Reformas, maiorias e o “Portugal dos pequeninos”
Paulo Macedo, Miguel Maya e António Lagartixo reconheceram, no countdown para os IRGAwards 2026, que Portugal tem condições para atrair investimento, mas continua travado por bloqueios estruturais.

- Paulo Macedo, presidente da Caixa Geral de Depósitos, destaca a necessidade de uma maioria política clara para implementar reformas estruturais em Portugal, que enfrenta bloqueios ao crescimento.
- Os líderes empresariais reconhecem que, apesar do talento e das condições favoráveis, o país é prejudicado por custos de contexto e falta de ambição para atrair investimento.
- A urgência na transformação é enfatizada, pois a inação pode levar a um aumento do mal-estar político e a revoluções, segundo Miguel Maya do Millennium BCP.
“É preciso ter uma maioria. É preciso ser uma maioria que seja clara”, afirma Paulo Macedo, presidente executivo da Caixa Geral de Depósitos e antigo ministro da Saúde, numa conversa promovida pelo ECO, no âmbito do countdown para os IRGAwards 2026, iniciativa da Deloitte que este ano tem como tema “Transformation unlocking human potential”. A afirmação surgiu quando o debate entrou na capacidade de transformação do país e nas condições políticas necessárias para fazer reformas estruturais.
Portugal tem talento, localização, estabilidade e capacidade técnica para atrair investimento, mas continua condicionado por bloqueios estruturais que reduzem a sua capacidade de transformar crescimento económico em prosperidade. Esta foi uma das leituras deixadas por Paulo Macedo, Miguel Maya e António Lagartixo numa conversa que partiu do talento, da tecnologia e da inteligência artificial, mas acabou por se concentrar também na justiça, na legislação laboral, nos custos de contexto e na ambição económica do país.
António Lagartixo enquadrou essa dificuldade de transformação na diferença entre o potencial do país e a capacidade de o converter em investimento. O líder da Deloitte em Portugal reconheceu que Portugal tem “do melhor talento” e “das melhores capacidades que existem a nível mundial”, mas advertiu que esse potencial continua condicionado por custos de contexto, desde a justiça aos licenciamentos, passando pela rigidez administrativa. “É possível transformar Portugal num país excecional para fazer investimento. Pela localização, pela formação das pessoas, pelo clima. Temos todas as condições. Portanto, falta-nos a ambição de o fazer”, afirmou.
As pessoas estarem disponíveis para mudar em coisas que as afetem é muito difícil, como temos visto.
Paulo Macedo reconheceu que existe inquietação com Portugal, mas admitiu que a disponibilidade coletiva para a mudança encontra resistência quando essa mudança toca interesses concretos. “As pessoas estarem disponíveis para mudar em coisas que as afetem é muito difícil, como temos visto”, afirmou. O antigo ministro recusou, ainda assim, que todos os bloqueios se expliquem por falhas de comunicação política. “Eu não acredito sempre que seja uma questão de comunicação”, disse, sublinhando que “as pessoas têm dificuldade em trocar longo prazo por curto prazo” e que “todos os nossos incentivos são para o curto prazo”.
Miguel Maya, presidente executivo do Millennium BCP, reconheceu que Portugal precisa de maior sentido de urgência. “Se há coisa que a história nos ensina é que, quando se atrasam as transformações, aceleram-se as revoluções”, afirmou. Para o gestor, parte do mal-estar político que se observa na Europa e em Portugal não resulta necessariamente de uma adesão a ideologias mais radicais, mas de “um voto de protesto” perante a falta de coragem para fazer transformações.
Se há coisa que a história nos ensina é que, quando se atrasam as transformações, aceleram-se as revoluções.
O CEO do BCP considerou que o país corre o risco de ficar preso ao “meio-termo” e ao “Portugal dos pequeninos”, sem ambição suficiente para se tornar “um país mais próspero, mais inclusivo” e capaz de oferecer melhores salários. Maya reconheceu que esse caminho implica libertar a economia e reforçar a competitividade das empresas. “Quem cria essa prosperidade são as empresas. E o bem-estar social, quer dizer, a rede social, só tem a beneficiar se as empresas forem mais competitivas. Não é o contrário”, afirmou.
Para o presidente executivo do BCP, Portugal continua demasiado preso a uma lógica de soma nula, em que “para dar a alguém, tem de se tirar do outro lado”, quando o caminho deveria ser “aumentar a prosperidade, aumentar a riqueza e distribuir melhor a riqueza”. “E isso só se consegue com mudança”, afirmou Miguel Maya.
A ideia de maioria política clara surgiu quando Paulo Macedo foi confrontado com três condições excecionais que Portugal teve nos últimos anos, imigração, turismo e fundos comunitários, sem que isso tivesse sido suficiente para executar transformações estruturais. O antigo governante respondeu que as reformas precisam de sustentação política e capacidade para enfrentar custos de curto prazo. “Eu acho que é preciso ter uma maioria. É preciso ser uma maioria que seja clara”, afirmou, acrescentando que as reformas estruturais “vão sempre preterir alguns interesses”.
O gestor da Caixa apontou a justiça como uma área onde existe um diagnóstico quase consensual, mas onde o país continua sem capacidade de execução. “Não deve haver um português que esteja satisfeito com a justiça e com o tempo que demora. E mesmo assim não se conseguiu preparar um pacote legislativo que pudesse ser aprovado”, afirmou, acrescentando que os tribunais administrativos e fiscais podem ser particularmente relevantes para a atividade económica.
Acho difícil de entender para um comum mortal português como eu como é que se está há nove meses a negociar, com parceiros sociais à mesa, e se chega ao fim e parece que não há flexibilidade de parte a parte para se conseguir chegar a um consenso.
A reforma laboral também entrou na conversa, embora Miguel Maya e António Lagartixo tenham evitado comentar medidas concretas. O CEO do BCP considerou “quase imperativo” que haja uma revisão da legislação laboral, num contexto em que Portugal mantém desemprego jovem elevado e em que as empresas disputam trabalhadores qualificados. “Quando nós temos o desemprego a 6% e o desemprego jovem a 19%, não acredito que haja uma pessoa que seja capaz de dizer que não há necessidade de mudança”, afirmou.
O líder da Deloitte em Portugal reconheceu dificuldade em compreender a incapacidade de chegar a consensos depois de meses de negociação entre Governo e parceiros sociais. “Acho difícil de entender para um comum mortal português como eu como é que se está há nove meses a negociar, com parceiros sociais à mesa, e se chega ao fim e parece que não há flexibilidade de parte a parte para se conseguir chegar a um consenso”, disse. Lagartixo admitiu que há regras laborais que hoje “não fazem sentido”, mas sublinhou que qualquer mudança deve preservar equilíbrios e direitos dos trabalhadores.
Questionados sobre se fundariam hoje uma empresa em Portugal, os três gestores reconheceram o potencial do país, mas deixaram respostas com diferentes graus de prudência. Paulo Macedo respondeu afirmativamente, invocando também a ligação ao país. “Fazia. Da mesma maneira que voltava a ir para o Governo na altura, reduzindo o salário. Não são só fatores muito objetivos que nos movem”, afirmou o presidente executivo da Caixa, acrescentando que “a ligação ao país é uma coisa subjetiva”.
Miguel Maya separou a resposta emocional da avaliação empresarial. “Eu investia em Portugal. Como português, investia em Portugal”, afirmou. Mas, quando confrontado com a pergunta sobre que recomendação faria enquanto gestor a um investidor estrangeiro, reconheceu que Portugal não tem as melhores condições dentro da Europa. “Trabalho em Portugal e trabalho na Polónia, dois europeus, e não tenho dúvidas de que a capacidade de a empresa ser melhor sucedida, provavelmente, na Polónia, seria maior”, disse o CEO do BCP.
Paulo Macedo e Miguel Maya são dois dos cinco candidatos ao prémio de CEO do ano dos Irgawards de 2026, encontro que decorre no dia 21 de maio, em Lisboa, além de Cláudia Azevedo, Pedro Castro e Almeida e João Bento.
António Lagartixo alinhou com essa leitura. O líder da Deloitte em Portugal disse que defende Portugal na rede internacional da consultora e que faz “tudo o que é possível e às vezes até quase o impossível” para atrair investimento e criar emprego no país. Mas reconheceu que, fora da lógica dos serviços profissionais, há geografias europeias que oferecem menor risco para investir. No fecho da conversa, Paulo Macedo e Miguel Maya reconheceram que a responsabilidade pela mudança não cabe apenas ao Estado. “Os gestores têm um papel fundamental. Os gestores têm poder de decisão”, afirmou o presidente da Caixa. Para o CEO do BCP, “se cada um no seu posto de observação, no seu posto de trabalho, conseguir fazer esse trabalho, Portugal muda”.
Paulo Macedo e Miguel Maya são dois dos cinco candidatos ao prémio de CEO do ano dos Irgawards de 2026, encontro que decorre no dia 21 de maio, em Lisboa, além de Cláudia Azevedo, Pedro Castro e Almeida e João Bento.
Assista aqui ao debate, na íntegra:
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