Mais pessimista do que Governo, Bruxelas prevê crescimento de 1,7% e défice de 0,1%
Comissão Europeia prevê que crescimento da economia portuguesa continue "sólido", apesar do choque negativo provocado pelos preços da energia. Prevê inflação de 3% e contas públicas no negativo.
A economia portuguesa continua a crescer acima da média da Zona Euro apesar do novo choque energético no Médio Oriente, mas o país deverá voltar ao défice orçamental já este ano. As previsões são da Comissão Europeia, que se mostra mais pessimista do que o Governo português, estimando um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 1,7% este ano e um défice de 0,1%.
“As perspetivas económicas enfraqueceram ligeiramente devido a uma série de choques adversos, mas o crescimento deverá permanecer sólido tanto em 2026 quanto em 2027″, indica o executivo comunitário, no relatório de previsões económicas de primavera, divulgado esta quinta-feira.
Nas previsões de inverno, em novembro do ano passado, a Comissão Europeia apontava para uma expansão do PIB português de 2,2%. No entanto, o choque nos preços da energia provocado pela guerra no Irão levaram a um corte transversal das perspetivas às várias economias. Para a Zona Euro, o crescimento foi revisto em baixa, passando de 1,2% para 0,9%.
Comissão Europeia prevê um crescimento do PIB português de 1,7% este ano, um défice de 0,1% e a taxa de inflação a subir para 3%.
O Executivo comunitário revela-se também mais pessimista do que o Governo português, que prevê um crescimento de 2% e um saldo orçamental equilibrado. Entre as principais instituições económicas que divulgaram recentemente projeções, apenas o Conselho das Finanças Públicas (CFP) prevê um crescimento abaixo do esperado em Bruxelas: 1,6%. Já o Banco de Portugal aponta para uma taxa de 1,8% e o Fundo Monetário Internacional de 1,9%.
No relatório, a Comissão Europeia dá nota dos choques “inesperados” no início do ano que afetaram a economia portuguesa, leia-se, as fortes tempestades em janeiro e fevereiro, seguidas por uma acentuada subida dos preços da energia em março e abril, mas prevê uma melhoria gradual nos próximos trimestres.
A recuperação deverá ser suportada pelas obras de reparação das tempestades e pelo esperado pico de utilização dos fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) este ano. Contudo, prevê que os preços elevados da energia continuem a pesar negativamente, em particular no segundo trimestre. Ainda assim, prevê que o crescimento recue apenas marginalmente de 1,9% em 2025 para 1,7% em 2026 e 1,8% em 2027.

“Prevê-se que o investimento beneficie substancialmente do ciclo do PRR em 2026, compensando parcialmente o sentimento negativo de investimento no setor privado“, aponta. Porém, para o ano seguinte espera uma “forte queda” do investimento, o que, projeta, será “parcialmente compensado” por uma recuperação dos fundos estruturais europeus e por uma melhoria do sentimento no setor privado.
Ademais, espera que o excedente da balança corrente se aproxime de uma posição equilibrada este ano e no próximo, uma vez que as importações deverão continuar a crescer mais rapidamente do que as exportações, enquanto o impacto negativo dos preços da energia em 2026 deverá ser apenas parcialmente recuperado em 2027.
No entanto, a Comissão alerta que o balanço de riscos permanece desfavorável, ainda mais agravado pela incerteza relacionada com “o fornecimento global de combustível de aviação, uma vez que o setor turístico com grande peso em Portugal depende fortemente do transporte aéreo”.
Inflação acelera para 3% este ano
A Comissão Europeia prevê que a taxa de inflação, medida pelo Índice Harmonizado de Preços no Consumidor (IHPC), suba dos 2,2% registados em 2025 para 3% este ano, antes de recuar para 2,3% em 2027.
“Espera-se que a inflação global atinja o pico no segundo trimestre de 2026 e recue gradualmente depois disso, uma vez que o choque nos preços da energia deverá ter apenas um efeito moderado e diferido sobre os bens e serviços intensivos em energia“, explica o Executivo comunitário.
Já a inflação subjacente, que exclui energia e alimentos, deverá aumentar a um ritmo mais moderado, fixando-se em 2,4% tanto este ano como em 2027.
Espera-se que a inflação global atinja o pico no segundo trimestre de 2026 e recue gradualmente depois disso.
De excedente a ligeiro défice
Bruxelas prevê que o excedente orçamental de 0,7% do PIB em 2025 se transforme num défice de 0,1% em 2026 e de 0,4% do PIB em 2027, num cenário de políticas invariantes. Números que comparam com o saldo nulo esperado pelo Governo para este ano, ainda que no Ministério das Finanças se admita que as contas podem resvalar para um défice, desde que não ultrapasse os 0,5%, o valor que não compromete as metas acordadas com Bruxelas.
Para a Comissão Europeia, a deterioração esperada para este ano “reflete o impacto das medidas de apoio adotadas pelo Governo em resposta à série de tempestades ocorridas em janeiro e fevereiro“, mas também “medidas anteriormente introduzidas com impacto negativo nas contas públicas, como as reduções das taxas do IRS e do IRC”.
Bruxelas adverte que “as perspetivas orçamentais enfrentam riscos relacionados com fragilidades financeiras em empresas públicas e com passivos contingentes associados a parcerias público-privadas“.
Ainda assim, Portugal tem um dos défices mais baixos projetados este ano para a Zona Euro. Apenas para o Chipre (2,1%) Irlanda (1,4%), Grécia (0,8%) são esperados melhores resultados.
No entanto, em entrevista à Lusa divulgada esta quinta-feira, o comissário para a Economia, Valdis Dombrovskis, admitiu que o resultado português poderá ser melhor do que o previsto. “Não excluímos a possibilidade de um resultado melhor, porque, como sabem, os orçamentos nem sempre são integralmente executados nos países e, por isso, para 2027 dependerá obviamente do tipo de medidas políticas que Portugal adotar e da direção que tomar”, disse.
A Comissão prevê ainda que o rácio da dívida pública continue a trajetória descendente, caindo para 86,7% do PIB este ano e 86,0% do PIB em 2027, sustentada por excedentes persistentes do saldo primário e por diferenciais favoráveis entre crescimento económico e as taxas de juro.
(Notícia atualizada às 10h57, com a declaração do comissário para a Economia)
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