Lisbon by Design. “Percebi que Portugal tinha uma tradição e um savoir-faire incríveis”
A 6.ª edição do Lisbon by Design é a maior organizada por Julie Halleux, fundadora da Lisbon by Design. "Queremos que cada artista possa apresentar o seu trabalho de uma forma especial".
O Lisbon by Design abre as portas na próxima semana, mais uma vez no Palácio Gomes Freire. Duplicam o número de designers representados e, este ano, à sexta edição, duplicam também o espaço que ocupam neste histórico edifício lisboeta. Começa no dia 26, para convidados, e termina no dia 31.
Julie de Halleux é o rosto, mãos e cérebro da Lisbon by Design, uma plataforma que reúne designers e artesãos que, assim, podem encontrar público, profissionais, colecionadores e oportunidades”. Este ano, conta a fundadora, a principal novidade para os visitantes é a escala. “Esta edição será muito maior do que as anteriores. Vamos praticamente duplicar o número de participantes. Passamos de cerca de 25 artistas e designers para mais de 50. Isso só é possível porque este ano conseguimos ocupar mais espaço no Palácio Gomes Freire, onde o evento já acontecia”, explica ao ECO Avenida.

O espaço fica na própria Rua Gomes Freire e até agora era utilizada apenas uma parte do palácio. “Este ano vamos ter acesso a mais um piso, ao jardim, que já abrimos no ano passado, a um pátio grande nas traseiras e ainda a uma pequena construção no exterior, que nos permite mostrar mais artistas”. Trata-se de um anexo de 50 metros quadrados no jardim do palacete que vai albergar uma exposição coletiva de mais de dez designers, cada um com uma a três peças colecionáveis, num espaço dedicado a criadores emergentes e a coleções em desenvolvimento, o que, segundo Julie de Halleux, “permite criar uma atmosfera e uma relação diferente com as peças”. E defende: “O Lisbon by Design não é apenas uma feira onde se colocam objetos lado a lado. Queremos que cada artista possa apresentar o seu trabalho de uma forma especial”.
"O Lisbon by Design não é apenas uma feira onde se colocam objetos lado a lado. Queremos que cada artista possa apresentar o seu trabalho de uma forma especial.”
“Não há muitos lugares em Portugal capazes de trazer três mil pessoas em seis dias para ver design e artesanato contemporâneo. Na abertura temos cerca de 900 pessoas, e é um público muito selecionado: colecionadores, profissionais da hotelaria, arquitetos, designers de interiores, estrangeiros e colecionadores”., explica Julie de Halleux. Parte desse público chega através da ARCO Lisboa, uma ligação que a organização tem procurado fortalecer. “Fazemos sempre uma ligação com a ARCO, porque o público da arte gosta também de design. O nosso preview acontece antes da abertura da ARCO, precisamente para captar esse público. Essa relação é muito importante”, diz.
“O formato mantém-se: teremos solo shows, colaborações entre artistas e designers, pequenas apresentações de grupo e uma curadoria própria do Lisbon by Design”, diz Julie de Halleux. Pela primeira vez também, duas salas estarão reservadas a mostrar o trabalho de cerca de dez artistas que não tinham necessariamente tempo ou meios para preparar uma grande exposição, “mas que tinham uma, duas ou três peças fortes para apresentar”.

Quanto aos artistas presentes, “há sempre um equilíbrio entre nomes já reconhecidos em Portugal e novos talentos”, diz. Por exemplo, Toni Grilo, “que estará presente em dois espaços diferentes, um deles ligado à marca que está a criar e outro a um projeto para um cliente”. Entre os novos participantes estão Igor Louis de Kerchove, Thilburg, Joana Teixeira, Eduardo Orúe Barceló, POÉMIA, LOBO Atelier, Sam Einstein, Camille Hug, Filipe Condado, Olga Ermol e Bibelo. A marca Kukas apresenta uma coleção especial de tributo à fundadora, recentemente falecida, enquanto o Atelier Daciano da Costa revela uma nova reedição ligada ao legado de Daciano da Costa.
Outras presenças confirmadas: a Oficina Marques, Rosana Sousa, Fuschini, entre outros, no que se espera que seja uma mistura entre jovens designers e os mais experientes, portugueses e internacionais, alguns a viver em Portugal, como o ceramista francês Alain Louis, a trabalhar perto de Santarém, que prepara “há dez meses a sua coleção”. “Vai apresentar uma coleção muito forte, uma estreia mundial. Pelo que já vi em fotografias, podia ser apresentada em Nova Iorque ou em Paris. Terá também uma cenografia especial e uma performance de piano”, conta.
"Queremos ser uma plataforma local, mas também internacional, capaz de pôr estes artistas, artesãos e designers em contacto com profissionais, colecionadores e imprensa estrangeira.”
“O nosso objetivo é mostrar tudo o que está a acontecer no design e no artesanato contemporâneo em Portugal”, diz Julie de Halleux. “Queremos ser uma plataforma local, mas também internacional, capaz de pôr estes artistas, artesãos e designers em contacto com profissionais, colecionadores e imprensa estrangeira”.
A seleção dos participantes resulta de “candidaturas espontâneas”, mas também de um trabalho contínuo de pesquisa. “Muitos artistas enviam o portefólio e fazemos uma seleção, mas também estamos durante o ano inteiro a pesquisar, a visitar estúdios, a acompanhar artistas e a perceber a evolução do trabalho deles”, explica. “A ideia é sempre garantir um nível de qualidade muito alto. Há artistas que não são selecionados à primeira. Às vezes, a primeira coleção ainda não está suficientemente madura, mas a segunda já está. Conhecemos muitos dos artistas que trabalham cá, acompanhamos a evolução e pedimos sempre uma apresentação do que querem mostrar”, garante a designer de interiores ao ECO Avenida.
A outra preocupação está nos materiais. “Procuro sempre um equilíbrio entre vários níveis: cerâmica, têxtil, madeira, mármore, pedra, iluminação. Todos os anos, o Lisbon by Design deve ser uma reflexão diferente sobre o que está a acontecer no design e no artesanato em Portugal. Mas essa reflexão tem de ter equilíbrio de materiais, de estilos, de linguagens e de gerações”, afirma a fundadora do Lisbon by Design.
Julie de Halleux, francesa, vinha do design de interiores. “Trabalhei em vários projetos imobiliários e foi também por isso que vim para Portugal. Vi a beleza de Lisboa, a luz, o charme da cidade e o potencial que existia aqui”, conta. Foi há dez anos, quando “muitas partes da cidade estavam em mau estado”. “Ao mesmo tempo, era evidente que a cidade tinha um potencial imenso. Eu adoro Itália, viajo muito, e encontrei em Portugal um charme muito particular”, diz.
A mudança para Lisboa com a família trouxe o encontro com artesãos, ceramistas e designers. “Percebi que Portugal tinha uma tradição e um savoir-faire incríveis, mas que isso não estava suficientemente mostrado ao público”, diz. “E o curioso é que, no início, eram muitas vezes os próprios portugueses que não percebiam. Algumas amigas portuguesas diziam-me: ‘Julie, porque é que vais fazer uma exposição de artesãos portugueses? Não temos nada'”.
“Para mim, o verdadeiro luxo é isso: o artesanato, o feito à mão e a ligação às pessoas. O luxo não é apenas o preço. É o tempo que alguém passa a fazer uma peça, a alma da pessoa, a tradição que está ali, a ética do processo. Tudo isso dá valor a uma peça”, considera.
Mas, segundo Julie de Halleux, tem. “Tem muita tradição, muita variedade, muito saber fazer. O que faltava era uma visão diferente. Faltava curadoria, seleção, cenografia, acompanhamento. Não se pode colocar tudo junto sem critério. É preciso valorizar, empurrar, ajudar os projetos a crescer”. E continua: “Acho que muitos designers, nessa altura, também não tinham confiança. Não acreditavam que o trabalho deles pudesse ter esse reconhecimento. Hoje é diferente. Com esta plataforma, sabem que podem encontrar público, profissionais, colecionadores e oportunidades”.
Essa é outra mudança que os anos trouxeram ao Lisbon by Design: “É muito importante enquanto plataforma profissional. Vêm arquitetos, decoradores, designers de interiores, colecionadores, pessoas ligadas à hotelaria, ao desenvolvimento de restaurantes e hotéis, lojas de museus e compradores”. Alguns artistas que há três anos não eram conhecidos, hoje estão em Milão ou Los Angeles, na feira de design ou em galerias.
A Lisbon by Design abre ao público de quarta a sexta-feira, entre as 17h00 e as 21h00, e no sábado e domingo, entre as 10h00 e as 18h00. Entrada: 12,50 euros.
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