Trabalhar nem sempre evita pobreza. Quase 9% dos empregados em Portugal são pobres

Especialistas alertam para "importantes desigualdades" no acesso ao mercado de trabalho. Fatia de agregados pobres com intensidade laboral baixa ou muito baixa é 7 vezes superior às demais famílias.

Trabalhar nem sempre é suficiente para evitar a situação de pobreza em Portugal. De acordo com a edição deste ano do relatório “Portugal, Balanço Social”, que será apresentado esta quarta-feira, cerca de 9% das pessoas empregadas eram pobres em 2025. Os especialistas alertam também para as desigualdades persistentes no acesso ao mercado de trabalho entre as famílias pobres e não pobres.

“Em 2025, o limiar de pobreza em Portugal era de 8.679 euros por ano ou 723 euros por mês. A taxa de risco de pobreza diminuiu, em 2025, para 15,4%, 1,2 pontos percentuais mais baixa do que em 2024. A pobreza era mais comum entre as pessoas desempregadas (42,6%), as famílias monoparentais (35,1%) e os indivíduos com níveis de escolaridade mais baixos (21,3%)”, lê-se na análise da autoria de Bruno P. Carvalho, Francisco Tavares, João Fanha, Miguel Fonseca e Susana Peralta.

Apesar de ser mais comum entre quem não tem trabalho, a pobreza também existe entre quem tem um emprego. Em 2025, 8,6% das pessoas que estavam a trabalhar encontravam-se em risco de pobreza, indica o estudo “Portugal, Balanço Social”.

Por outro lado, quanto à situação do mercado de trabalho em Portugal, os autores realçam que, desde 2020, a taxa de desemprego “tem-se mantido relativamente estável”. No entanto, alertam que “subsistem desigualdades importantes”.

Em concreto, em 2024, a proporção de agregados pobres com intensidade laboral baixa ou muito baixa — indicador que mede a quantidade de trabalho que os adultos de um agregado familiar realizam em comparação com o seu potencial — era sete vezes superior à registada na população não pobre.

“Por outro lado, a desigualdade salarial entre géneros aumentou ligeiramente para todos os níveis de educação. Em 2024, por cada euro ganho por um homem, uma mulher ganhava entre 57 e 72 cêntimos, com diferenças de 8 cêntimos por euro nos três níveis educacionais”, aponta este novo estudo.

No que diz respeito ao rendimento disponível, os autores assinalam também que houve um aumento de uma média de 9.856 euros em 2014 para 14.951 euros em 2024, a preços correntes, o que corresponde a uma subida percentual de 51,7%. Tal traduziu-se, contudo, num aumento do poder de compra de apenas 25,2%, depois de ajustado para a inflação (a preços constantes de 2014).

“Os ganhos de poder de compra foram diferenciados ao longo da distribuição de rendimento. Embora em termos absolutos (em euros) o aumento tenha sido maior entre os mais ricos, em termos percentuais foi mais elevado entre os mais pobres“, acrescentam os especialistas.

Importa destacar também, a propósito, os dados da desigualdade em Portugal, sendo que, entre 2024 e 2025, se observou uma diminuição em quase todos os indicadores, com o coeficiente de Gini a diminuir um ponto percentual, para 30,9.

“Ainda assim, os 10% mais ricos detinham, em 2025, quase oito vezes mais rendimento disponível do que os 10% mais pobres. Em 2024, os 25% mais ricos detinham cerca de 46,5% do rendimento do país, o que compara com 10,5% do rendimento dos 25% mais pobres. Logo, em média, uma pessoa do quartil um vive com aproximadamente um quarto do rendimento de uma pessoa no quartil quatro da distribuição“, é ressalvado no “Portugal, Balanço Social”.

Simultaneamente, o estudo mostra que há diferenças significativas entre as várias regiões do país. De acordo com estes dados, a taxa de pobreza foi mais elevada no Alentejo (17,9%), seguida pelos Açores (17,3%). A região com a menor prevalência de pobreza foi a Grande Lisboa (12,2%).

"A população com mais de 65 anos teve uma taxa de risco de pobreza de 21,2% em 2024, um valor muito acima da média nacional (16,6%).”

Já no que diz respeito às diferenças entre as faixas etárias, os autores sublinham que as crianças são um dos grupos da população mais vulnerável a situações de pobreza e exclusão social. Ainda assim, a taxa de risco de pobreza entre as crianças diminuiu entre 2023 e 2024 (de 20,6% para 17,8%), pelo que ainda havia nesse ano mais de 301 mil menores pobres em Portugal.

Por sua vez, a população com mais de 65 anos teve uma taxa de risco de pobreza de 21,2% em 2024, um valor muito acima da média nacional (16,6%), o que corresponde a 541 mil pessoas em situação de pobreza.

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