os migrantes têm sido as duas fontes mais importantes de expansão da força de trabalho nos últimos anos, cada um com efeitos distintos nos resultados agregados do mercado laboral”, revelam os economistas Agostino Consolo, António Dias da Silva, Nina Furbach e Ramon Gomez-Salvador num extenso trabalho de investigação divulgado no Boletim Económico do Banco Central Europeu.

Trabalhadores com 65 anos ou mais representam apenas 3% da força de trabalho europeia, contra 7% nos EUA e 14% no Japão, o que aponta para uma reserva de potencial ainda por mobilizar.

Dois grupos que, em conjunto, têm sustentado o crescimento económico numa altura em que a produtividade esteve durante anos adormecida e que têm contribuído para adiar o declínio da Europa.

O envelhecimento demográfico é frequentemente apresentado como uma ameaça à sustentabilidade das economias europeias. Mas os economistas do BCE contrariam, pelo menos em parte, esse determinismo, notando que “o envelhecimento da população ativa da Zona Euro não se traduziu numa diminuição proporcional da força de trabalho”.

Os números suportam esse argumento, com o volume de trabalhadores com idades entre os 55 e os 74 anos a crescer 20,2% entre o quarto trimestre de 2019 e o mesmo período de 2025, e a sua taxa de participação no mercado de emprego a subir de 40,3% para 44,9%.

Ainda assim, a Zona Euro fica muito atrás do que se verifica noutros países desenvolvidos: trabalhadores com 65 anos ou mais representam apenas 3% da força de trabalho europeia, contra 7% nos EUA e 14% no Japão, o que aponta para uma reserva de potencial ainda por mobilizar.

As reformas das pensões, o aumento da escolaridade, a maior participação feminina — a força de trabalho feminina cresceu 5,2%, contra 4,3% para os homens no mesmo período, embora persista uma diferença de nove pontos percentuais — e uma transição progressiva para profissões menos fisicamente exigentes têm permitido que gerações mais velhas continuem ativas por mais tempo, e isso faz toda a diferença para o output potencial da economia europeia, destacam os investigadores.

O importante e indispensável contributo dos imigrantes

A outra força motriz do mercado de emprego na Zona Euro nos últimos anos tem sido a imigração. Representando apenas 8% da força de trabalho da área do euro em 2021, os trabalhadores estrangeiros foram responsáveis por mais de metade do crescimento do mercado laboral nos últimos quatro anos, adicionando 4,2 milhões de novos trabalhadores e elevando a sua quota para 10%.

Este aumento foi, em grande parte, impulsionado pela chegada de ucranianos deslocados pela guerra e por fluxos mais intensos de cidadãos de países da América Latina para Espanha, referem os investigadores.

A taxa de participação no mercado de trabalho dos cidadãos não-comunitários subiu de 64,1% em 2022 para quase 66,6% em 2025, superando inclusivamente a taxa dos nacionais da Zona Euro desde 2024, um dado que contraria a narrativa de que os imigrantes constituem um peso passivo para as economias de acolhimento.

Os novos chegados [novos imigrantes] preencheram, em grande medida, posições em setores com escassez aguda de mão-de-obra, em vez de deslocarem trabalhadores existentes ou adicionarem-se ao grupo de desempregados.

Agostino Consolo, António Dias da Silva, Nina Furbach e Ramon Gomez-Salvador

Autores do paper 'Drivers of the labour force in the euro area' do BCE

O que distingue esta vaga migratória de episódios anteriores é que os recém-chegados têm preenchido lacunas em setores com escassez aguda de mão-de-obra, desde a construção à tecnologia, sem deslocar trabalhadores nacionais nem engordar o rol de desempregados. “Os novos chegados preencheram, em grande medida, posições em setores com escassez aguda de mão-de-obra, em vez de deslocarem trabalhadores existentes ou adicionarem-se ao grupo de desempregados”, destaca o estudo do BCE.

Essa realidade é bem visível em Portugal. Uma análise publicada no Boletim Económico de março do Banco de Portugal revela que, entre 2010 e 2024, registaram-se cerca de 1,4 milhões de entradas de imigrantes em Portugal, das quais 1,2 milhões ocorreram a partir de 2018, e que os trabalhadores estrangeiros passaram, em média, 86% do seu tempo de permanência em Portugal empregados por conta de outrem, recebendo “muito pouco subsídio de desemprego” e praticamente nenhuma pensão.

“Claramente estão cá a fazer atividades que são produtivas e claramente a trabalhar. Mais de 90% dos seus tempos de permanência passam a fazer isso”, destacou Álvaro Santos Pereira, governador do Banco de Portugal, na apresentação do Boletim Económico, sublinhando ainda que “os imigrantes praticamente não recebem pensões e recebem muito pouco subsídio de desemprego”.

Há, porém, um desafio crítico que os investigadores não deixam de assinalar: em 2024, a taxa de sobrequalificação (a proporção de imigrantes com formação superior a trabalhar em funções de média ou baixa qualificação) atingia os 40% para cidadãos não-comunitários, quase o dobro da registada entre os nacionais. Esta má alocação de talento é, ela própria, um travão à produtividade.

Um mercado menos volátil, mas também menos fluido

Durante décadas, a Europa habituou-se a olhar para a taxa de desemprego como o termómetro por excelência do estado do mercado de trabalho: se o número sobe, a economia arrefece; se desce, a economia aquece.

Contudo, os investigadores do BCE avisam que este instrumento está a tornar-se progressivamente menos fiável, e a razão é a mesma transformação silenciosa que, afinal, tem estado a sustentar o emprego europeu: o envelhecimento da força de trabalho. Esta transformação tem, porém, duas faces.

  • Do lado positivo, a crescente presença de trabalhadores mais velhos e mais qualificados tem empurrado a taxa de desemprego para os níveis mais baixos desde o início da década de 1980.
  • Do lado negativo, um mercado de trabalho dominado por trabalhadores mais velhos é, por definição, um mercado menos dinâmico: entre 2022 e 2025, mais de 5% dos trabalhadores com idades entre os 18 e os 29 anos fizeram uma transição de emprego para emprego em cada trimestre, contra apenas 1% dos trabalhadores com idades entre os 55 e os 74 anos.

“Estes padrões sugerem que o envelhecimento em curso da força de trabalho reduzirá provavelmente a frequência e a duração dos períodos de desemprego ao longo do ciclo económico”, alertam os investigadores do BCE, acrescentando que “menos transições de emprego para emprego afetarão a fluidez do mercado de trabalho e a capacidade da economia da Zona Euro de se ajustar a choques de realocação”, provocando implicações diretas na política monetária, tornando mais difícil a leitura da verdadeira tensão existente no mercado de trabalho.

Há ainda um problema de fundo que o estudo do BCE não esconde: os ganhos de participação dos trabalhadores mais velhos são, por natureza, transitórios. “As taxas de fertilidade persistentemente baixas continuam a reduzir a proporção de faixas etárias mais jovens que entram no mercado de trabalho, o que significa que o atual aumento da participação dos trabalhadores mais velhos oferece apenas uma compensação transitória do impacto demográfico a longo prazo”, indica o estudo.

A conclusão da análise dos investigadores aponta para que sem imigração e sem avanços tecnológicos, nomeadamente através da inteligência artificial, a Europa não terá força de trabalho suficiente para sustentar o seu modelo de crescimento. Assim, a questão não é se a Europa precisa de imigrantes e de trabalhadores mais velhos, mas se saberá aproveitá-los e integrá-los a tempo.

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