Britânica Basalt contrata banco Jefferies para corrida à compra da Indaqua

Candidatos à aquisição da empresa de águas têm estado a contactar assessores para a próxima fase do processo, a das propostas vinculativas. Tudo indica que jogo far-se-á a quatro, após APG ficar fora.

A sociedade de private equity britânica Basalt Infrastructure Partners, que foi selecionada para a próxima fase do processo de compra da Indaqua, contratou o banco Jefferies para a assessoria financeira. Os candidatos à aquisição da empresa de águas – uma corrida que reuniu cerca de 14 interessados – têm estado a contactar assessores para avançar para a próxima fase, a apresentação de propostas vinculativas, sabe o ECO.

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O fundo Igneo Infrastructure Partners, proprietário da Via do Infante e da Autoestradas do Douro Litoral, deverá contar novamente com a sociedade de advogados Vieira de Almeida (VdA) e a consultora KPMG, que o acompanharam neste último negócio com a concessionária que gere as autoestradas A43, A41 e A3.

O fundo francês Antin Infrastructure Partners, que detém o grupo português de gestão e tratamento de águas, tinha dado a indicação de que iria convidar no máximo três interessados a apresentarem propostas vinculativas de compra, mas acabou por alargar a shortlist. Nos últimos dias, especulou-se sobre se o consórcio que une a APG – Algemene Pensioen Groep à holding Interogo (Ikea) se mantinha em jogo, mas esta terça-feira ficou confirmado que estaria fora.

Os donos da empresa liderada por Pedro Perdigão, que vale cerca de 1,3 mil milhões de euros (enterprise value), esperam receber propostas vinculativas até ao final de junho.

Segundo as agências Mergermarket e Bloomberg, também a filipina Manila Water vai avançar com a apresentação de uma proposta vinculativa de aquisição, sendo que divide ainda a shortlist com a gestora de fundos de pensões canadiana BCI – British Columbia Investment Management Corporation. Contactadas pelo ECO, só a BCI respondeu formalmente que não iria fazer comentários.

Os milhões de Espanha (e da água)

Prestes a completar 32 anos, o grupo de Matosinhos tem trocado de acionistas ao longo dos anos, embora em 2023 o interesse do fundo Equinix, e consequentes negociações exclusivas, não se tenham materializado numa venda. Três anos mais tarde, o fundo francês Antin Infrastructure Partners volta a tentar vender a empresa e contratou os bancos Société Générale e Citi como assessores financeiros, como avançou o Jornal Económico.

Caso a operação agora em curso se concretize, será a quarta vez que a Indaqua é transacionada em menos de uma década. A maior operadora privada de concessões municipais de água a nível nacional chegou a ser detida pelo grupo Mota-Engil, que, em 2016, vendeu a sua posição à israelo-americana Myia Water por 60 milhões de euros. A partir de 2019, a Myia deixou de estar sob a alçada do grupo de investimentos Arison e passou a ser controlada pelo fundo de private equity Bridgepoint, até ser adquirida pelo fundo gaulês Antin, em setembro de 2020, por aproximadamente 600 milhões de euros.

Indissociáveis deste apetite pela empresa estão as contas no verde. Só em 2024 os lucros da Indaqua – Indústria e Gestão de Águas S.A. dispararam 45,8% para 27,77 milhões de euros, em comparação com o ano anterior, enquanto o volume de negócios aumentou 20,5% para 11,83 milhões de euros, de acordo com os dados financeiros consultados pelo ECO. No conjunto do grupo, a faturação ultrapassa a centena de milhões de euros.

A advogada Ana Luísa Guimarães, que tem assessorado concessões e projetos em setores regulados e apoiou juridicamente a Antin na compra da Myia à Bridgepoint, considera que se este negócio for bem-sucedido “será uma confirmação do valor e dinamismo do setor privado da água em Portugal”. “É uma empresa muito grande que tem estado muito exposta no mercado de M&A, incrementando sempre o seu valor e acredito que esta nova operação, sendo bem-sucedida, possa pilotar outras logo de seguida”, começa por dizer a sócia de Direito Público na GAP – Gómez-Acebo & Pombo.

“Tem dado evidências de crescimento claras (expansão para Espanha, com alargamento claro da base de negócio) e, simultaneamente, tem conseguido alargar-se no mercado português, seja através de operações de M&A, comprando novas concessões, seja prolongando as concessões existentes”, destaca.

Foi em pleno Dia de São Valentim que a Indaqua anunciou a renovação dos ‘votos de casamento’ com a vizinha Espanha ao comprar mais uma empresa de águas: a Hidrogestión à Cobra IS, filial do grupo Vinci, que foi adquirida apenas dois anos após a entrada no abastecimento de água espanhol com a compra da Fusosa. Em Espanha, a Indaqua é responsável por 12 concessões de abastecimento de água e recolha e tratamento de águas residuais nas regiões de Toledo, Rioja, León, Jaén, Granada e Maiorca, servindo perto de 80 mil pessoas.

Paralelamente, alargou em abril o contrato com a AENA – Aeropuertos Españoles y Navegación Aérea, por 31 milhões de euros para mais três anos, passando a fazer a gestão e manutenção dos sistemas de água de 19 aeroportos em Espanha, de Barcelona a Malága, atravessando Valência, Sevilha e Menorca.

Em África, a operação é essencialmente nas áreas de engenharia e assessoria técnica, mas ainda este ano obteve dois novos contratos em Angola, com as Empresas Públicas de Águas e Saneamento (EPAS) das províncias do Namibe e Lunda Norte, no valor de dez milhões de euros.

Em Portugal, a Indaqua gere as redes públicas de água e saneamento nos concelhos de Santo Tirso/Trofa, Santa Maria da Feira, Matosinhos, Vila do Conde, Oliveira de Azeméis, Barcelos, Paços de Ferreira e Marco de Canaveses. No total, serve mais de 810 mil pessoas em Portugal e emprega cerca de 900 trabalhadores. Por sua vez, através das subsidiárias Aqualevel e Hidurbe, presta serviços de apoio, manutenção e monitorização de infraestruturas.

No ano passado, obteve um financiamento de 358 milhões de euros pela Schroders Capital e pelo Santander para fortalecer a estrutura de capital e posicionar a empresa para uma nova fase de crescimento.

“Em cima disso, beneficia da atual valorização da água, económica e politicamente, o que incrementa diretamente o valor no mercado dos ativos do setor”, argumenta a advogada Ana Luísa Guimarães, realçando que essa apreciação não é só ambiental como financeira e de segurança”. A co-coordenadora académica da pós-graduação em Direito da Água no Instituto de Ciências Jurídico-Políticas afirma que a referida valorização da água enquanto ativo tem-se refletido num maior dinamismo no mercado transacional e numa mudança na forma como este recurso natural é encarado.

“Já não é apenas recurso natural, mas também, cada vez mais, recurso económico e pilar de segurança. Estas três componentes concorrem para grande valorização dos ativos infraestruturais, aposta tecnológica e ao nível de intelligence no setor. Por sua vez, gera potencial de crescimento e de rentabilidade nas empresas do setor, com novas áreas de negócio a gravitar (em especial associadas ao nexus água-energia) à volta da área core do serviço público”, assinala a sócia da GAP.

De facto, a água tem ganho valor político. Há menos de um mês, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, anunciou a criação de uma nova estrutura autónoma que irá coordenar e gerir a água em todo o país: a empresa Aqua SA, liderada por José Macário Correia e destinada a gerir e executar os projetos da estratégia “Água que Une, que já tem 1.500 milhões de euros a serem executados.

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