CEO da Airbus quer países da UE a comprar equipamentos de Defesa europeus

O Eurofighter é um dos candidatos à substituição dos caças F-16 da Força Aérea Portuguesa. Guillaume Faury, CEO da Airbus, comenta o processo e a aposta da Europa no setor da defesa.

“A Europa realmente precisa crescer e progredir no campo da defesa, não apenas comprando equipamentos, mas comprando equipamentos europeus“, atira Guillaume Faury, CEO da Airbus, aos jornalistas portugueses, à margem da primeira conferência de defesa organizada pela Airbus, esta quarta-feira em Manching, na Alemanha.

“A Airbus é uma empresa que coopera em escala europeia. Garantimos a soberania da solução que desenvolvemos”, refere o gestor quando questionado sobre quais os argumentos da empresa para ‘ganhar’ a corrida à substituição dos caças F-16 em fim de vida. O Eurofighter, consórcio do qual a Airbus é uma das empresas participantes, é um dos caças interessados neste projeto, no qual concorrem com os F-35 da Loockheed Martin ou os Gripen da sueca Saab.

“Estamos presentes em Portugal hoje e não esperamos por licitações de defesa para investir no país na produção de aeroestruturas para a Airbus Atlantic. Dispomos de muitos serviços — serviços internos da Airbus — que dependem da nossa empresa portuguesa. Portanto, estamos presentes em Portugal. Estamos a competir em diversas licitações, não apenas na área de aviões, mas também de helicópteros e satélites. E vem mais por aí. Somos também muito fortes em segurança cibernética e este é um serviço que estamos a oferecer a todos os países europeus, incluindo Portugal”, aponta ainda o gestor em conversa com os jornalistas portugueses à margem da cimeira de defesa da companhia, quando questionado sobre a possibilidade da indústria de defesa portuguesa poder contribuir para a produção do caça europeu.

O gestor recusa a ideia de que o atual impasse em torno do programa Future Combat Air System (FCAS) jogue contra o consórcio Eurofighter na hora de tomar uma decisão de compra, não só em Portugal como noutros mercados, num momento em que na Europa há um impulso de investimento para reequipar as Forças Armadas europeias para ganhar soberania de defesa na região.

“Não creio. Penso que a capacidade da Airbus de criar as condições para uma cooperação bem-sucedida na Europa é demonstrada todos os dias. E o que vocês veem aqui hoje é um testemunho da nossa capacidade de cooperar. Não diria que o FCAS se encontra num impasse. A transição da fase um para a fase dois, no que toca aos caças, atravessa um momento difícil. Mas, repito: o FCAS possui sete pilares. Portanto, não devemos encarar a dificuldade num único pilar como um sinal da incapacidade da Europa de cooperar em conjunto. E, mais uma vez: na Airbus, participamos com sucesso de grandes iniciativas de cooperação europeia, e assim continuará a ser”, diz quando questionado sobre o tema pelo ECO/eRadar.

Guillaume Faury mostra-se ainda otimista quanto à capacidade da indústria de defesa europeia em responder a este impulso que está a ser dado em termos de investimento e necessidades dos países.

 

“A situação atual assemelha-se um pouco ao dilema do ‘ovo ou a galinha’: de um lado, há a expectativa por parte dos governos de que a indústria faça mais; de outro, a expectativa da indústria de obter clareza quanto à necessidade de contratos e de garantir que os investimentos estejam a ser direcionados para o caminho certo”, atira. “Levou algum tempo até que as coisas começassem a avançar. Creio ser exatamente isso o que observamos hoje”, refere.

Temos presenciado um aumento significativo nos orçamentos, com tais recursos sendo alocados para grandes projetos. Portanto, acredito que estamos a caminhar na direção correta; afinal, a transição de um cenário de paz para uma era de conflitos — e para cenários de conflito — exige algum tempo por parte da indústria. Estamos a organizar-nos; por isso, estou confiante de que alcançaremos uma situação mais favorável e de que continuaremos a progredir“, defende o CEO da Airbus, quando instado a comentar pelo ECO/eRadar as declarações da chefe da diplomacia da União Europeia, KajaKallas, que se mostrou desapontada com a capacidade de resposta da indústria de defesa europeia face aos montantes de investimentos já realizados.

O gestor lembra que, no que toca à defesa, a Europa e a indústria partem de uma posição de desvantagem face, por exemplo, aos EUA. A começar pelos montantes investidos na compra de equipamento europeu face ao norte-americano. Os números são claros.

“Partimos de um cenário em que os países da Europa — os países da UE — adquirem de empresas europeias menos de 10% do que os Estados Unidos compram de empresas americanas. Essa é uma realidade que precisamos mudar ao longo do tempo. Estamos fortemente empenhados em instar os países europeus a adotarem essa perspetiva estratégica de reforçar a base industrial e técnica da Europa, recorrendo a sistemas europeus”, diz Guillaume Faury.

“Esses sistemas podem ser extremamente competitivos. Na verdade, demonstram essa competitividade mesmo tendo consumido, de longe, menos recursos financeiros do que os investidos por outros países ao redor do mundo”, realça.

Ainda assim, Faury diz estar “muito confiante de que, com a visão estratégica dos países europeus, a aquisição de fontes europeias alcançará o patamar desejado e permitirá defender a Europa da maneira que necessitamos, diante dos conflitos modernos”, refere.

Isto, também se “aplica a esta licitação em Portugal [para os caças], mas estende-se a muitos outros processos concorrenciais na Europa. Oferecemos soluções. Não estamos desesperados para vencer absolutamente todas as licitações, mas queremos assegurar que a Europa avance na direção correta. Esse é o ADN da Airbus”.

 

A empresa, lembrou Faury durante a sua intervenção na cimeira, é “a maior empresa de defesa europeia”, embora o setor represente apenas 20% das receitas da Airbus, mais conhecida pelo seu setor aeronáutico civil. A companhia, por exemplo, fornece aviões para a TAP e, em Portugal tem em Santo Tirso uma unidade de produção que está a aumentar em 30% a capacidade de produção.

Mas o setor de defesa tem vindo a ganhar peso na companhia. No ano passado, a empresa gerou receitas totais de 73,4 mil milhões (+6%), com a Defesa a crescer 15% o seu volume de negócios para 14,2 mil milhões.

No setor de defesa, a companhia também atua na produção de helicópteros — para para o setor civil, como militar. Durante a cimeira, foi ainda feita uma demonstração no centro de drones da Airbus das capacidades destes equipamentos, bem como no setor de drones, onde a Airbus também tem ativos.

(última atualização às 14h06)

*O ECO/eRadar viajou à Alemanha a convite da Airbus

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