Empresas têm talento, falta libertá-lo
O talento, a tecnologia e o impacto da inteligência artificial no emprego estiveram no centro do debate entre Paulo Macedo, Miguel Maya e António Lagartixo, no countdown para os IRGAwards 2026.

- O debate sobre a transformação do talento nas empresas portuguesas destaca que o verdadeiro desafio não é apenas atrair, mas também libertar o talento existente nas organizações.
- A desigualdade na transformação tecnológica entre grandes empresas e PME levanta preocupações sobre a capacidade de manter um equilíbrio social, especialmente com a automação de tarefas.
“O talento estava lá”. A afirmação é de Miguel Maya, presidente executivo do Millennium BCP, e resume uma das ideias centrais da conversa promovida pelo ECO, no âmbito do countdown para os IRGAwards 2026: o problema das empresas portuguesas não está apenas na capacidade de atrair pessoas qualificadas, mas na forma como conseguem libertar o talento que já existe dentro das organizações. O debate juntou Paulo Macedo, presidente executivo da Caixa Geral de Depósitos, Miguel Maya e António Lagartixo, líder da Deloitte em Portugal, promotora dos IRGAwards, que decorrem já este dia 21 de maio e têm como tema “Transformation unlocking human potential”.
O talento, a tecnologia e o impacto da inteligência artificial no emprego estiveram no centro da conversa entre Paulo Macedo, Miguel Maya e António Lagartixo. Paulo Macedo considerou que a banca vive hoje um momento mais favorável na atração de jovens, depois de anos em que o setor perdeu atratividade face às tecnológicas. “Há uns anos era mais difícil atrair jovens para a banca”, afirmou o presidente executivo da Caixa, defendendo que bancos de maior dimensão conseguem hoje oferecer carreiras em áreas como análise de risco, cibersegurança, inteligência artificial, controlo e risco.
Uma das coisas que atrai as pessoas novas é se vão continuar a aprender.
O gestor da CGD disse que o banco não enfrenta constrangimentos relevantes no recrutamento. “Em termos de recrutamento, nós não temos constrangimentos”, afirmou, acrescentando que a Caixa está a contratar “cerca de 200 pessoas por ano”, tanto para áreas tecnológicas e de risco como para a área comercial. A dimensão física do banco continua a pesar nessa estratégia: a Caixa mantém “mais de 550 agências” e assume-se como banco universal, em que a componente comercial continua a ser relevante.
Miguel Maya deslocou o debate da atração para a mobilização interna. “Mais difícil do que atrair talento é, de facto, libertar o talento que há dentro de cada organização”, afirmou. Para o CEO do BCP, há empresas que conseguem maus resultados com as mesmas pessoas que, noutro contexto organizacional, produzem resultados muito melhores. “O talento estava lá, não estava a ser emulado de forma a que pudesse ser aproveitado”, disse.
O presidente executivo do BCP rejeitou também a ideia de que eficiência e atenção às pessoas sejam objetivos contraditórios. “Se nós queremos, de facto, ser produtivos, o que temos é que estar ainda mais atentos às pessoas”, afirmou. Maya recordou que o primeiro plano estratégico que apresentou em 2018 se chamava Mobilizar e tinha dois eixos: mobilizar pessoas e tecnologia. “Nós só conseguíamos fazer a transformação que tínhamos que fazer se as pessoas se envolvessem nessa transformação”, disse.
Mais difícil do que atrair talento é, de facto, libertar o talento que há dentro de cada organização
António Lagartixo explicou que o tema escolhido para os IRGAwards deste ano resulta diretamente do debate sobre inteligência artificial, emprego e competências. “Nós quisemos agarrar este assunto de uma maneira diferente”, afirmou o líder da Deloitte, defendendo que a transformação tecnológica deve ser vista como uma oportunidade para maximizar o potencial humano e não apenas como risco de destruição de emprego. “Achámos que queríamos dar uma perspetiva positiva a este assunto e não olhar para ele só do ponto de vista do risco”, disse.
Ainda assim, Lagartixo recusou uma leitura excessivamente confortável sobre o impacto da tecnologia. “Temos de ser realistas. Há muitos empregos que vão deixar de existir”, afirmou. O gestor da Deloitte sublinhou que a requalificação de trabalhadores será inevitável, sobretudo nas funções com tarefas menos diferenciadas, mas procurou distinguir entre destruição de emprego e transformação do trabalho. “A tecnologia não substitui pessoas. A tecnologia substitui tarefas, que é uma coisa diferente. As pessoas vão continuar a ser necessárias”, disse.
A questão, para o líder da Deloitte, é saber se haverá trabalho suficiente com valor acrescentado para preservar o equilíbrio social. “A grande preocupação que nós temos neste momento é perceber se vai haver quantidade de trabalho, quantidade de empregos suficiente com o valor necessário para mantermos uma sociedade equilibrada”, afirmou. Lagartixo foi claro sobre os trabalhos mais rotineiros e de menor valor acrescentado: “Não vão continuar a existir como existem hoje”.
A tecnologia não substitui pessoas. A tecnologia substitui tarefas, que é uma coisa diferente.
A transformação tecnológica nas empresas portuguesas continua, contudo, muito desigual. Segundo António Lagartixo, as grandes empresas já investem há algum tempo, mas as PME enfrentam limitações financeiras, falta de competências, menor massa crítica e menor acesso ao conhecimento. “Isto é muito assimétrico”, afirmou. E mesmo nas grandes empresas, avisou, o investimento ainda está demasiado concentrado na eficiência operacional: “Há muito investimento e pouca transformação para já.”
Paulo Macedo apontou a formação como uma das principais respostas para atrair e reter talento. A Caixa investe mais de três milhões de euros por ano em formação em Portugal e trabalha com instituições como a Universidade do Minho, o ISEG, a Católica e a Nova. “Uma das coisas que atrai as pessoas novas é se vão continuar a aprender”, afirmou. O banco já financiou mais de 100 MBAs em cinco anos e, segundo o gestor, esse esforço ajuda a criar “oportunidade de crescimento” e integração em equipas com desafios novos.
Miguel Maya, por seu lado, disse que o BCP procura pessoas com valores, capacidade de concretização e paixão por fazer bem. “Não basta ter o talento”, afirmou. “Uma pessoa que tem um imenso talento, mas que a seguir a aplicação do talento é 10%, o resultado é baixíssimo”. Para o gestor, a inquietude das novas gerações obriga as empresas a conquistar as pessoas todos os dias, porque “nada está garantido” e os trabalhadores não têm obrigação de ficar se não encontrarem espaço para se realizarem.
No fecho deste bloco, Lagartixo deixou um alerta direto para o próprio setor da consultoria. Ao contrário da banca, onde estima que 75% das atuais fontes de receita possam continuar a existir nos próximos cinco ou seis anos, ainda que entregues de forma diferente, o líder da Deloitte disse que, no seu setor, “talvez 25%” das receitas atuais subsistam e “75% não vão existir”. A razão está na natureza do trabalho vendido pelas consultoras: “Tudo aquilo que é realização de tarefas essencialmente baseadas na capacidade humana, na inteligência humana, no conhecimento, é aquilo que é mais facilmente replicável por máquinas hoje em dia e por modelos.” A conclusão foi sem rodeios: “É um modelo completamente diferente daquele que temos hoje. Completamente diferente. Portanto, a preocupação é grande” e o desafio está na reinvenção.
Veja, na íntegra, este debate:
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