Cartier e joias mantêm Richemont a crescer, mas as margens estão menores

Lina Santos,

A joalharia voltou a ser o motor do crescimento do grupo suíço, mas a margem operacional recuou.

O grupo suíço dono da Cartier, Van Cleef & Arpels e Vacheron Constantin fechou o ano fiscal terminado a 31 de março com vendas de 22,4 mil milhões, mais 11% a câmbios constantes do que no exercício anterior. As joias são a divisão mais forte, com um crescimento de 8%.

Os resultados apresentados esta sexta-feira mostram que a Richemont voltou a crescer acima do ritmo de boa parte do mercado de luxo, ainda que deixem perceber a mesma tensão que atravessa todo o setor do luxo: continua a comprar-se alta joalharia, as marcas mais fortes continuam a subir preços, mas a margem tornou-se mais difícil. “Quanto melhor a joia, mais baixa a margem”, resumiu Johann Rupert, chairman do grupo, justificando os números menos exuberantes deste exercício.

O lucro operacional subiu apenas 1%, para 4,49 mil milhões e a margem operacional desceu de 20,9% para 20,0%. A margem bruta também recuou, de 66,9% para 64,4%, uma queda de 250 pontos base que o grupo atribui ao impacto dos câmbios, ao aumento do preço das matérias-primas, sobretudo o ouro, e, em menor escala, aos direitos alfandegários adicionais nos Estados Unidos.

A situação no Médio Oriente também feriu o grupo. “No Médio Oriente tínhamos um crescimento de dois dígitos e caímos em março. Todos, incluindo os nossos pares, sentimos isso”, notou o Chief Finance Office, Burkhart Grund. A Richement detém, entre outras, as marcas Cartier, Van Cleef & Arpels, Buccellati, Vhernier, Vacheron Constantin, Jaeger-LeCoultre, IWC, Piaget, Chloé, Alaïa e Montblanc.

“O crescimento foi uma combinação crescimento de valor, limitadas subidas de preço – 6% – e aumento do volume”, disse o CEO Nicolas Bos, durante a apresentação.

Resultados da Richemont para o ano fiscal que terminou a 31 de março de 2026

Joias seguram Richemont

O crescimento de 8% da divisão de joias explica os números positivos da Richemont como um todo. As maisons do grupo – Cartier, Van Cleef & Arpels, Buccellati e Vhernier, atingiram vendas de 16,5 mil milhões, mais 8% a câmbios correntes e mais 14% a câmbios constantes. O resultado operacional desta área subiu para 5 mil milhões, com uma margem de 30,5%. Mesmo assim, essa margem caiu face aos 31,9% do ano anterior, sinal de que nem o poder do preço das marcas mais desejadas do grupo conseguiu absorver totalmente a pressão dos custos.

Johann Rupert frisou que a alta joalharia e a restante devem estar em equilíbrio. “Temos de ter a certeza que o nosso produto é acessível aos consumidores. É assim que olhamos para o preço do ouro, não como uma especulação. Dizemos: ‘Esta é a variação do que pode custar. E temos de usar o ‘nariz’, mais do que a média dos preços. Perguntar aos amigos o que gostam, perguntar às vendedoras”. Nicolas Bos acrescentou que um dos objetivos da Richemont é chegar aos clientes aspiracionais. Ainda assim, mantendo a disciplina de custos no próximo ano como aconteceu no ano agora fechado.

A Cartier, uma das mais icónicas marcas da Richemont, continuou a ser das mais procuradas, sobretudo nas suas linhas mais reconhecíveis, como Love, Clash, Panthère e Santos. A Van Cleef & Arpels lançou novidades nas coleções Alhambra, Flowerlace e Fleurs d’Hawaï. A Buccellati reforçou a linha Etoilée enquanto a Vhernier continuou a construir escala dentro do grupo. Abriu no último ano a sua primeira loja na Ásia, no hotel Peninsula Hong Kong.

Lojas próprias pesam 71% das vendas

As lojas próprias representaram 71% das vendas do grupo e cresceram 12% a câmbios constantes. Ganharam peso face ao exercício anterior. Somando retalho físico e online, as vendas diretas ao cliente chegaram a 77% do total. A Richemont tem vindo a aprofundar um modelo assente na relação direta com o cliente final e quer continuar. “Podemos melhorar a experiência em loja”, frisou o chairman da empresa.

A solidez financeira do grupo não está em causa. A Richemont terminou março com uma posição de caixa líquida de 8,5 mil milhões, mais 239 milhões do que no ano anterior, e gerou 4,9 mil milhões de cash flow operacional. Com esta base, o conselho de administração propôs um dividendo ordinário de 3,30 francos suíços por ação A, ou por cada 10 ações B, um aumento de 10%, e ainda um dividendo especial de 1 franco suíço. A distribuição fica sujeita à aprovação dos acionistas na assembleia-geral marcada para 9 de setembro.

Na China, e ao contrário do que vinha acontecendo, fecharam lojas. “Acreditámos no crescimento de algumas cidades e no desenvolvimento imobiliário, mas não aconteceu assim. Estamos numa fase de consolidação e estabilização”, afirmou Nicolas Bos.

Relógios dão sinais de estabilização, mas ainda pesam nas margens

A relojoaria é o contraponto à força da joalharia. As maisonsde relógios especializados A. Lange & Söhne, Baume & Mercier, IWC, Jaeger-LeCoultre, Panerai, Piaget, Roger Dubuis e Vacheron Constantin fecharam o ano com vendas de 3,15 mil milhões, menos 4% a câmbios correntes. A taxas constantes houve uma ligeira subida de 1%, suficiente para a Richemont falar em sinais de estabilização depois de dois anos difíceis para o mercado relojoeiro.

Essa recuperação, no entanto, ainda é frágil. O resultado operacional da área caiu de 175 milhões para 107 milhões e a margem recuou de 5,3% para 3,4%. A pressão veio dos mesmos fatores que afetaram o grupo, câmbios, ouro mais caro e tarifas nos EUA.

A melhoria apareceu sobretudo no segundo semestre, com destaque para A. Lange & Söhne, Jaeger-LeCoultre e Vacheron Constantin. No quarto trimestre, as vendas de relógios de luxo cresceram 2% a câmbios constantes, apesar da queda de dois dígitos no Médio Oriente e África.

A venda da Baume & Mercier ao grupo italiano Damiani, anunciada em janeiro e com conclusão prevista para o verão, também mostra uma reorganização seletiva do portefólio. A Richemont justifica a operação com o posicionamento mais acessível da marca, a sua forte presença em Itália e a dependência de um modelo de distribuição maioritariamente grossista e multimarca. Para o grupo suíço, que tem reforçado a venda direta e a concentração em maisons de maior margem, a saída de Baume & Mercier encaixa numa estratégia mais vasta.

Geografia muda: EUA acelera, China recupera lentamente

A Richemont cresceu em todas as regiões, mas não se vê uma recuperação exuberante.

  • O eixo Ásia-Pacífico continua a ser a maior região do grupo, com 7,2 mil milhões em vendas e 32% do total, mas cresceu apenas 1%. China, Hong Kong e Macau, em conjunto, avançaram 3% a taxas constantes, com a Richemont a destacar a procura em Hong Kong e o bom desempenho da Coreia do Sul, onde as vendas chegaram a quase 1,4 mil milhões.
  • Os EUA foram o grande motor regional. As vendas atingiram 5,68 mil milhões, com crescimento em todos os mercados e canais. A região representou 25% das vendas do grupo e manteve crescimento de dois dígitos ao longo de todos os trimestres. O desempenho confirma a importância crescente do cliente local norte-americano num setor que, durante anos, dependeu fortemente dos fluxos turísticos asiáticos.
  • Na Europa, as vendas subiram 7%, para 5,26 mil milhões. O crescimento foi apoiado por procura local de dois dígitos e por turismo ainda positivo, embora o quarto trimestre tenha abrandado para 5%, penalizado por bases de comparação mais exigentes e menor gasto turístico.
  • O Japão cresceu 2%, para 2,23 mil milhões, com forte procura local a compensar a queda do turismo. O quarto trimestre foi particularmente forte
  • No Médio Oriente e África, as vendas subiram 6%, para 2,04 mil milhões, mas a região caiu 3% no quarto trimestre, impacto que a Richemont associa ao conflito na região, à menor procura local e à redução dos fluxos turísticos.
Vendas do grupo Richemont

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