Transferências ‘normais’ caem pela primeira vez desde 1999. Culpa é das imediatas
Portugueses estão a mudar a forma como pagam. As transferências imediatas dispararam mais de 1600% no ano passado, levando as transferências 'normais' a caírem pela primeira vez em 26 anos.
As transferências bancárias normais — conhecidas tecnicamente por transferências a crédito — caíram no ano passado pela primeira vez desde 1999. Um decréscimo que se deveu à rápida disseminação das transferências imediatas, que demoram menos de dez segundos até chegar ao destinatário e começam a fazer cada vez mais parte do dia-a-dia dos portugueses.
Os dados do Banco de Portugal mostram que a utilização de transferências imediatas aumentou 1623,6% em quantidade e quase 400% em montante no ano passado. Foram realizadas 322,8 milhões de transações deste tipo, no valor global de 140,9 mil milhões, segundo o Relatório do Sistema de Pagamentos de 2025, divulgado esta quinta-feira.
O supervisor, que é a entidade responsável pelo bom funcionamento dos sistemas de pagamentos, explica que a subida expressiva das transferências imediatas se deveu não só ao impulso dado pela regulação europeia (que, por exemplo, veio nivelar o custo destas operações ao das transferências normais), mas também por outras iniciativas nacionais, como a introdução dos serviços da verificação do beneficiário e o SPIN e “a migração de transferências baseadas em cartão para operações assentes em transferências imediatas” – por exemplo, os pagamentos das compras que fazemos no supermercado através dos terminais passaram a ser transferências imediatas, uma evolução que passou despercebida ao consumidor comum.
Em fevereiro, na conferência New Money, realizada pelo ECO e pela sociedade de advogados Morais Leitão, o administrador do Banco de Portugal Luís Morais Sarmento já havia desvendado um pouco o véu em relação ao aumento expressivo das transferências imediatas em 2025, considerando, ainda assim, que “ainda estão longe do seu potencial”.
O administrador revelou que “ainda” não é possível utilizar transferências imediatas no pagamento dos impostos ou quando vamos a um supermercado ou loja. “Precisamos de desenvolver aspetos para a associar o pagamento ao bem ou serviço que está a ser adquirido. (…) Não são dificuldades de grande monta. Estamos a um passo disso. Já se fez noutros casos, iremos fazê-lo com facilidade nos próximos meses”, salientou na altura.
Transferências a crédito caem pela primeira vez em 26 anos
Ainda assim, em consequência da maior utilização das transferências imediatas, as transferências a crédito – que podem demorar até três dias entre o envio e a receção do dinheiro – caíram pela primeira vez em 26 anos.
Foram realizadas 185,1 milhões de transações no ano passado, menos 17%. Ainda assim, através destas transferências, os portugueses movimentaram 411,1 mil milhões de euros, mantendo-se como o principal meio de pagamento eletrónico em termos de montantes.
“Esta evolução revela uma maior preferência pela utilização de transferências imediatas para transações de baixo valor, também evidente no valor médio por transação realizada com estes instrumentos: 2221,7 euros no caso das transferências a crédito (1991,8 euros em 2024) e 435,0 euros nas transferências imediatas (1505,7 euros em 2024)”, salienta o Banco de Portugal.
Já as operações baseadas em cartão subiram 5,4% em quantidade (mais de 4,4 mil milhões de transações no ano passado) e 9% em valor (227,6 mil milhões de euros). E os débitos diretos aumentaram 3,6% em quantidade, mas desceram em 1,7% em valor.
Pagamentos eletrónicos atingem 822 mil milhões de euros em 2025
Segundo o Banco de Portugal, em 2025, a utilização destes instrumentos de pagamento eletrónicos — débitos diretos, transferências a crédito, transferências imediatas e cartões – cresceu tanto em quantidade (de 4,7 mil milhões de transações em 2024 para 5,2 mil milhões em 2025) como em valor (724,8 mil milhões de euros para 821,9 mil milhões de euros).
Em média, cada habitante em Portugal realizou 412,4 pagamentos com cartões, 30,1 transferências imediatas, 23,4 débitos diretos, 17,2 transferências a crédito e 0,6 com cheques.
E gastou 38,2 mil euros com transferências a crédito, 21,2 mil euros com cartões, 13,1 mil euros com transferências imediatas, 5 mil euros com cheques e 3.900 euros com débitos diretos.
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