“Chegou, acabou”. Os cromos do Mundial são um “pedaço de história” que escasseia

Rafael Correia e ,

"A gráfica está a trabalhar 24 horas por dia, sete dias por semana. Creio que, em poucos dias, a situação estará praticamente normalizada", antecipa Lluis Torrent, diretor-geral da Panini Espanha.

Leonor Gonçalves/ECO

O baralho de cromos está deitado no chão do recreio, na escola. À volta, sentados numa roda, um grupo de crianças tenta a sua sorte. O objetivo é “bater bafão”, ou seja, através do ar criado com o movimento da mão a bater na superfície, tentar virar os cromos do avesso. O jogador que conseguir conquistar mais cromos é o vencedor. A popularidade nas últimas semanas do jogo do bafo, também conhecido como jogo do bafão, é o reflexo de um ‘fenómeno’ que se repete a cada Mundial, mas que, este ano, parece ter adensado substancialmente — a corrida às cadernetas de cromos. A coleção oficial de cromos Panini FIFA World Cup 2026 tornou-se num bem raro.

Num momento em que várias papelarias e tabacarias por todo o País veem caixas e caixas de cromos a voar das suas prateleiras e onde encontrar uma caderneta é como encontrar uma agulha no palheiro, miúdos e graúdos tentam a sua sorte para meter as mãos neste bem considerado precioso. Desde trocar cromos nas escolas, mas também com lojistas que aderiram à moda, ou nos locais de trabalho e em centros comerciais, “a febre” toca a todas as gerações.

A Loucura nas Tabacarias — “Chegou, Acabou”

Na Tabacaria Naresh, perto da pastelaria Califa, na fronteira entre São Domingos de Benfica e Benfica, a procura “tem sido uma loucura”, com as vendas de cromos a tornarem-se o foco principal. “Vêm pessoas de todas as idades comprar. Desde os mais velhos até aos mais novos”, explica Inês Vaz, dona do estabelecimento há cinco anos.

No momento em que o +M visita o espaço, a pequena fila estendia-se para jogar no Euromilhões ou tentar a sorte na raspadinha e ainda há uma caixa de cromos à espera de algum sortudo. Mas Inês duvida que o pacote dure uma hora. Dos 1700 cromos que havia recebido no dia anterior, já são poucos os que restam. E apesar de ter encomendado dois mil para o dia seguinte, confessa que não sabe se os vai receber. Mais difícil tem sido garantir cadernetas para a venda. “Há muito tempo que na papelaria já não conseguimos mandar vir”, confessa, revelando ainda que “não há previsões” para a chegada de novos exemplares por parte dos fornecedores.

Nesta tabacaria, Inês afirma que “nunca” viu nada assim. “Até mesmo os fornecedores dizem que é incomparável.” A lojista partilha o exemplo de uma amiga que mora na Madeira. Sem encontrar cromos na ilha, o pai desta amiga aproveitou uma reunião em Lisboa para levar duas caixas, num valor total de 150 euros.

A poucos passos dali, na tabacaria do Centro Comercial Fonte Nova, Yuren confirma o mesmo fenómeno. “Na semana passada, os cromos chegaram às 09h00 e às 18h00 já não tínhamos nada. Chegou, acabou“, enfatiza. “A caderneta é a primeira coisa a esgotar. Depois, os cromos vão ao longo do dia acabando”, revela ainda. Para contornar esta escassez, a tática de muitos adultos tem passado pela compra em volume.

O olhar dos entusiastas não se tem desviado, com o foco apenas nos cromos do Mundial. “Já vieram pais comprar cadernetas genéricas de futebol para os filhos, mas depois voltam para pedir a troca. É mesmo a do Mundial que eles querem”, apesar de a tabacaria comercializar outros cromos do futebol, inclusive da Seleção Nacional.

Já Inês nota que “há muita gente que não sabe dizer o nome. Avós inclusivamente que compram para os netos e dizem apenas ‘cromos’. Já sei intuitivamente do que é que é. Basta perguntar se é do Mundial e as pessoas dizem que sim”, confessa. Conta ainda que tem recebido várias chamadas de pessoas que não conhece a pedir para guardar caixas de cromos.

No final do dia, a procura em alta e o fenómeno intergeracional levou os lojistas ouvidos pelo +M a ponderar também eles fazerem a coleção. Inês Vaz chegou a tomar o passo em frente, tendo iniciado a sua sorte com os cromos, o que levou a algo curioso. “Há aqui escolas ao lado e os miúdos sabem que faço coleção. Estão sempre à espera de manhã que chegue para trocarmos cromos. É engraçado“, nota.

Razões para o fenómeno? “Já vi muita internet e já falei com várias pessoas, e dizem que tem o facto de ser o último Mundial do Ronaldo, do Messi… e que supostamente vai valer muito dinheiro essa caderneta. Não sei se é verdade ou não”, teoriza Inês.

A Matemática da Coleção

Atrás da nostalgia, escondem-se números surpreendentes. No site oficial da Panini, os produtos escasseiam, como a caderneta — 5 euros — à caixa de 50 saquetas — 75 euros.

O nível de exigência (e o custo) da coleção acompanhou a expansão desportiva da prova. Se, na clássica edição de 1970, bastavam 270 cromos para preencher o álbum, a edição atual exige uns 980 cromos — um reflexo também direto do aumento da competição de 32 para 48 seleções. Com cada saqueta de sete cromos a custar 1,50 euros — o que resulta em 21 cêntimos por cromo –, um cenário de caderneta completa sem repetições implicaria gastar cerca de 210 euros.

A realidade, no entanto, é bem mais dura. Como lembrou a Rádio Renascença, um modelo probabilístico desenvolvido por Paul Harper, professor de Matemática da Universidade de Cardiff, estimou, para o Mundial de 2018 na Rússia, que para completar a caderneta — naquele ano de 682 cromos — seriam necessários comprar 967 pacotes ou 4.832 cromos, com um custo na altura de 773,60 libras esterlinas (895,24 euros). Transportando o modelo matemático utilizado na altura para a atualidade, teria de se adquirir 7.316 cromos e gastar 1.569 euros para terminar a caderneta deste Mundial.

Esta barreira matemática alimenta o mercado secundário, onde os preços fogem ao controlo das bancas. Em plataformas online como o OLX, existe quem venda cromos do Cristiano Ronaldo a valores até 2.500 euros. O Portal da Queixa revelou nesta quarta-feira que já tinham sido registadas mais de 60 reclamações a denunciar esquemas fraudulentos associados à venda online de cadernetas e cromos do Mundial.

Gráficas a 24 horas e o peso de uma despedida

Com a procura em alta, Lluís Torrent, diretor-geral da Panini Espanha — que supervisiona a subsidiária portuguesa — , revela ao +M, que a empresa está a “colmatar a atual escassez através de uma reposição contínua”. “A gráfica está a trabalhar 24 horas por dia, sete dias por semana. Creio que, em poucos dias, a situação estará praticamente normalizada. Contudo, insisto que o produto está a ser reposto no mercado de forma gradual”, avança, em resposta ao +M.

O responsável nota que a receção à caderneta deste Mundial “está a surpreender” a Panini, “pela rapidez com que se ‘despertou’ o interesse”. “É possível que o facto de incluir 48 seleções tenha gerado maior interesse nos 132 países onde temos a coleção no mercado. A campanha de publicidade e comunicação é a que realizamos regularmente para este tipo de eventos”, explica Lluís Torrent, quando questionado sobre que motivos podem estar a gerar este fenómeno.

O que justifica esta procura elevada? Miguel Guerra, ávido colecionador de cromos, mas também responsável pela Nossa Sports, tem uma visão clara sobre o fenómeno. “Vejo de forma completamente natural. Quando era miúdo havia um senhor nos Restauradores com cromos para trocar, havia filas, havia a obsessão de completar a caderneta antes do Mundial começar. O ritual nunca morreu. As redes sociais só o tornaram visível a uma escala diferente“, argumenta o managing director da agência criativa.

Miguel Guerra explica que “um miúdo a abrir saquetas no TikTok tem hoje o mesmo alcance que uma campanha de televisão“. “Numa modalidade como o futebol que é a maior máquina de criar emoções em massa que existe, a caderneta é uma das formas mais antigas de as pessoas sentirem que fazem parte da narrativa e de se aproximarem dos seus ídolos“, enfatiza. A isto junta-se a mecânica viciante das blind boxes e dos colecionáveis. Questionado se existiu uma transferência desta moda para o fenómeno dos cromos, o especialista explica que “é o mesmo instinto de sempre”. “Não sabemos o que vem na saqueta, e isso é suficiente para nos prender”, relata.

Há, contudo, também um fator emocional e de escassez a alavancar este Mundial. “Vamos muito provavelmente ver o Ronaldo, o Messi, o Modric numa fase final pela última vez. As pessoas sabem isso. O cromo do Ronaldo nesta caderneta não é igual ao do Mundial anterior, é possivelmente o último. Um colecionável ligado a uma despedida tem um valor emocional completamente diferente, e esse valor cresce se a ele estiver associado sucesso desportivo”, explica o especialista.

O potencial ‘subaproveitado’ dos colecionáveis

A Coca-Cola marca presença na edição deste ano da caderneta com duas páginas exclusivas. Para Diogo Estevinho Martins, diretor de marketing da Coca-Cola para Portugal, a viralização dos cromos deste ano “mostra algo muito interessante”. “Num contexto cada vez mais digital, continua a existir uma forte procura por experiências físicas, emocionais e partilháveis“, considera, lembrando que as cadernetas da Panini fazem parte da memória coletiva e têm “uma capacidade única de unir fãs através da nostalgia, da troca e da coleção”. Sobre a parceria com a Panini, destaca que permite à marca “entrar num território muito emocional e autêntico para os fãs“.

Na sua visão, a edição deste ano conta com “um simbolismo especial”, ao reunir algumas das maiores referências do futebol e uma nova geração de talentos da modalidade. Para o potenciar, a marca decidiu envolver-se diretamente.

Há uma diferença importante entre patrocinar um momento e participar ativamente numa tradição cultural que atravessa gerações”, destaca o responsável. Esse envolvimento materializa-se além do papel, com o lançamento de embalagens exclusivas de Coca-Cola a representar nações como Portugal, Brasil e Cabo Verde — tendo esta última sido desenvolvida em exclusivo para o mercado nacional, assinalando a estreia histórica do país na prova.

Para o diretor de marketing, o universo dos colecionáveis já faz parte da história da empresa, mas ganhou agora uma nova dimensão. “Existe uma valorização crescente de objetos físicos com significado emocional, identidade visual forte e potencial de partilha, algo que vemos em áreas tão diferentes como a música, o gaming, a moda ou o desporto”.

Para a Coca-Cola, faz sentido estar presente em momentos culturais e emocionais que geram conversa, comunidade e ligação entre pessoas, e este fenómeno [dos cromos] é um excelente exemplo disso”, conclui Diogo Estevinho Martins.

Apesar de marcas como a Coca-Cola já terem aproveitado a onda e perceberem este valor, Miguel Guerra alerta que o mercado europeu continua subaproveitado no que toca à colecionismo desportivo. “Tenho uma carta do Futre de 1984, uma do Cristiano ainda no Sporting, uma da Kika Nazareth numerada em 199 exemplares, digo isto não como colecionador, mas como alguém que pensa estratégia de atletas e marcas todos os dias. Há cartas do Ronaldo e do Messi que valem centenas de milhares de euros. Não é nostalgia, é um pedaço de história que ali está“, nota.

Na perspetiva do diretor da Nossa Sports, o mercado europeu mantém uma “relação muito purista, restritiva e comercialmente atrasada nestes aspetos, o que trava este mercado”. “Nos EUA isso não existe, uma carta associada a uma marca faz parte da história do momento, não a desvaloriza“, contrapõe.

É precisamente esta mudança de paradigma económico que considera justificar a mudança futura nas cadernetas. A partir de 2031, a longa união com a Panini — em vigor desde 1970 — dará lugar a um novo acordo com a Fanatics e a Topps. “Eles não vão fazer apenas cadernetas, vão transformar momentos de carreira em ativos com valor real. Para quem trabalha na construção de desporto, é uma oportunidade que a Europa ainda não soube capitalizar. Será que o consumidor vai aderir da mesma forma?“, interroga.

Questionado sobre como a Panini planeia mitigar o impacto do fim da parceria, Lluís Torrent nota que a empresa está “a trabalhar intensamente nesta área e publicará a coleção nos futuros campeonatos mundiais”.

A resposta ditará o futuro deste mercado já milionário. Mas, por agora, no asfalto do recreio, a preocupação é apenas uma. Bater o melhor “bafão” possível e rezar para que saia aquele cromo que ainda falta.

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