Ormuz: O que paralisa o tráfego é o medo, não são os seguros
Responsável pelos seguros marítimos garante que é o medo das tripulações a parar Ormuz e faz falta uma declaração de guerra. Entretanto, o Irão lançou seguro em bitcoins.
O mercado segurador marítimo continua operacional no Estreito de Ormuz, apesar da escalada militar entre os Estados Unidos, Israel e o Irão. O verdadeiro bloqueio à navegação não está na ausência de seguros, mas no receio das tripulações em atravessar uma das zonas mais perigosas do mundo. A conclusão é de Steve Ogullukian, diretor-adjunto global de subscrição e resseguro do American P&I Club, citado pelo jornal Insurance Business que rejeita a ideia de um colapso do mercado segurador internacional.
Desde o início dos ataques coordenados norte-americanos e israelitas contra o Irão, a 28 de fevereiro de 2026, multiplicaram-se relatos de que as seguradoras marítimas teriam retirado cobertura ao Estreito de Ormuz, contribuindo para a paralisação do tráfego numa rota por onde normalmente passa cerca de 20% do petróleo mundial. No entanto, Ogullukian garante que as seguradoras nunca abandonaram o mercado. “Nunca houve uma situação em que os seguradores dissessem que não cobriam navios no Golfo. Apenas passaram a cobrar muito mais”, afirmou.
O Estreito de Ormuz, por onde passa uma parte significativa do comércio mundial de petróleo e gás, tem registado uma forte redução do tráfego marítimo desde o agravamento do conflito regional a 28 de fevereiro. Dados divulgados pelo site Kpler indicam que apenas 55 navios atravessaram a rota na semana de 11 de maio, e nesse dia totalizavam cerca de 630 embarcações as que conseguiram sair do Golfo desde o início da crise.
O segurador afirma que, na prática, ocorreu uma reavaliação extrema do risco de guerra. Os seguros marítimos mantiveram-se disponíveis, mas os prémios dispararam para níveis comparáveis aos registados durante as guerras dos petroleiros nos anos 80. Segundo dados do mercado londrino, os custos de cobertura de guerra passaram de cerca de 0,1% do valor do navio antes do conflito para níveis entre 3% e 7,5%, podendo representar mais de três milhões de dólares por viagem para um petroleiro avaliado em 100 milhões.
Ainda assim, especialistas sublinham que o principal travão continua a ser humano e não financeiro. “Os capitães e armadores não querem colocar as tripulações em risco”, explica Ogullukian, acrescentando que o medo de ataques, minas ou apreensões tornou-se mais determinante do que o preço das apólices. Dados do Joint Maritime Information Centre mostram que, a 4 de maio, apenas cinco embarcações atravessaram o estreito, muito abaixo da média histórica de 138 navios por dia.
Falta declaração de guerra para ativar coberturas adequadas
A crise também está a gerar novas tensões jurídicas no setor segurador internacional. Advogados especializados alertam para a ambiguidade legal em torno da definição formal de “guerra”, uma vez que os Estados Unidos evitam classificar oficialmente o conflito dessa forma.
Esta distinção poderá tornar-se decisiva para ativar — ou excluir — coberturas de risco de guerra em milhares de contratos marítimos e comerciais, deixando operadores expostos a potenciais lacunas de proteção.
Irão lança seguro em bitcoin
Entretanto o Irão lançou uma plataforma de “seguro” marítimo digital, paga em bitcoin, para navios que atravessem o Estreito de Ormuz, numa altura em que o país continua a condicionar fortemente a circulação marítima numa das rotas energéticas mais importantes do mundo. A iniciativa, denominada “Hormuz Safe”, surge num contexto de forte tensão geopolítica e de quebra significativa no tráfego naval da região.
Segundo a agência iraniana Fars, próxima dos Guardas da Revolução, o novo mecanismo permite aos armadores e operadores obterem um certificado digital de seguro e responsabilidade financeira que comprova que o navio está “em conformidade” para atravessar o estreito. O pagamento é realizado exclusivamente em bitcoin, numa tentativa de contornar o sistema financeiro internacional Swift e as sanções económicas impostas ao Irão.
O governo iraniano espera arrecadar cerca de 10 mil milhões de dólares com o sistema Hormuz Safe, aproveitando a pressão sobre os operadores marítimos e a necessidade de garantir o fluxo comercial numa região estratégica. O site da plataforma está acessível apenas a partir do Irão, o que reforça as dúvidas sobre a transparência e enquadramento jurídico da operação.
Apesar da designação comercial, o produto lançado por Teerão está longe de corresponder a um seguro marítimo tradicional, classifica o jornal News Assurance Pro. As coberturas não incluem avarias ou danos típicos da navegação, concentrando-se antes em riscos geopolíticos locais, como inspeções, detenções ou apreensões de navios. Na prática, especialistas internacionais descrevem o mecanismo como uma espécie de “portagem política” associada à passagem pelo estreito.
Juristas e especialistas em direito marítimo internacional alertam, contudo, que a cobrança destes certificados poderá violar a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, que estabelece a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz. O caso levanta também novas preocupações para o mercado segurador e ressegurador internacional, já pressionado pelo aumento dos riscos políticos e de guerra associados ao transporte marítimo global.
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