Montenegro acena com nova baixa de impostos, mas sem metas
O candidato a líder do PSD usa a moção estratégica para voltar a acenar com um novo alívio fiscal sobre trabalho e empresas, mas sem repetir as metas previstas no programa do Governo.
Sem eleições legislativas à vista, Luís Montenegro utiliza a moção de estratégia global “Trabalhar – Fazer Portugal Maior”, apresentada ao congresso do PSD e com que se recandidata a líder social-democrata, para reforçar a aposta numa agenda de descida de impostos e de liberalização económica, mas sem repetir as metas quantitativas inscritas no programa do XXV Governo Constitucional com que a AD concorreu às legislativas de maio de 2025. A comparação entre os dois documentos mostra que a moção política do líder do PSD aprofunda o discurso ideológico sobre fiscalidade e papel do Estado, mas evita compromissos concretos quanto à dimensão futura dos cortes fiscais.
No programa do Governo, a política fiscal surge detalhada ao longo de várias páginas e acompanhada de objetivos mensuráveis. O Executivo compromete-se com uma redução do IRS de dois mil milhões de euros ao longo da legislatura, incluindo uma descida de 500 milhões já em 2025, bem como com a redução gradual do IRC até 17% e até 15% para pequenas e médias empresas. O documento prevê ainda “evoluir para um sistema de tributação limitada da poupança”, reduzir a carga fiscal sobre os rendimentos reinvestidos e rever benefícios fiscais considerados ineficientes.
A moção estratégica apresentada por Montenegro não abandona essa linha política, mas altera significativamente o enquadramento. Em vez de metas ou calendários concretos, o documento insiste numa visão mais ampla de transformação económica assente na criação de riqueza, na valorização do mérito e na redução da intervenção do Estado na economia. Montenegro escreve que “a justiça social e a criação de riqueza andam de braço dado” e defende que Portugal precisa de “libertar potencial” e “desbloquear energia económica”.
Ao contrário do programa governamental, que apresenta a redução fiscal sobretudo como instrumento de estímulo económico, a moção transforma os impostos numa questão política e quase identitária para o PSD. O documento sustenta que o país “não cresce porque o Estado continua demasiado pesado, lento e opaco” e defende uma Administração Pública menos interventiva, com menos controlo prévio e maior confiança nos contribuintes e nas empresas.
Essa diferença é particularmente evidente na abordagem ao IRC. Enquanto o programa do Governo fixa metas concretas de descida do imposto sobre empresas para reforçar a competitividade e atrair investimento, a moção do PSD prefere um discurso mais estrutural sobre o modelo económico português, criticando aquilo que considera ser décadas de “bloqueios burocráticos” e excesso de regulação. Montenegro defende um “quadro regulatório eficiente” e um Estado que funcione como “acelerador da mudança” em vez de “obstáculo ao desenvolvimento”.
“Os empresários têm de acreditar que vale a pena investir em Portugal, têm de confiar na política fiscal e sentir que apostar em Portugal compensa. Num mundo que compete por investimento, não podemos ter uma taxa de IRC tão elevada”, escreve Montenegro na moção de estratégia global.
O mesmo sucede com o IRS. O programa do Governo detalha o alívio fiscal sobre os rendimentos do trabalho, associando-o à necessidade de aumentar salários líquidos, travar a saída de jovens qualificados e reforçar a classe média. Já a moção prefere enfatizar conceitos como “mobilidade social”, “mérito” e “recompensa do esforço”, mas sem voltar a quantificar futuras reduções de impostos.
A ausência de metas concretas constitui uma das diferenças mais relevantes entre os dois documentos. Apesar de reiterar a prioridade da redução da carga fiscal, Montenegro evita assumir novos objetivos numéricos ou calendários adicionais para cortes de IRS e IRC, numa altura em que o Governo enfrenta maior pressão orçamental associada à despesa com defesa, saúde, habitação e pensões.
Apesar de reiterar a prioridade da redução da carga fiscal, Montenegro evita assumir novos objetivos numéricos ou calendários adicionais para cortes de IRS e IRC, numa altura em que o Governo enfrenta maior pressão orçamental associada à despesa com defesa, saúde, habitação e pensões.
Ainda assim, a moção deixa claro que o PSD pretende aprofundar a estratégia de redução da intervenção fiscal e administrativa do Estado. O documento propõe menos pareceres prévios, maior recurso ao deferimento tácito, fiscalização a posteriori e simplificação radical de processos administrativos e tributários. A lógica subjacente é a de que a competitividade económica depende tanto da descida de impostos como da redução dos custos de contexto impostos pela máquina do Estado.
O contraste entre os dois textos também se nota na relação entre política fiscal e despesa pública. O programa governamental insiste na necessidade de compatibilizar a descida de impostos com “contas certas”, revisão da despesa fiscal e controlo da despesa pública. Já a moção do PSD coloca maior ênfase na reforma estrutural do Estado, defendendo reorganização administrativa, eliminação de estruturas redundantes e simplificação da Administração Pública como forma de sustentar um modelo fiscal mais leve.
Também na tributação da poupança e do investimento existe uma diferença de tom. O programa do Governo apresenta propostas técnicas para estimular poupança de longo prazo e capitalização das empresas, enquanto a moção enquadra essas medidas numa narrativa mais ampla de valorização da iniciativa privada e de reforço da autonomia económica das famílias.
No conjunto, a moção estratégica de Luís Montenegro mantém o essencial da agenda fiscal apresentada pela AD nas legislativas de 2025, mas desloca o foco do detalhe técnico para a afirmação política. O líder do PSD reforça a promessa de aliviar a carga fiscal sobre trabalho e empresas, intensifica o discurso contra o peso do Estado e aproxima o partido de uma matriz mais liberal na economia, mas fá-lo sem repetir os compromissos quantitativos que constavam do programa do Governo.
PSD acentua flexibilidade laboral e discurso do mérito face ao programa do Governo
A reforma laboral é outro dos domínios em que a moção estratégica de Luís Montenegro recupera grande parte da linha do programa do Governo, mas acentua o discurso político sobre produtividade, mérito e flexibilidade do mercado de trabalho. Tal como acontece na política fiscal, a moção abandona parte do detalhe técnico presente no programa governamental e substitui-o por uma narrativa mais ideológica sobre a necessidade de “modernizar” a economia portuguesa e “valorizar o trabalho”.
No programa do Governo, a agenda laboral surge associada à valorização dos salários, ao combate à precariedade e ao aumento da produtividade. O Executivo propõe reforçar a contratação coletiva, incentivar prémios de desempenho isentos de tributação e criar mecanismos de flexibilidade laboral negociada, procurando simultaneamente aumentar rendimentos e competitividade. O documento fala ainda em “premiar o mérito, a qualificação e a produtividade”, ligando a evolução salarial ao crescimento económico e ao investimento empresarial.
A moção estratégica do PSD acompanha essa prioridade, mas coloca muito mais ênfase na ideia de desbloquear o mercado de trabalho e reduzir aquilo que considera serem entraves estruturais ao crescimento das empresas. Montenegro defende um país “mais competitivo, mais produtivo e mais capaz de reter talento”, insistindo que Portugal continua excessivamente condicionado por “baixa produtividade, salários reduzidos e excesso de burocracia”.
Enquanto o programa do Governo mantém uma formulação mais equilibrada entre proteção laboral e competitividade económica, a moção aproxima-se de um discurso mais liberal sobre relações laborais. O documento insiste na necessidade de “valorizar o mérito e o esforço”, defendendo uma economia mais dinâmica, com maior mobilidade profissional e melhores condições para o investimento privado.
As diferenças tornam-se particularmente visíveis na abordagem ao papel do Estado no mercado de trabalho. O programa governamental continua a atribuir ao Estado um papel importante na mediação social e na regulação das relações laborais, falando em concertação social, diálogo entre parceiros e reforço de instrumentos de proteção social. Já a moção do PSD coloca maior peso na iniciativa privada e na flexibilização económica, enquadrando a reforma laboral numa estratégia mais ampla de redução da intervenção administrativa e regulatória.
Há também diferenças no tom utilizado sobre os jovens e a retenção de talento. O programa do Governo aposta sobretudo em medidas concretas — redução do IRS Jovem, valorização salarial e incentivos fiscais — para travar a emigração qualificada. A moção transforma esse problema numa questão estrutural do modelo económico português, argumentando que o país “não pode continuar a perder os seus mais qualificados” por incapacidade de gerar oportunidades suficientemente atrativas.
Também no tema da produtividade surgem nuances importantes. O programa governamental associa a melhoria salarial ao investimento, inovação e qualificação da economia. A moção do PSD, embora mantenha essa ligação, insiste mais na necessidade de reformar o enquadramento regulatório e administrativo das empresas, sugerindo que a rigidez do Estado e da burocracia continua a travar crescimento económico e progressão salarial.
No essencial, os dois documentos convergem na prioridade de aumentar salários, estimular produtividade e tornar a economia mais competitiva. Mas enquanto o programa do Governo procura equilibrar essa agenda com referências à concertação social e à proteção laboral, a moção estratégica do PSD coloca o acento tónico na flexibilidade económica, na valorização do mérito e na redução dos constrangimentos regulatórios sobre empresas e mercado de trabalho.
Montenegro rejeita uma solução de Governo com Chega ou PS
Do ponto de vista político, e ao contrário do programa do Governo — que mantém um registo mais institucional, técnico e executivo — a moção do PSD assume um tom claramente político-partidário e procura recentrar o PSD como força dominante do centro-direita português.
Logo nas primeiras páginas, Montenegro utiliza o documento para definir o posicionamento estratégico do partido perante o Chega e o PS, num tom ausente do programa governamental. O líder social-democrata insiste que o PSD “não terá uma solução de Governo nem com o Chega nem com o Partido Socialista”, defendendo simultaneamente diálogo parlamentar com ambos. “O sentido do ‘não é não’ com o Chega é o mesmo do ‘não ao bloco central’ com o PS”, lê-se na moção estratégica.
A formulação vai mais longe do que o programa do Governo, que fala genericamente em “abertura ao diálogo construtivo” e em procurar “convergências possíveis” com as oposições, sem referências diretas ao Chega. Na moção, Montenegro introduz ainda um ataque político explícito à ideia de “cercas sanitárias”, afirmando que é “absurdo” falar desse conceito no Parlamento português, numa referência indireta ao debate sobre entendimentos entre Chega e PS. O programa do Governo evita totalmente esse tipo de linguagem política e privilegia uma narrativa de estabilidade institucional.
Outra diferença relevante está no tom ideológico utilizado contra o PS. A moção acusa diretamente os governos socialistas de se terem limitado a “gerir a situação”, contrapondo-lhes uma agenda de desbloqueio, transformação e potenciação do país. Já o programa governamental, embora fale em romper com a “inércia” e com os “adormecimentos burocráticos”, utiliza uma linguagem mais moderada e menos confrontacional.
A área da imigração é uma das que mais evidencia diferenças de intensidade política entre os dois textos. O programa do Governo propõe uma política migratória “regulada e humanista”, defendendo mais controlo e fiscalização, mas mantendo um enquadramento institucional e administrativo.
Já a moção do PSD endurece substancialmente o discurso. O documento fala numa “imigração descontrolada” entre 2017 e 2024, acusa os governos anteriores, do PS, de terem provocado “um dos maiores choques demográficos da história do País” e refere que essa política “corroeu a coesão social”.
Além disso, a moção aprofunda propostas restritivas que surgem menos detalhadas no programa governamental. Entre elas estão: limitação do reagrupamento familiar; restrição dos vistos para procura de trabalho a trabalhadores altamente qualificados; alargamento do tempo mínimo de residência para acesso à nacionalidade; exigência de maior integração cultural e linguística.
O texto do PSD insiste repetidamente na ideia de “direitos e deveres” dos imigrantes e na necessidade de prevenir “núcleos fechados à integração”. Esse enfoque identitário é muito mais acentuado do que no programa do Governo.
A moção dedica várias páginas ao Atlântico, à CPLP, à língua portuguesa e ao papel geopolítico de Portugal. Montenegro escreve que “o Atlântico faz parte da nossa identidade” e defende que Portugal deve assumir-se como “hub intercontinental”. O programa do Governo quase não desenvolve essa narrativa estratégica, concentrando-se mais em infraestruturas, investimento, defesa e fundos europeus.
Também na questão da coesão territorial a moção assume um tom mais conceptual. O PSD fala numa visão integrada do território, envolvendo interior, litoral, regiões autónomas e cidades médias como “plataformas de desenvolvimento de um mesmo país”. Já o programa do Governo privilegia instrumentos operacionais, como o “Pacto para o Interior”, fundos europeus e políticas setoriais.
A própria estrutura dos documentos evidencia prioridades diferentes. O programa governamental organiza-se em torno de dez “eixos prioritários” altamente operacionalizados — rendimentos, reforma do Estado, imigração, habitação, defesa ou água — acompanhados de metas e medidas concretas. A moção do PSD, pelo contrário, procura construir uma narrativa política de longo prazo, assente em cinco verbos de ação: “potenciar”, “desbloquear”, “transformar”, “preparar” e “ampliar” Portugal.
Essa diferença revela que a moção não funciona apenas como extensão do programa governamental, mas como tentativa de consolidar uma identidade política própria para o PSD de Montenegro: reformista, liberal na economia, mais exigente na imigração e apostada em ocupar o espaço do centro-direita sem alianças formais nem com o Chega nem com o PS.
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