Jaecoo 7 convence ao longe e complica ao perto
Um SUV chinês que convence na silhueta, no espaço, no sistema híbrido e no preço, mas que trai a ambição premium nos detalhes que só se descobrem a viver com ele no dia-a-dia.
A primeira vez que o Jaecoo 7 apareceu à porta de casa, o vizinho correu à rua a confirmar se tinha comprado um Range Rover Velar. Não tinha, mas percebe-se o engano e a Jaecoo percebe-o ainda melhor do que nós. A marca nasceu sob o guarda-chuva da Chery Automobile, gigante chinesa que há décadas exporta carros para o mundo com uma ambição proporcional à dimensão do país de onde vem. O nome Jaecoo vem do alemão “Jäger” (caçador) mais “cool” — sim, literalmente “caçador cool” — e foi criado especificamente para mercados de exportação, numa estratégia a dois flancos com a sua marca-irmã Omoda.
O Jaecoo 7, que chega ao mercado na versão híbrida plug-in (PHEV), é a joia da coroa desta ofensiva: um SUV com pretensões a premium com um preço longe dos valores de um carro dessa gama e uma silhueta que já enganou mais do que um conhecedor de automóveis.
A Europa está a ser conquistada carro a carro pelas marcas chinesas e Portugal não é exceção: a Jaecoo chegou ao mercado nacional com uma proposta direta ao bolso do consumidor que quer mais carro por menos dinheiro — embora “menos dinheiro” seja um conceito relativo quando se chega à primeira portagem e se descobre que o Jaecoo 7 PHEV paga Classe 2 (a não ser que use Via Verde, que face a uma aprovação há cerca de um mês passa a pagar classe 1).

Partimos rumo a Alferrarede Velha, uma pequena localidade perto de Abrantes, numa viagem de fim de semana em família ate “à terra”, numa mistura de nacionais e de A23 que serve de banco de ensaio perfeito para qualquer carro com pretensões de todo-o-terreno e viagem. A estrada nacional castiga suspensões, a autoestrada revela consumos e a aldeia testa o bom senso de quem conduziu até lá.
O Jaecoo passou em alguns aspetos e ficou em dívida noutros, mas nunca foi aborrecido, o que para um SUV de cerca de 40 mil euros é o mínimo que se pode pedir.
Do lado de fora, a semelhança com o Velar é inegável: a linha de cintura alta, os faróis rasgados, a frente imponente e a postura de quem chegou para impressionar. A questão é o que acontece depois de se abrir a porta.
A sensação inicial é de requinte. A sensação a médio prazo é de alguns plásticos que não convencem — superfícies brilhantes em zonas de contacto frequente que revelam que o orçamento acabou antes de chegar ao porta-luvas.
O interior é generoso no espaço, com bancos traseiros com lombada larga, teto panorâmico enorme que se abre e inunda a cabine de luz, um piso praticamente plano que facilita a vida às crianças no banco de trás. Na viagem para Abrantes, houve espaço para malas, bicicleta desmontada, cesto de mercearia e o inevitável saco de “não sei o que é isto mas vem para a terra”.
A sensação inicial é de requinte. A sensação a médio prazo é de alguns plásticos que não convencem — superfícies brilhantes em zonas de contacto frequente que revelam que o orçamento acabou antes de chegar ao porta-luvas. Não é um problema grave, mas é um aviso: isto não é um Velar, é uma citação do Velar.
O coração híbrido plug-in é um dos argumentos mais fortes do carro. O motor a combustão de 1.5 litros turbo e o elétrico trabalham em boa harmonia, e a gestão entre ambos é inteligente: o carro prefere o modo elétrico sempre que pode, e a regeneração em travagem é eficaz.
Na autoestrada, com a bateria carregada, os consumos ficaram muito abaixo do que seria de esperar num SUV desta dimensão. A autonomia elétrica de até 90 km (WLTP) é realista e ajuda a suavizar o consumo, particularmente para viagens diárias casa-trabalho. Para quem carrega em casa à noite, este carro pode passar semanas sem ver uma bomba de gasolina. Para quem não carrega… está a pagar 40 mil euros para carregar um bateria às costas sem lhe tirar partido, o que é um desperdício com nome próprio.
Há, no entanto, um conjunto de pequenas irritações que, juntas, constroem uma narrativa de produto ainda em afinação: A mudança de marcha-atrás para drive, e vice-versa, exige sempre dois toques no seletor de coluna e não uma transição automática, o carro só arranca com o cinto do condutor colocado — o que parece uma medida de segurança sensata até à décima vez que se esquece disso em frente ao portão da garagem –; e o sistema de monitorização do condutor, que avisa cada vez que desvia o olhar do ecrã para tentar perceber onde está o botão do desembaciador, é do tipo que faz companhia quando não queríamos companhia.
A qualidade da suspensão foi a questão mais discutida a bordo, particularmente porque os buracos da estrada fazem-se sentir com impacto e a amortecimento tem uma qualidade irregular que destoa do resto do pacote. Nas estradas nacionais entre Constância e Abrantes, onde o asfalto tem uma relação complicada com a manutenção municipal, o Jaecoo mostrou que ainda tem trabalho a fazer. Na A23, porém, flutuou com dignidade.
A grande questão que se coloca a uma família resume-se à tradicional equação “value for money”, e a resposta não é simples. A cerca de 40 mil euros, o Jaecoo 7 PHEV concorre com um Volkswagen Tiguan híbrido, um Hyundai Tucson PHEV ou um Kia Sportage PHEV, todos com mais anos de afinação e com garantias de assistência técnica estabelecidas.
A Jaecoo oferece uma garantia de sete anos ou 150.000 km e um pacote visual e de equipamento que faz o carro parecer mais caro do que é, o que, para muitos compradores, é metade da proposta de valor. A outra metade ainda está a ser construída, atualização de software a seguir a atualização de software.
O Jaecoo 7 PHEV é um carro que impressiona antes de ser comprado e que se revela mais complexo depois. Tem alma suficiente para fazer a viagem à terra, espaço para acomodar a família toda sem compromissos e um sistema híbrido que poupa dinheiro a quem o usa bem. Contudo, pede que o condutor o aceite com as suas imperfeições — os plásticos que sobressaem e os dois toques obrigatórios na mudança de marcha. Chama-se a isso caráter… ou chama-se a isso obra em construção. Em 40 mil euros, o consumidor tem o direito de exigir que a resposta seja clara, e a Jaecoo ainda não a deu por inteiro.
(Texto corrigido às 10h23 de dia 25 de maio com a alteração do pagamento nas portagens de classe 2 para classe 1 com Via Verde, em função de uma aprovação feita há cerca de um mês, dias depois de um ECO ter feito o ensaio num modelo com Via Verde)
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