Exclusivo Seguradora Ageas avalia entrada no capital do BCP com saída da Fosun
Miguel Maya assume que gostaria de manter chineses e angolanos a bordo do banco, mas trabalha no sentido de diversificar base acionista. Ageas pode ser uma das soluções para entrar capital do BCP.

A seguradora Ageas está a avaliar a entrada no capital do BCP BCP 0,24% em caso de desinvestimento dos chineses da Fosun, de acordo com as informações recolhidas pelo ECO junto de fontes do mercado. O grupo belga, com quem o BCP já tem uma parceria de negócio de longa data na área dos seguros em Portugal, designadamente através da Ocidental, não comenta, mas pode mesmo vir a ficar com uma participação de 5%. Neste momento está tudo ainda em aberto.
“A Ageas mantém uma parceria de bancassurance sólida e duradoura com o BCP desde 2005. Por princípio institucional, não comentamos rumores de mercado”, afirma fonte oficial da companhia seguradora questionada pelo ECO sobre essa possibilidade. Com uma quota de mercado de 15,4%, a Ageas é a segunda maior seguradora em Portugal, através das companhias Ocidental Vida, Ageas Seguros e Médis, apenas atrás da Fidelidade.
A Fosun detém atualmente pouco mais de 20% do BCP, mas encontra-se a avaliar opções para se desfazer da sua participação avaliada em cerca de 2,7 mil milhões de euros, segundo o jornal Expresso.
O conglomerado chinês chegou a deter quase 30% do BCP, onde entrou em 2016, mas há dois anos deu início ao seu desinvestimento quando vendeu cerca de 10%, incluindo um bloco de 5,6% através de uma colocação privada junto de investidores institucionais por cerca de 235 milhões de euros.
Agora, a Fosun, que em Portugal detém ainda 85% da seguradora Fidelidade, contratou assessores financeiros para sondar o apetite do mercado, mas admite manter-se caso não receba propostas interessantes para a sua posição no banco português.
O segundo maior acionista é a Sonangol, detida pelo Estado angolano, com 19,9%. Nos últimos anos, a petrolífera estatal angolana tem vindo a vender participações em áreas não estratégicas para a sua atividade. Como a Fosun, também pode estar na porta de saída.
Em entrevista ao ECO, Miguel Maya, CEO do BCP, destacou que estes dois acionistas tiveram um “papel importantíssimo” na recuperação do banco na última década, mas assumiu estar preparado para a eventualidade de irem embora.
“Eu gostaria muito de continuar com a Sonangol, com a Fosun, com os acionistas e ter mais acionistas. Eu não dispenso nenhum acionista. Agora, o que digo é assim: felizmente, resultado do trabalho que foi feito, esse é um tema que o banco hoje pode equacionar com uma tranquilidade que não tinha no passado”, afirmou.
“O banco está preparado para que, se algum acionista em algum momento quiser sair, tenha essa atratividade e essa capacidade de não deixar influenciar o serviço aos clientes em resultado disso”, salientou ainda.
Eu gostaria muito de continuar com a Sonangol, com a Fosun, com os acionistas e ter mais acionistas. Eu não dispenso nenhum acionista. Agora, o que digo é assim: felizmente, resultado do trabalho que foi feito, esse é um tema que o banco hoje pode equacionar com uma tranquilidade que não tinha no passado.
Fator dividendo para atrair investidores
Aquando da redução da Fosun, no início de 2024, Miguel Maya considerou que uma eventual saída dos acionistas de referência devia ser encarada como mais um passo na trajetória de normalização que o BCP tem vindo a realizar nos anos mais recentes após o período de reestruturação.
“Na medida em que o banco tem uma situação sólida, o normal era ver o BCP a evoluir como os grandes bancos europeus e norte-americanos, em termos de free float: nós temos 60% e grandes bancos têm um free float nos 90% ou mais”, declarou o gestor que acaba de iniciar o terceiro mandato à frente da instituição.
Ainda não é certo que chineses ou angolanos venham a sair do capital da instituição portuguesa. Ambos têm manifestado o seu compromisso com os investimentos em Portugal. Mas Miguel Maya há muito que está a preparar o BCP para um cenário de mudanças de fundo na sua estrutura acionista. E que poderiam resultar num quadro de maior instabilidade para o banco e até numa oferta indesejável de um grande player europeu.
Miguel Maya já disse publicamente que vê a política de dividendos como a melhor forma de proteger o banco destes riscos e, no início deste ano, o gestor surpreendeu o mercado ao anunciar uma remuneração para os acionistas correspondente a 90% do resultado anual, apenas pouco mais de um ano depois de ter apresentado um plano estratégico com um payout máximo de 75% para o período entre 2026 e 2028. Mas a medida não foi consensual no seio do banco. O ECO sabe que alguns administradores estiveram contra este reforço. Miguel Maya colocou a aprovação da medida como uma condição para a sua continuidade à frente do BCP, também por acreditar que o banco está perante uma oportunidade de refazer a sua base acionista e os dividendos serão uma ferramenta nesse objetivo.
Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.
BCP mais agressivo que maiores bancos espanhóis
Certo é que, com este reforço, o BCP se colocou entre os bancos do sul da Europa mais generosos com os seus acionistas – e isto depois de uma década praticamente em branco em termos de dividendos.
No próximo ciclo, em que perspetiva lucros anuais acima dos mil milhões de euros, o banco pretende distribuir metade dos resultados líquidos sob a forma de dividendo e outros 40% através de um programa de recompra de ações, mediante o cumprimento de determinadas metas e a autorização dos reguladores.
Apenas os italianos Monte dei Paschi di Siena e Intesa e o espanhol Unicaja são mais agressivos do que o BCP neste capítulo, tendo em conta as atuais e futuras políticas de dividendos anunciadas pelos bancos.
Por outro lado, o BCP supera mesmo os grandes bancos espanhóis, incluindo o Santander e o Caixabank, cujos payouts variam entre 50% e 60% — em alguns casos com possibilidade de aumento por via de buybacks, dependendo dos rácios de capital.
Como assume o próprio Miguel Maya, o BCP quer jogar a Champions League da banca. Nos dividendos o banco português joga de igual com os campeões europeus.
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