Luís Oliveira: “Defesa e Proteção não são um território fechado”

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  • 20 Maio 2026

No dia 21 de Maio, a edição 2026 do IMPULSE chega ao Fórum Braga, onde vai reunir vários especialistas do setor da defesa. Luís Oliveira, CEO da Fibrenamics, partilha alguns dos objetivos do evento.

O IMPULSE 2026 acontece já no dia 21 de maio, no Fórum Braga, e volta a colocar o tema da Defesa e Proteção no centro da discussão sobre inovação, tecnologia e desenvolvimento industrial. Nesta edição do evento, promovido pela Fibrenamics, vão estar reunidas diferentes entidades ligadas ao setor para debater desafios, oportunidades e o papel da inovação no desenvolvimento de soluções com aplicação civil e militar.

O tema surge numa altura em que a área da defesa assume uma relevância crescente no contexto internacional e acompanha a aposta estratégica da própria Fibrenamics, que vai além do evento e que já está a ganhar expressão através de diferentes iniciativas ligadas à investigação, desenvolvimento tecnológico e colaboração entre empresas, universidades e entidades institucionais.

Entre essas iniciativas está a criação do Fibrenamics Innovation Hub – Defense & Protection, no AvePark, em Guimarães, pensado como uma plataforma de inovação colaborativa para aproximar investigação, indústria e utilizadores finais. A formalização do contrato de comodato com a Câmara Municipal de Guimarães veio reforçar a dimensão institucional do projeto e consolidar a criação de condições para o desenvolvimento tecnológico nesta área.

A estratégia da Fibrenamics passa também pela identificação de oportunidades de inovação e internacionalização no setor da Defesa e Proteção, através do desenvolvimento de soluções tecnológicas com potencial de aplicação em diferentes contextos. Neste contexto, o IMPULSE 2026 ganha importância pela partilha de conhecimento e pela possibilidade de ser uma ponte entre diferentes agentes.

Ao ECO, Luís Oliveira, CEO da Fibrenamics, partilha os principais objetivos desta edição do evento, o posicionamento da instituição e o papel que o setor empresarial em Portugal e na Europa pode assumir neste setor em transformação.

Luís Oliveira, CEO da Fibrenamics
O IMPULSE 2026 propõe uma leitura estruturada do setor da Defesa e Proteção. Que desafios e transformações tornam hoje esta discussão particularmente relevante para empresas e organizações?

O setor da Defesa e Proteção deixou de ser um tema distante para muitas empresas. Hoje é uma oportunidade concreta de desenvolvimento industrial, tecnológico e económico. O desafio já não é apenas compreender o setor; é perceber como é que as empresas portuguesas podem entrar nele, com que produtos, com que parceiros e com que proposta de valor.

O IMPULSE 2026 nasce precisamente com essa ambição: transformar reflexão em ação. Portugal tem competências industriais e científicas muito relevantes – nos materiais avançados, têxteis técnicos, compósitos, sensores, energia, digitalização, mobilidade e sustentabilidade – mas precisamos de as organizar melhor em torno de necessidades concretas.

O que queremos promover é uma dinâmica de execução. Identificar desafios reais, aproximar empresas de conhecimento aplicado, acelerar protótipos, validar soluções e criar produto com valor acrescentado. A Defesa e Proteção exigem pensamento estratégico, naturalmente, mas exigem sobretudo capacidade de fazer. É essa passagem do “pensar” para o “fazer” que queremos estimular.

De que forma é que a evolução do contexto geopolítico internacional está a influenciar o modo como as empresas olham para o setor da Defesa?

O contexto geopolítico veio tornar evidente que a segurança, a proteção e a autonomia tecnológica são dimensões críticas da competitividade dos países. A guerra na Europa, a instabilidade internacional, a pressão sobre cadeias de abastecimento, as ameaças híbridas, os drones, a cibersegurança e a proteção de infraestruturas críticas mudaram a forma como empresas e governos olham para este setor e de como os conflitos se desenvolvem.

As empresas começam a perceber que a Defesa não é apenas um mercado institucional ou militar. É um ecossistema tecnológico, industrial e económico, muito transversal, onde existe espaço para quem consegue desenvolver soluções robustas, fiáveis, certificáveis e com aplicação concreta.

Este novo contexto obriga as empresas a agir mais cedo e a gerir risco calculado. Quem esperar que o mercado esteja completamente definido pode chegar tarde. O momento é agora: mapear competências, encontrar parceiros, testar soluções e posicionar-se em cadeias de valor nacionais e europeias. A geopolítica acelerou a urgência, mas a resposta tem de ser industrial e tecnológica.

O evento pretende também identificar oportunidades para empresas e parceiros. Mas quais as oportunidades concretas que podem surgir hoje para o tecido empresarial português neste ecossistema?

As oportunidades são muito concretas e vão muito além da visão tradicional da Defesa. Falamos de proteção individual, equipamentos para forças de segurança e proteção civil, materiais balísticos, soluções de camuflagem, proteção térmica, proteção química e biológica, compósitos leves, veículos e estruturas avançadas, sensores, monitorização, comunicações, energia autónoma, sistemas não tripulados, proteção de infraestruturas críticas e tecnologias digitais.

Portugal já tem empresas com competências relevantes nestas áreas. Temos exemplos em têxteis técnicos, revestimentos, materiais compósitos, vestuário técnico, polímeros, metalomecânica, eletrónica e engenharia de produto. Empresas como a Endutex, a TMG, a Latino, a BeyondComposite, a Tekever e muitas outras mostram que existe base industrial e tecnológica. O que falta muitas vezes é transformar essa competência em produto orientado para requisitos específicos de Defesa, Proteção e Segurança.

A nossa proposta é criar uma plataforma nacional que ajude as empresas a passar da oportunidade à execução: identificar necessidades, desenhar soluções, desenvolver protótipos, testar, validar, certificar e preparar o caminho para o mercado. Queremos ser uma “one-stop-shop” para empresas que querem entrar neste ecossistema de forma estruturada e assertiva.

Fala-se cada vez mais das tecnologias dual use e de como poderão ser a solução para o posicionamento estratégico do país no setor da defesa. Em que consistem e por que se espera tanto delas?

As tecnologias dual use são tecnologias que podem servir simultaneamente mercados civis e aplicações de defesa, proteção ou segurança. Um material resistente ao impacto pode ser usado num veículo militar, num equipamento de proteção individual ou numa aplicação industrial. Um sensor pode monitorizar uma infraestrutura crítica, um equipamento de proteção civil ou uma plataforma de defesa. Um têxtil técnico pode servir um militar, um bombeiro, um trabalhador industrial ou uma equipa de emergência.

É por isso que estas tecnologias são tão importantes para Portugal. Permitem às empresas entrar no setor da Defesa sem abandonar os mercados onde já estão. Criam escala, reduzem risco e aumentam o retorno do investimento. Para muitas PME, o dual use, pode ser a porta de entrada mais inteligente neste ecossistema.

Mas o dual use não pode ficar no discurso, e forçosamente tem de ser traduzido de ideias em projetos, protótipos, ensaios, produtos e benefício económico. A nossa visão é muito prática: pegar em competências que já existem no tecido empresarial português e ajudá-las a evoluir para soluções com maior valor acrescentado. A oportunidade está em transformar capacidade instalada em capacidade estratégica.

Qual o papel que os centros de investigação, universidades e empresas tecnológicas podem ter no desenvolvimento de soluções ligadas à Defesa e Proteção?

Têm um papel absolutamente determinante, sobretudo se conseguirem trabalhar de forma integrada e orientada para resultados. O setor da Defesa e Proteção exige conhecimento avançado, mas exige também rapidez, capacidade de prototipagem, validação, industrialização e foco no benefício económico para as empresas. Não basta investigar; é preciso transformar conhecimento em soluções concretas, testáveis e com potencial de mercado.

É precisamente isso que estamos a consolidar a partir do ecossistema da Universidade do Minho. Através do Hub de Inovação e Defesa, e sob a liderança da Fibrenamics, estamos a mobilizar um conjunto de centros e estruturas de investigação e inovação com competências complementares, como o PIEP, o CCG/ZGDV, o CVR, o 2CA-Braga, o CoLab DTx, a B.ACIS e a TecMinho. Esta articulação permite-nos construir uma oferta muito mais abrangente, capaz de responder a desafios que vão dos materiais avançados aos polímeros, da digitalização à computação gráfica, da valorização de resíduos à saúde, da engenharia de produto à validação em contexto real, passando pela fundamental proteção da inovação e propriedade intelectual.

A grande vantagem desta abordagem é que conseguimos apresentar às empresas uma proposta integrada. Em vez de cada empresa ter de procurar isoladamente competências dispersas, queremos funcionar como uma porta de entrada organizada para o desenvolvimento de soluções em Defesa, Proteção, Segurança e também em aplicações civis. A empresa traz o desafio; o Hub ajuda a estruturar o caminho, mobilizando as competências certas para transformar esse desafio em produto.

Esta lógica é muito importante porque o setor exige respostas completas. Um novo equipamento de proteção, por exemplo, pode envolver materiais fibrosos, polímeros, sensores, ergonomia, sustentabilidade, validação clínica, digitalização e modelos de industrialização. Dificilmente uma única entidade responde a tudo sozinha. Mas, em rede, e coordenados, conseguimos acelerar o desenvolvimento, reduzir o risco para as empresas, e aumentar a probabilidade de chegar a soluções com valor acrescentado.

O papel dos centros de investigação, das universidades e das empresas tecnológicas é, por isso, passar da competência individual à capacidade coletiva. Queremos criar uma dinâmica em que o conhecimento existente no sistema científico e tecnológico nacional seja colocado ao serviço das empresas, do território e das necessidades estratégicas do país e da Europa num contexto mais alargado. No fundo, trata-se de juntar pensamento, tecnologia e execução para criar produto, propriedade intelectual e impacto económico.

No fórum vão estar reunidos empresas, centros de investigação, universidades e entidades institucionais. Que importância terá esta articulação entre diferentes áreas para acelerar inovação e criar novas oportunidades no setor da Defesa e Proteção?

Essa articulação é absolutamente crítica, porque a inovação em Defesa e Proteção não acontece de forma isolada. Para que uma solução chegue ao mercado, não basta haver uma boa ideia ou uma competência tecnológica diferenciadora. É preciso juntar quem conhece a necessidade operacional, quem domina a tecnologia, quem tem capacidade industrial, quem valida, quem certifica, quem financia e quem consegue abrir caminho para a adoção.

O IMPULSE pretende precisamente criar esse espaço de convergência. Queremos aproximar empresas, centros de investigação, universidades, entidades institucionais e potenciais utilizadores finais, para que a discussão não fique apenas no diagnóstico. O objetivo é gerar ação: identificar necessidades concretas, formar consórcios, lançar projetos-piloto, acelerar protótipos e criar soluções com potencial de industrialização e de entrada em cadeias de valor nacionais e europeias.

Neste contexto, o envolvimento das entidades locais é também determinante. A Câmara Municipal de Guimarães tem tido um papel muito importante ao disponibilizar, no Avepark, o espaço para a instalação da sede do Hub de Inovação e Defesa, com cerca de 8.000 m² de área disponível. Isto dá uma dimensão muito concreta ao projeto: não estamos apenas a falar de uma rede de intenções, mas de uma infraestrutura física, com capacidade para acolher empresas, projetos demonstradores, desenvolvimento tecnológico e dinâmicas de inovação colaborativa.

Esta articulação é particularmente importante para as empresas portuguesas, porque muitas já têm competências relevantes, mas precisam de contexto, orientação e parceiros para se posicionarem no setor da Defesa e Proteção. O papel do Hub será ajudar a estruturar esse caminho, funcionando como plataforma de ligação entre a procura, o conhecimento, a capacidade industrial e o território.

A nossa visão é muito pragmática: queremos passar da conversa à execução. Precisamos de pensamento estratégico, naturalmente, mas precisamos sobretudo de organizações capazes de fazer acontecer. O valor deste fórum está em colocar as pessoas certas na mesma sala, em torno de desafios reais, para acelerar projetos, reduzir risco e transformar competências nacionais em produtos, propriedade intelectual e impacto económico para Portugal.

Quais os principais insights que os participantes deste fórum podem esperar ter?

Os participantes podem esperar sair do IMPULSE com uma visão mais clara, mas sobretudo com uma vontade maior de agir. O primeiro insight será perceber que a Defesa e Proteção não são um território fechado, mas sim um ecossistema em transformação, com oportunidades para empresas industriais, tecnológicas e científicas de várias áreas. O segundo será perceber que Portugal já tem muitas das competências necessárias. O desafio não é começar do zero; é organizar, orientar e acelerar essas competências para responder a necessidades concretas.

O terceiro insight será compreender que existe uma plataforma preparada para apoiar esse caminho. O Hub de Inovação e Defesa que estamos a construir pretende ajudar as empresas a dar os passos certos: da identificação da oportunidade ao desenvolvimento de produto, da validação à certificação, da colaboração ao mercado.

O insight final mais importante é que esta ambição já tem uma base concreta de implementação. A sede do Hub no Avepark, em Guimarães, com cerca de 8.000 m² disponibilizados desde setembro de 2025 pela Câmara Municipal de Guimarães, mostra que estamos a passar da visão à execução. Existe uma infraestrutura, existe uma rede de competências e existe uma vontade clara de criar um espaço nacional onde empresas, centros de investigação e entidades institucionais possam desenvolver soluções de Defesa, Proteção, Segurança e aplicações civis com impacto económico real.

Queremos que os participantes saiam com uma mensagem muito objetiva: este é o momento de passar da intenção à ação. Portugal tem conhecimento, indústria e talento. Agora precisamos de transformar isso em produto, propriedade intelectual, exportação e valor económico para as nossas empresas e território nacional.

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