Depois das críticas de Miranda Sarmento, CFP aponta falhas nas previsões das Finanças para 2025

Conselho das Finanças Públicas assinala desvio positivo do saldo, sublinhando que Ministério das Finanças subavaliou, em 2025, a receita de impostos e contribuições e a despesa corrente primária.

Nem há dois meses, a polémica instalou-se entre o ministro das Finanças e o Conselho das Finanças Públicas (CFP), quando Joaquim Miranda Sarmento acusou a instituição de “críticas políticas”. Pouco depois, Nazaré da Costa Cabral fez a defesa da honra, e agora os técnicos não só a reforçam como aproveitam para atirar ao Governo.

Numa análise sobre a “Evolução Orçamental das Administrações Públicas em 2025”, divulgada esta quinta-feira, o CFP identifica “desvios significativos” entre as previsões do Ministério das Finanças e a execução efetiva das contas públicas em 2025, tanto do lado da receita como da despesa.

Apesar de o Estado ter fechado o ano com um excedente orçamental de 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB), acima dos 0,3% previstos no Orçamento do Estado para 2025 (OE2025), no habitual relatório sobre as contas públicas do ano transato, a instituição liderada por Nazaré da Costa Cabral conclui que o resultado final ficou marcado por falhas de previsão, sobretudo na receita fiscal e contributiva e na despesa corrente primária.

Um cenário que serve de contraponto às declarações do ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, que questionou as projeções do CFP e do Banco de Portugal (durante o mandato de Mário Centeno), e do PSD e do CDS-PP terem chegado a querer chamar ao Parlamento Nazaré da Costa Cabral e o ex-governador do banco central para explicar os desvios face aos números finais. Intenção que foi chumbada.

Em meados de abril, a presidente do CFP já havia defendido que as projeções da instituição são “técnicas” e “sérias” e destacado que as projeções do próprio ministro das Finanças também foram sofrendo atualizações. No relatório publicado esta quinta-feira, a instituição detalha cada uma das componentes, primeiro face às projeções inscritas no OE2025, e depois no OE2026, ainda que relativamente ao ano passado.

Na comparação face ao previsto no OE2026, o CFP destaca que o saldo orçamental de 2025 “ficou significativamente acima do estimado” pelo Ministério das Finanças. O saldo superior em 1.111 milhões de euros acima do esperado resultou de um desvio positivo na receita de 1.926 milhões de euros, que mais do que compensou o de 815 milhões de euros registado na despesa, e que seria superior sem a reclassificação da CP para fora do perímetro das Administrações Públicas.

Fonte: Conselho das Finanças Públicas – Relatório “Evolução das Administrações Públicas em 2025”

“A diferença na receita pública deveu-se, fundamentalmente, ao desempenho da receita fiscal e contributiva, com resultados acima do estimado em 973 milhões de euros nas contribuições sociais e em 824 milhões de euros na receita de impostos, destacando-se nesta última o contributo do IVA”, detalha a instituição liderada por Nazaré da Costa Cabral.

No lado da despesa, o desvio foi “maioritariamente justificado pela despesa corrente primária que, excluindo o efeito dos empréstimos do PRR, excedeu em 1.228 milhões de euros o estimado” pelas Finanças, refletindo sobretudo uma maior execução da despesa com subsídios e consumo intermédio.

Em sentido inverso, aponta, a despesa pública financiada por empréstimos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) penalizou menos o saldo orçamental do que o estimado pelo Ministério das Finanças em outubro de 2025 (-538 milhões de euros), tendo os encargos com juros e as despesas one-offs sido inferiores em 307 milhões de euros e 238 milhões de euros, respetivamente.

A instituição dá ainda nota de que o rácio da dívida pública situou-se em 89,7%, 0,6 pontos percentuais (pp.) abaixo da estimativa de 2025 inscrita no OE2026 (90,2%). Um desvio que reflete “contributos favoráveis tanto do denominador como do numerador do rácio”, decorrentes de um PIB nominal superior ao antecipado e de uma dívida pública nominal inferior ao previsto.

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