Stellantis tem plano de renascimento de 60 mil milhões com Mangualde no acelerador

Com um plano de revitalização de 60 mil milhões de euros para os próximos cinco anos, a Stellantis quer 'renascer' e a fábrica portuguesa surge como uma das apostas para esta reviravolta.

John Elkann, presidente da Stellantis, com Antonio Filosa, CEO da construtora automóvel durante uma visita a uma fábrica do grupo.

Depois de um 2025 para esquecer, marcado por um prejuízo histórico de 22,3 mil milhões de euros, encargos extraordinários de 25,4 mil milhões e a suspensão do dividendo aos acionistas, a Stellantis apresentou esta quinta-feira em Auburn Hills, no estado do Michigan (EUA), aquilo que o novo CEO António Filosa descreve como a sua “folha em branco”.

Trata-se do “FaSTLAne 2030”, um plano estratégico de cinco anos avaliado em 60 mil milhões de euros que tem como ambição transformar um dos maiores grupos automóveis do mundo numa máquina de crescimento rentável.

O grupo, que reúne marcas como a Jeep, a Ram, a Peugeot, a FIAT, a Alfa Romeo, a Citroën ou a Maserati, não se apresenta ao mercado como um conglomerado em dificuldades à procura de um salva-vidas, mas como uma empresa a reinventar-se com disciplina, centrada nos clientes e determinada a alocar capital onde os retornos são mais elevados.

A Stellantis reforça a aliança com a chinesa Leapmotor e avança com uma nova era de cooperação com a também chinesa Dongfeng para a China e para a Europa, além de explorar sinergias com a Jaguar Land Rover nos EUA.

O plano assenta em seis pilares: gestão mais afiada do portefólio de marcas, investimento em plataformas e tecnologia globais, parcerias estratégicas, otimização da capacidade produtiva, excelência na execução e autonomia das equipas regionais. Na prática, a Stellantis vai lançar mais de 60 novos veículos e realizar 50 renovações significativas até 2030, num espetro energético alargado que inclui 29 veículos totalmente elétricos, 15 híbridos plug-in ou de autonomia estendida, 24 híbridos convencionais e 39 modelos de combustão ou mild hybrid.

A ideia central é que “a tecnologia só tem valor se melhorar a vida quotidiana dos clientes reais. Não existe tecnologia pela tecnologia”, como sublinhou António Filosa durante o Investor Day da construtora automóvel.

Para suportar esta ofensiva de produto, a empresa vai investir mais de 24 mil milhões de euros — cerca de 40% do montante total aplicado em Investigação e Desenvolvimento (I&D) e Capex do período — em plataformas modulares, motorizações e novas tecnologias, incluindo um sistema de inteligência artificial já com mais de 120 aplicações implementadas nas operações do grupo.

Neste ambicioso plano, a reorganização do portefólio de marcas é um dos elementos cirúrgicos.

  • A Stellantis passa a ter quatro marcas globais com maior escala e potencial de rentabilidade — Jeep, Ram, Peugeot e Fiat — que receberão 70% dos investimentos em produto, juntamente com a Pro One, a unidade de comerciais ligeiros do grupo.
  • As restantes cinco marcas regionais (Chrysler, Dodge, Citroën, Opel e Alfa Romeo) mantêm as suas posições nos mercados locais, beneficiando dos mesmos ativos globais.
  • A DS e a Lancia passam a ser geridas como marcas de especialidade pela Citroën e pela Fiat, respetivamente, e a Maserati recebe um fôlego extra com dois novos modelos do segmento E, com um roteiro detalhado a ser apresentado em Modena em dezembro deste ano.

Do lado das parcerias, o grupo reforça a aliança com a chinesa Leapmotor (em que detém 51% da Leapmotor International) e avança com uma nova era de cooperação com a também chinesa Dongfeng para a China e para a Europa, além de explorar sinergias com a Jaguar Land Rover nos EUA e de consolidar laços tecnológicos com empresas como a Nvidia, a Qualcomm, a Mistral AI, a Wayve e a CATL, refere a Stellantis em comunicado.

Reportagem na unidade de produção da Stellantis em Mangualde - 11ABR25
Unidade de produção da Stellantis em Mangualde.Hugo Amaral/ECO

Mangualde já fabrica elétricos e o FaSTLAne 2030 quer mais

Portugal não é uma presença periférica neste enxame de decisões. A fábrica de Mangualde, a mais antiga do grupo no país, com mais de 62 anos de história, recebeu 119 milhões de euros do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) para iniciar a produção de oito modelos 100% elétricos, tornando-se em julho de 2024 a primeira unidade industrial em Portugal a produzir em grande escala veículos elétricos de passageiros e comerciais ligeiros, incluindo o Citroën ë-Berlingo, o Peugeot E-Partner e o Fiat e-Doblò.

O “FaSTLAne 2030” prevê precisamente este tipo de aposta na Europa, com a introdução do chamado E-Car, uma nova geração de elétricos acessíveis e vocacionados para a cidade, a ser fabricada em solo europeu, e com aumentos de capacidade produtiva que deverão elevar a taxa de utilização das fábricas europeias dos atuais 60% para 80% até 2030. A unidade de Mangualde, com a sua reconversão elétrica já operacional, está bem posicionada para ser parte ativa deste novo capítulo industrial.

Para as regiões, o plano traça metas ambiciosas e diferenciadas. A América do Norte, que receberá 60% dos 36 mil milhões de euros destinados a marcas e produtos, terá como objetivos um crescimento de receitas de 25% e margens operacionais entre 8% e 10%, com 11 novos veículos e sete modelos abaixo dos 40 mil dólares. A região da Europa alargada mira um crescimento de 15% e margens entre 3% e 5%, o Médio Oriente e África apostam num crescimento de receitas de 40% com margens de 10% a 12%, e a América do Sul visa 10% de crescimento com margens semelhantes às norte-americanas.

O ‘FaSTLAne 2030’ é o resultado de meses de trabalho disciplinado em toda a empresa e foi concebido para impulsionar um crescimento rentável a longo prazo.

António Filosa

CEO da Stellantis

Em paralelo, o Programa de Criação de Valor (VCP), lançado recentemente, promete gerar 6 mil milhões de euros de redução anual de custos até 2028 face a uma base de referência de 2025, comprimindo ciclos de desenvolvimento de veículos dos atuais até 40 meses para apenas 24 meses.

“O ‘FaSTLAne 2030’ é o resultado de meses de trabalho disciplinado em toda a empresa e foi concebido para impulsionar um crescimento rentável a longo prazo”, afirmou António Filosa, sublinhando que “o plano concretizará o nosso propósito: ‘mover as pessoas com marcas e produtos que amam e nos quais confiam'”.

A frase do líder da Stellantis condensa o desafio que a empresa enfrenta: reconquistar a confiança dos seus clientes, dos seus acionistas — que ficarão este ano sem dividendo — e de um mercado que, há pouco mais de um ano, assistiu à saída abrupta de Carlos Tavares da liderança do grupo.

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