IRGAwards. Como pode a inovação fazer a diferença na sociedade?
CGD, Teixeira Duarte e Ubbu são alguns dos candidatos ao prémio transformação e inovação e, juntamente com a Deloitte, debatem para onde vai a inovação tecnológica, que não é apenas IA.

Falar de inovação e de tecnologia em 2026 tem de passar pela inteligência artificial (IA) e pela sua acelerada implementação nas nossas vidas e nas nossas empresas. A promessa de revolução é tão forte que, mesmo que a entrega do destino esteja a demorar, é necessário que as organizações tenham pensamento crítico e um posicionamento face a esta tecnologia. “A tal revolução digital que se fala que será a terceira revolução, que terá começado eventualmente há uns 30, 40 anos, acho que ainda não chegou a esse ponto transformacional. A nossa suspeita é que vem aí realmente um momento de revolução e, provavelmente, a IA será esse momento. Ponto. Não nos parece que seja só apenas mais uma transformação tecnológica, mas algo revolucionário”, afirma Sérgio Lee, partner da Deloitte.
E, admitindo que o grande salto de transformação ainda não foi dado, aposta que será esse movimento que vai separar as águas: “o que temos que nos perguntar é se queremos nós disromper o nosso negócio ou queremos ver isto ser disrompido por alguém. Queremos ser uma Netflix ou queremos ser um Blockbuster? É este o ponto”.
O responsável foi um dos participantes no debate dedicado ao tema da inovação, e no qual foram conhecidos melhor três projetos candidatos ao prémio Transformação e Inovação nos IRGAwards 2026, apresentados por Caixa Geral de Depósitos (CGD), Teixeira Duarte e Ubbu.
Madalena Talone, administradora da CGD, descreveu o que o banco público – que está a comemorar 150 anos de existência – tem feito na área da inteligência artificial.
“Temos aprendido dois aspetos com o nosso caminho. O primeiro tem a ver com a adoção pelas pessoas. A tecnologia é válida na medida em que as pessoas a usem no seu dia-a-dia e temos visto que isto acaba por ser uma disrupção significativa na maneira como cada um de nós faz o seu trabalho diário. O outro grande desafio é a aprendizagem que temos incorporado, que tem a ver com a forma como operamos, estamos a trabalhar muito mais agora numa lógica de olhar como folha em branco para os processos e quase que montar do zero”, explica a responsável. A ideia não é replicar processos existentes com tecnologia, mas aproveitar a tecnologia para revisitar os processos.

Rita Moura, diretora de Inovação da Teixeira Duarte, explica como um setor “hard” está a incorporar esta mudança. “À construção, contrariamente ao que se possa pensar, isto foi o melhor presente que nos podiam dar“, afirma, uma vez que permite a construção de cenários, testes de resistência, e gémeos digitais das infraestruturas. “Nós construímos objetos físicos, mas há sempre uma espécie de um gémeo digital que temos toda a vantagem em trabalhar, até porque, como imaginam, nos empreendimentos em que trabalhamos, muitas vezes megaprojetos, é muito interessante ter esta capacidade para, digamos, digitalizar e planear tudo antes de executar”, afirma. E justifica, de seguida: “Cometer os erros digitalmente tem um custo muito inferior a cometer os erros fisicamente, como deve imaginar, ter que refazer as coisas. Um engenheiro é basicamente um gestor de riscos. Tudo são riscos e nós temos que gerir imensas situações que ocorrem em simultâneo, e isto são ferramentas com uma potência enorme para a construção”.
Mudando radicalmente de setor, também a Ubbu, dedicada ao ensino tecnológico para crianças e jovens, está a capturar as vantagens do momento. De acordo com João Magalhães, fundador e CEO, “eu acredito mesmo que nós vivemos um momento da história que se calhar nunca vivemos”. A IA e a progressiva penetração e destreza tecnológica nos jovens abre caminhos importantes, mas ao mesmo tempo a sociedade parece continuar sem saber bem que rumo tomar.
“Na educação também sinto que nós vivemos um bocado num mundo bipolar. Nós temos escolas que proíbem completamente a utilização de inteligência artificial. Temos outras que apostam na capacitação dos professores, na educação, na utilização eficiente e também passar a mensagem de quais são os riscos, os temas éticos de utilização da inteligência artificial”, afirma, e ilustra com um exemplo concreto: “Mas o que é que na prática está a acontecer? Eu tenho três filhas. Na escola das minhas filhas, é proibido utilizar a deficiência artificial. Então, o que é que acontece? Os professores, porque eu conheço vários, vão para casa, preparam as aulas e depois no dia a seguir vão dar aulas, mas com aulas preparadas”. “É aqui o desafio grande que nós temos, é se queremos apostar na capacitação, na educação e numa posição responsável e liderar o movimento, ou vamos estar aqui à espera. Eu lembro-me sempre de um exemplo que é, no início dos anos 80, havia a discussão se devíamos ter máquinas de calcular nas escolas ou não”, acrescenta.

Banca para empresas, construção e educação
Entre os projetos finalistas, está a transformação digital e a nova app da Caixa para a banca de empresas. “O que é que fizemos de muito diferente neste projeto? Por um lado montámos uma equipa que é completamente multidisciplinar e que estava dedicada em exclusividade ao projeto, com pessoas de várias áreas do banco, com os vários tipos de competências. Por outro lado, definimos o projeto do ponto de vista das suas prioridades de uma maneira muito factual e muito orientada aos números e ao impacto, olhámos precisamente para quais eram os temas na relação digital dos clientes com o banco, que de facto pesam e que de facto são o interface todos os dias, e resolvemos que íamos atacar aquelas preocupações que representam 90% da interação que temos com os clientes no seu dia-a-dia“, suporta Madalena Talone.
Entre o início do projeto e o seu lançamento decorreram cerca de nove meses, com a integração de ferramentas de IA a ser acrescentada. E há resultados: “a nossa aplicação tinha uma nota de 1.7 nas app stores, agora tem 4.7. Portanto, foi assim uma disrupção substancial. O número de clientes que têm a aplicação móvel mais do que duplicou em poucos meses. Temos também um efeito de aumento da transacionalidade das empresas que são clientes pela Caixa”, revela.
No caso da Teixeira Duarte, o projeto passa pela modelação digital de armaduras na construção. “Temos a noção que a construção consome 30%, grosso modo, das matérias-primas, e o betão e o aço têm um impacto ambiental enorme, sendo que o aço ainda tem mais, em termos de material, só que o betão usa-se em mais quantidade. Aqui a motivação foi a poupança, ou seja, a redução do desperdício no aço, que nós usamos em larga escala”, explica Rita Moura.
“Pegámos numa obra de grande complexidade, que é a obra do Colombo, no qual estivemos envolvidos. Quem passou no Colombo não se apercebeu do que se passava por debaixo, portanto foi de facto muito complexo. Basicamente um dos aspetos muito complexos eram precisamente maciços em betão armado, que eram feitos por debaixo do centro comercial, com armaduras, no fundo a parte do ferro que está no interior do betão, bastante complexas. Então optou-se precisamente por, em modelos BIM, digitalizar todas essas armaduras e em vez de usarmos um processo que é mais tradicional, optámos por utilizar varões em bobine e, portanto, através do modelo digital, era tudo enviado diretamente para equipamentos totalmente automáticos, dos quais dispomos agora na empresa, e que cortam na medida certa todos esses fios. Ou seja, isto reduz o desperdício ao mínimo, com impactos na sustentabilidade”, detalha a responsável.
Mais do que a utilização numa obra específica, esta metodologia está a ser alargada a várias áreas da Teixeira Duarte, com efeito multiplicador.
Do betão, para a capacitação, a Ubbu concorre com o projeto Programa o Futuro, de forma a alargar os seus contributos de educação em ciências da computação e promoção da literacia digital. “Montámos aqui um projeto com vários parceiros, com financiamento do Portugal Inovação Social, da Fundação Meo, da Siemens e do Montepio, com o apoio da Direção-Geral da Educação e também da Universidade de Aveiro, com o objetivo de qualquer escola pública, de primeiro e segundo ciclo, que queira ter acesso a estas competências, pode ter de forma gratuita”, segundo João Magalhães.
Para o fundador da Ubbu, organização que nasceu em 2015, os números revelam ambição num tema premente. “Este ano estamos com cerca de 60 mil alunos nas escolas públicas, desde o sul, desde o Algarve, até ao norte de Portugal, das maiores cidades, de Lisboa até ao interior. E temos esta ambição de, durante estes três anos, impactarmos mais 200 mil crianças. Este é o nosso objetivo e o nosso desígnio”.

Os vencedores dos IRGAwards 2026, iniciativa da Deloitte que vai na sua 38ª edição, serão conhecidos na noite desta quinta-feira, 21 de maio.
Os cinco projetos finalistas são os seguintes:
- Caixa Geral de Depósitos | Projeto: Transformação Digital e Nova App Empresas CGD (Projeto focado na digitalização da relação com clientes empresariais (PME).)
- EDP | Projeto: Scale Up O&M (Iniciativa de transformação digital na manutenção de parques solares, que integra robótica, drones, IoT e inteligência artificial nos processos de fiscalização, operação e manutenção.)
- NOS | Projeto: Agentic AI for NW Transformation (Projeto centrado na aplicação de inteligência artificial à operação de redes de telecomunicações.)
- Teixeira Duarte | Projeto: Modelação digital de armaduras (projeto baseado na digitalização integrada dos processos de projeto, construção e gestão de materiais.)
- Ubbu | Projeto: Ubbu – Programa o Futuro (plataforma digital orientada para a educação em ciências da computação e promoção da literacia digital.)
Assista aqui ao debate, na íntegra:
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