Consumo de gasóleo e GPL trava a fundo em abril com subida de preços

Dados da ERSE mostram quebra de 17,4% no gasóleo e de 36% no GPL em abril, face ao mês anterior. Revendedores frisam que redução no gasóleo é sinal negativo para a economia.

Numa altura em que a guerra no Irão mantém elevados os preços dos combustíveis, o consumo de gasóleo e de gás natural liquefeito em abril retraiu-se face ao mesmo mês do ano passado e também em relação a março, apontam os dados disponibilizados pelo regulador da energia. CP e Metropolitano de Lisboa não registam alteração relevante no número de passageiros.

De acordo com os dados disponibilizados pela ERSE, com base no Balcão Único da Energia, todos os combustíveis – gasolina, gasóleo e GPL – apresentaram quebras de consumo face a março, um mês em que o consumo havia crescido. A queda mais pronunciada verifica-se no gás de petróleo liquefeito (GPL), que afundou 36%, seguindo-se o gasóleo, que mais caiu 17,42%. Na gasolina, o consumo reduziu-se em quase 7%.

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numa comparação com o mesmo mês do ano anterior, nota-se um aumento do consumo da gasolina, embora se mantenham quebras no gasóleo e GPL, de quase 5% e de 15,79%, respetivamente. Olhando ao mês que antecedeu o conflito no Irão, fevereiro, apenas o GPL contabiliza uma quebra, de quase 22%.

Estas conclusões têm por base os dados das introduções ao consumo, que medem a colocação de produto no mercado, não o consumo final imediato, explica o regulador. A Epcol considera este “um bom indicador aproximado do consumo efetivo”, explicando que estes valores podem divergir do consumo real por duas razões principais: a variação de stocks e o número de dias úteis por mês.

“Há sinais claros de pressão no gasóleo e no GPL, e isso merece atenção”, defende João Freitas, vice-presidente da Associação Nacional de Revendedores de Combustíveis (ANAREC). Olhando às diferentes evoluções verificadas por tipo de combustível, “O dado que mais nos preocupa é o do gasóleo”, afirma.

Quando o gasóleo abranda, normalmente isso diz-nos mais sobre a economia real do que uma simples variação de consumo particular.

João Freitas

Vice-presidente da ANAREC

Face à queda “muito acentuada” face a março, o dirigente da ANAREC alerta que “o gasóleo é, por natureza, o combustível mais ligado à atividade económica”, e portanto, “quando o gasóleo abranda, normalmente isso diz-nos mais sobre a economia real do que uma simples variação de consumo particular”. Isto porque é um combustível ligado ao transporte de mercadorias, empresas, distribuição, maquinaria, agricultura, pequena indústria e mobilidade profissional.

O responsável considera que os dados do consumo do mês de abril mostram que o consumidor está mais atento e mais sensível ao preço e que as empresas parecem estar a ajustar consumos, sobretudo no gasóleo.

Em oposição, o porta-voz da Epcol — Empresas Portuguesas de Combustíveis e Lubrificantes, João Reis, destaca que, considerando todos os combustíveis — gasolina, gasóleo, jet e GPL — se verifica uma quebra de apenas 2% em abril, face ao mesmo mês do ano anterior, e que no acumulado do ano nota uma subida de 3% no consumo. Assim, no seu entender, “o aumento do preço dos combustíveis não provocou abrandamento da atividade económica, nem dos hábitos normais dos consumidores, que também não manifestam preocupação perante um eventual cenário de escassez“.

A evolução do conjunto destes combustíveis em abril, face a março, mostra uma quebra de 12,7%. Nos meses de abril dos últimos dois anos, de 2025 e 2024, notou-se a tendência inversa: uma subida nas toneladas de combustíveis introduzidos no mercado face a março. É preciso recuar a 2023 para encontrar uma quebra.

Em paralelo, “é importante referir que março foi um mês atípico. Houve alguma antecipação de consumos, algum efeito de reposição e alguma reação dos consumidores e empresas ao contexto de subida de preços e incerteza”, sublinha João Freitas. A somar, em determinados períodos, os preços em Espanha estiveram menos competitivos, o que pode ter ajudado pontualmente os postos portugueses, sobretudo em zonas de fronteira, assinala.

No terceiro mês deste ano, o consumo mensal da gasolina subiu 23,33%, face a março de 2025, e no caso do gasóleo a subida foi de quase 16%.

Já no final de março, Espanha aplicou descontos fiscais nos combustíveis, pelo que pode ter recuperado o consumo. A situação dos postos junto à fronteira preocupa a ANAREC “de sobremaneira”, já que quando Espanha se torna mais competitiva “essas zonas sofrem quebras muito superiores à média nacional”.

Em relação à gasolina, João Freitas assume que o consumo particular possa manter-se resiliente impulsionado pela venda de veículos híbridos, apesar de a quebra face a março sinalizar “sensibilidade ao preço e ao momento económico”.

No caso do GPL, o consumo final é muito distinto. É usado para consumo doméstico, restauração, pequenas empresas, indústria, aquecimento, garrafas e também GPL auto. Assim, a evolução mensal pode ser influenciada por sazonalidade, temperatura, reposição de stocks e antecipação de compras, mas “a descida homóloga face a abril de 2025 não deve ser desvalorizada”, afirma. Isto porque pode tanto traduzir menor consumo efetivo, maior contenção por parte de famílias e empresas, ou alguma substituição por outras soluções energéticas quando isso é possível”.

Tudo pesado, “para os revendedores, esta instabilidade é particularmente difícil, porque os custos operacionais continuam elevados — pessoal, energia, financiamento, manutenção, rendas, seguros — enquanto o volume vendido pode oscilar muito de um mês para o outro”, conclui o dirigente da ANAREC.

Estas evoluções acontecem numa altura em que os preços dos combustíveis se mantêm em torno dos dois euros em Portugal. Abril terminou com o preço médio do gasóleo em Portugal 22,2% acima do preço médio que exibia antes da guerra, nos 1,955 euros por litro, e a gasolina 14,48% acima, nos 1,928 euros. Situação que se manteve semelhante em maio. A dia 19 deste mês, o gasóleo a marcava os 1,953 euros por litro e a gasolina ultrapassava-o, chegando aos 2,013 euros.

Preços não trazem mais passageiros à CP e ao Metro de Lisboa

Os preços elevados não estão, por ora, a levar a um crescimento da procura pelo transporte público, pelo menos na CP – Comboios de Portugal e no Metropolitano de Lisboa.

O aumento do número de passageiros na CP tem vindo a verificar-se de forma consistente nos últimos tempos. Quanto ao crescimento atual, não nos é possível inferir se o mesmo tem uma relação direta com o aumento do preço dos combustíveis“, respondeu a empresa ao ECO.

Os dados partilhados pelo Metropolitano de Lisboa mostram um crescimento homólogo de 1,74% no número de passageiros em março, para 15,13 milhões. Mas, em abril, segundo dados ainda provisórios, ocorreu uma redução de 1,7% face ao mesmo mês do ano passado, para 13,73 milhões. Somando os dois meses, a variação entre 2026 e 2025 é praticamente nula (0,7%).

Há um combustível que contraria a queda em abril, apesar da subida do preço. O consumo de jet fuel, usado na aviação, aumentou 4,6% em abril face ao mês anterior, e 3,9% em termos homólogos. O que é consistente com o aumento do tráfego de passageiros nos aeroportos portugueses de 4,4% em março e de 2,3% em abril, face aos mesmos meses de 2025.

 

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