Estagflação regressa à Zona Euro. Bruxelas prevê crescimento de 0,9% e inflação nos 3%
Comissão reviu em baixa o crescimento da Zona Euro e em alta da inflação, devido à guerra no Irão. E prevê que preços das matérias-primas vão manter-se cerca de 20% acima dos níveis pré-conflito.
O choque nos preços da energia provocado pela guerra no Irão está a levar a Zona Euro à estagflação. A perspetiva já tinha sido sinalizada por responsáveis europeus e foi esta quinta-feira confirmada nas previsões económicas da Comissão Europeia. No documento, Bruxelas revê em baixa o crescimento dos países do euro para apenas 0,9% este ano e em alta a taxa de inflação para 3%.
“Enquanto importadora líquida de energia, a economia da União Europeia é altamente vulnerável ao choque energético provocado pelo conflito no Médio Oriente — o segundo choque desta natureza em menos de cinco anos“, alerta o Executivo comunitário.
Nas previsões económicas de primavera, a Comissão Europeia destaca que as perspetivas para a economia da União Europeia (UE) e da Zona Euro alteraram-se substancialmente desde o início da guerra, esperando agora menos crescimento e mais inflação.
Comissão prevê crescimento de 0,9% este ano na Zona Euro e de 1,2% em 2027 e taxa de inflação de 3% este ano e de 2,3% em 2027.
Para os países do euro, Bruxelas cortou o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para 0,9% este ano e 1,2% em 2027, contra os 1,2% e 1,4% esperados, respetivamente, nas previsões de outono. Ao mesmo tempo, reviu em alta a taxa de inflação para 3% este ano e para 2,3% em 2027, face aos 1,9% e 2% previstos anteriormente.
O cenário mais pessimista estende-se também à média da União Europeia. Depois de atingir 1,5% em 2025, o Executivo comunitário prevê agora que a expansão abrande para 1,1% em 2026, uma revisão em baixa de 0,3 pontos percentuais face à projeção de outono, e suba ligeiramente para 1,4% em 2027.
Paralelamente, prevê que a inflação acelere para 3,1% este ano, um ponto percentual acima do anteriormente previsto, voltando a abrandar para 2,4% em 2027.
Enquanto importadora líquida de energia, a economia da União Europeia é altamente vulnerável ao choque energético provocado pelo conflito no Médio Oriente — o segundo choque desta natureza em menos de cinco anos.
Embora espere que ao pico em 2026 se siga uma redução da taxa à medida que se prevê uma queda gradual dos preços das matérias-primas energéticas, a Comissão estima que se manterão “cerca de 20% acima dos níveis pré-guerra”.
Ou seja, e nas palavras do comissário europeu para a Economia, Valdis Dombrovskis, “o conflito no Médio Oriente desencadeou um grande choque energético, colocando novos desafios à Europa num contexto geopolítico e comercial já de si volátil“. É neste sentido que Bruxelas assinala que a confiança dos consumidores caiu para o nível mais baixo dos últimos 40 meses, perante receios crescentes de subida da inflação e perda de empregos.
Ainda assim, espera que o consumo continue a ser o principal motor do crescimento económico, até porque, projeta, o investimento empresarial deverá também ser condicionado por condições de financiamento mais restritivas, menores lucros e maior incerteza, ao mesmo tempo que “a procura externa mais fraca está igualmente a pesar sobre o crescimento das exportações”.
A Comissão prevê ainda que a média dos défices orçamentais dos 21 países da moeda única deverá agravar-se este ano para 3,3% e 3,5% do PIB em 2027, enquanto o rácio da dívida pública deverá subir para 90,2% este ano, face aos 88,7% homólogos, e 91,2% no ano seguinte.
Para a Comissão, o principal risco das previsões está relacionado com a duração do conflito no Médio e as implicações para os mercados globais de energia. Por este motivo, apresenta um cenário alternativo que pressupõe interrupções mais prolongadas.

No cenário adverso, inflação da UE sobe para 3,3%
A Comissão Europeia estima que, num cenário adverso, o crescimento do PIB da União Europeia é praticamente reduzido para metade face ao cenário de base, enquanto a inflação acaba por ser significativamente mais elevada, sobretudo em 2027. Desta forma, a inflação não recua e a atividade económica não recupera no próximo ano, conforme projetado no cenário base.
O cenário alternativo assume que os preços das matérias-primas energéticas irão subir “significativamente” acima dos valores de referência, atingindo o pico no final de 2026, antes de se realinharem gradualmente com elas até o final de 2027.
Assim, o crescimento do PIB da UE sofre uma nova redução de 0,4 pontos percentuais em 2026 para 0,7%, face a 1,1%, e de 0,7 pontos percentuais em 2027, também para 0,7%, face a 1,4%.

Neste caso, como os preços das matérias-primas apenas atingem o pico no final de 2026, a maior parte da transmissão para os preços ocorre em 2027. Em 2026, a inflação fica apenas 0,3 pontos percentuais acima do cenário de base (3,3% face a 3%), mas em 2027, o diferencial aumenta para cerca de 1,1 pontos percentuais (3,5% face a 2,4%).
“O endurecimento da política monetária implícito na regra de política estimada ajuda a conter o aumento da inflação, mas exerce também um efeito adicional de travagem sobre o PIB”, explica Bruxelas. Deste modo, os efeitos revelam-se persistentes devido aos desfasamentos na transmissão para os preços no consumidor e os salários, bem como ao ajustamento gradual das taxas de juro implícito na regra de política estimada pelo modelo.
(Notícia atualizada às 11h30)
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