BRANDS' ECO Rui Santos: “Estamos perante um ciclo europeu de investimento significativo em defesa”
O diretor geral do AED Cluster Portugal acredita que, num contexto de instabilidade geopolítica, Portugal precisa de se posicionar estrategicamente como produtor de tecnologia e conhecimento.
Durante três dias, entre 27 e 29 de maio, o Centro de Congressos do Estoril e o Templo da Poesia em Oeiras serão os palcos de uma reflexão sobre os setores da aeronáutica, espaço e defesa, a propósito de mais uma edição dos AED Days. O objetivo, explica Rui Santos, é “gerar impacto real” para este ecossistema, mas também “reforçar o conhecimento sobre tendências globais, de forma a melhorar o posicionamento estratégico das empresas portuguesas nestes setores”.

O diretor geral do AED Cluster Portugal, responsável pela organização da cimeira, sublinha a importância de o país ter uma participação ativa, planeada e competitiva no esforço europeu para o reforço de soluções na defesa. Os setores da aeronáutica e do espaço representam, igualmente, uma oportunidade para afirmar o talento e a produção nacional, não só em matéria de tecnologia, mas também de conhecimento. É sobre tudo isto que empresários, decisores e académicos vão refletir nos AED Days.
A edição deste ano dos AED Days parte do tema das indústrias da aeronáutica, espaço e defesa na nova geopolítica global. Que mudanças no contexto internacional tornam esta discussão particularmente urgente para Portugal?
Os três setores – aeronáutica, espaço e defesa – estão num momento de profunda transformação a nível internacional, com impacto direto em Portugal.
No caso da defesa, a guerra na Ucrânia e as tensões mais recentes no Médio Oriente tornaram evidente para os países europeus a necessidade de reforçar a sua soberania e capacidade de resposta. Neste novo contexto, a indústria europeia assume um papel central, não apenas para responder às exigências operacionais, mas também para acompanhar a evolução tecnológica da guerra ao nível das operações.
É, por isso, um momento crítico de investimento. Mas esse investimento deve ser encarado como uma oportunidade estratégica, e não apenas como um custo, através da promoção de colaboração industrial, transferência de tecnologia e capacitação dos atores nacionais.
No setor espacial, assistimos igualmente a uma mudança de paradigma, entre a contínua miniaturização e acessibilidade das soluções espaciais, novos atores internacionais como a China e a Índia, um crescimento significativo de atores privados e as preocupações acrescidas ao nível da segurança e defesa. Estas dinâmicas estão a alterar profundamente o mercado, criando oportunidades para países como Portugal entrarem em cadeias de valor altamente competitivas e, como já demonstram os programas ligados ao lançamento recente de satélites, visando a operacionalização de diversas constelações nacionais com múltiplas aplicações, de se tornar mesmo um ator de referência.
Já na aeronáutica, apesar do desafio recente da aviação com o jet fuel, o setor continua em forte crescimento, com um backlog muito significativo por parte dos principais fabricantes. As cadeias de fornecimento estão sob pressão e há uma procura ativa por novos parceiros. Portugal surge neste contexto como um ator emergente, com competências consolidadas que importa saber posicionar estrategicamente.
O programa reforça a componente de defesa, com um Defence Industry Forum dedicado exclusivamente ao setor. Que mensagem quer a AED passar sobre o papel da indústria portuguesa de defesa neste novo ciclo europeu?
Considerámos fundamental dedicar um dia exclusivamente à defesa. A densidade e a complexidade dos temas atuais já não são compatíveis com uma abordagem agregada dos três setores num único dia. Este formato permite-nos promover uma discussão mais aprofundada sobre oportunidades, desafios operacionais e inovação tecnológica associada às novas exigências do setor da defesa.
Se Portugal não se posicionar estrategicamente, outros o farão. É essencial garantir que o país participa ativamente neste esforço, não apenas como utilizador de capacidades, mas como produtor de tecnologia e conhecimento
A mensagem é clara, estamos perante um novo ciclo europeu de investimento significativo em defesa. Se Portugal não se posicionar estrategicamente, outros o farão. É essencial garantir que o país participa ativamente neste esforço, não apenas como utilizador de capacidades, mas como produtor de tecnologia e conhecimento. Para isso, é indispensável fomentar uma maior articulação entre atores públicos e privados e reforçar a colaboração interna, criando massa crítica e capacidade de resposta conjunta.
Neste contexto de instabilidade geopolítica e maior investimento em defesa, há quem defenda que Portugal não deve limitar-se a comprar soluções, mas também desenvolver capacidades industriais e tecnológicas próprias. Em que áreas vê maior potencial para a indústria nacional?
Hoje existe um entendimento alargado de que Portugal não se deve limitar à aquisição de soluções, mas deve utilizar este contexto para desenvolver capacidades industriais com retorno económico. Essa é, aliás, a abordagem seguida pela larga maioria dos países e é essencial que também saibamos jogar esse “jogo”.
Existem várias áreas com elevado potencial. Por um lado, nichos onde o país já demonstra competências diferenciadoras, como os sistemas autónomos, onde há capacidade para desenvolver produto próprio e competir a nível internacional para todas as Forças Armadas.
Por outro lado, uma parte muito relevante da estratégia passará pela integração nas cadeias de valor internacionais, associadas às grandes plataformas – aéreas, marítimas, terrestres ou espaciais –, que exigem cadeias de fornecimento altamente especializadas. Portugal tem competências técnicas, tanto na defesa como em setores adjacentes, que podem ser alavancadas para esse posicionamento.
O encontro vai incluir um espaço de discussão específica para o setor espacial. Que oportunidades concretas podem surgir deste encontro para o ecossistema espacial português?
No caso do setor do espaço, procurámos ir além de um momento de discussão e criámos também uma área dedicada de exposição, precisamente para refletir o crescimento cada vez mais evidente deste setor em Portugal.
Este espaço permitirá, por um lado, aumentar o conhecimento dentro do ecossistema e, por outro, identificar e articular os diferentes atores que contribuem para o seu desenvolvimento, desde entidades de financiamento e empreendedorismo até à investigação e inovação.
Num setor como o espacial, o acesso à rede certa e à informação estratégica é um fator crítico de sucesso. É exatamente isso que pretendemos potenciar
Adicionalmente, será uma oportunidade para aproximar atores nacionais e internacionais, promovendo a discussão dos principais desafios e tendências do setor e os seus modelos de negócio, num contexto global altamente competitivo.
Num setor como o espacial, o acesso à rede certa e à informação estratégica é um fator crítico de sucesso. É exatamente isso que pretendemos potenciar, criar as condições para que Portugal se posicione e diferencie cada vez mais, reforçando a sua presença em cadeias de valor internacionais. Este é um primeiro passo, que esperamos consolidar e expandir nas próximas edições, acompanhando o crescimento do setor a nível nacional.
Em matéria de sustentabilidade, a mobilidade aérea avançada e a aviação verde serão também temas em debate. Portugal pode ter um papel nesta transição do setor?
Sem dúvida. Por um lado, a mobilidade aérea avançada é ainda uma área emergente, com novos atores integradores, novos modelos de negócio e forte disrupção tecnológica, o que as torna particularmente acessíveis a novos entrantes. Representa por isso oportunidades estratégicas para Portugal, precisamente por não existirem ainda posições totalmente consolidadas a nível global.
Adicionalmente, a sustentabilidade e aviação verde é um eixo central do futuro da aviação. Portugal já está a posicionar-se neste domínio, nomeadamente através da assinatura do Memorando de Colaboração com o Clean Aviation, onde temos vindo a promover o envolvimento cada vez maior do ecossistema nacional. Mas temos de garantir que as entidades portuguesas estão na linha da frente do desenvolvimento e industrialização destas tecnologias do futuro, que vão ditar o sucesso deste setor.
Que resultados concretos fariam desta uma edição de sucesso para a AED e os seus associados?
Os AED Days têm como principal objetivo gerar impacto real para os associados e para o ecossistema. Será uma edição de sucesso se, como sempre, conseguirmos reforçar o conhecimento sobre tendências globais, de forma a melhorar o posicionamento estratégico das empresas portuguesas nestes setores e facilitar o acesso a novos contactos e parcerias, e com isso potenciar cada vez mais o impacto e retorno económico. Tudo possível apenas numa lógica de grande colaboração entre todos os atores públicos e privados nacionais.
No fundo, o sucesso mede-se pela capacidade de criar oportunidades concretas de desenvolvimento de negócio, colaboração e inovação, num conjunto de indústrias que são, por natureza, exigentes, complexas e fortemente competitivas.
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