BRANDS' ECO Empresas querem usar IA na fiscalidade, mas primeiro têm de “arrumar a casa”
Para os participantes na Tax Compliance Summit 2026, o maior desafio já não é tanto perceber o potencial da ferramenta, mas sim conseguir preparar organizações, equipas e modelos de governação.
A transformação digital da fiscalidade esteve no centro da sessão da tarde do Tax Compliance Summit 2026, promovida pela Sovos, empresa tecnológica especializada em compliance fiscal e regulatório, que decorreu em Lisboa. Nos debates sobre a aplicação inteligência artificial (IA) na área fiscal, os desafios fiscais globais e as oportunidades de competitividade foram temas centrais.
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“IA aplicada à função fiscal” juntou Joni Marques (MC Sonae), Frederica Pinto (Zagope Group), Antonieta Moura (Salvador Caetano) e Manuela Cordeiro (NOS) -
“Crossfire | Academia vs. Mundo Real” juntou Carlos Lobo, Founding Partner da Lobo, Carmona & Associados, e Rita Calçada Pires, NOVA School of Law e Diretora do NOVA Tax Research Lab -
“Desafios fiscais globais e oportunidades de competitividade” juntou André Teixeira (Adidas), Pedro Fino (Grupo Pestana), João Leitão (Grupo Brisa) e Mafalda Vasconcelos (EDP)
No painel sobre a aplicação prática da IA na função fiscal, Joni Marques observou que a inteligência artificial já está implementada na MC Sonae há bastante tempo, sobretudo naquilo que é o negócio, no entanto, em funções fiscais ainda está numa fase experimental. As pessoas já perceberam que a IA é uma ferramenta de apoio que é preciso explorar para tornar os processos mais eficientes, mas que “ainda não dá as respostas certas, não podemos confiar absolutamente, a informação tem de ser validada. Estamos a aprender a fazê-lo e a saber contrariá-las”, apontou o head of tax da empresa.
Para Frederica Pinto, o crescimento internacional da Zagope, onde assume as funções de head of tax, obriga a adaptar equipas e estruturas às diferentes realidades regulatórias e fiscais de cada mercado onde opera. Os processos de integração entre diferentes mercados e estruturas são fundamentais para o negócio. No entanto, cada país, pelas suas características, tem o seu próprio ritmo de evolução tecnológica e fiscal, uma das razões por que, sublinhou, a empresa tem sido cautelosa na adoção da IA de forma mais abrangente, remetendo esse momento para quando o ecossistema estiver preparado: “Vamos avançando, mas passo a passo”.
A diretora da Salvador Caetano, Antonieta Moura, admitiu que a IA generativa já é usada intensivamente dentro da empresa como instrumento de produtividade pessoal. Porém, quando aplicada à estrutura em Portugal e no resto do mundo, “isso é outra conversa completamente diferente”, destacando a necessidade de rever processos, atualizar e validar dados, gerindo entre a expectativa inicial e a realidade atual: “Estamos a limpar o chão, a arrumar a casa”. De acordo com a responsável, a formação será decisiva para a aplicação da IA na área fiscal.
Temos de trabalhar na qualidade dos dados, que ainda se encontram muito dispersos antes de escalar a IA na área financeira e fiscal. Estamos muito expectantes
Manuela Cordeiro, head of tax da NOS, referiu que a IA já é uma opção estratégica na organização, que na área fiscal “ainda está numa fase inicial”. A empresa preocupou-se em dar formação aos colaboradores neste âmbito para disseminar a tecnologia e até desenvolveu “um NOS GPT” interno para motivar a experimentação: “Temos de descobrir tudo o que esta tecnologia nos pode oferecer para redesenhar os nossos processos, sobretudo aqueles em que nos encontramos mais atrasados. Temos de trabalhar na qualidade dos dados, que ainda se encontram muito dispersos antes de escalar a IA na área financeira e fiscal. Estamos muito expectantes”, concluiu.
O impacto da IA nas equipas financeiras e fiscais
Na Adidas, grupo alemão presente em quase todos os países da União Europeia (UE), “a centralização das funções e responsabilidades tornou-se essencial” para dar apoio a todas as empresas, descreveu André Teixeira, senior manager de soluções de compliance digital, no painel sobre desafios fiscais. Embora o recurso à IA ainda esteja numa fase embrionária, a criação de equipas dedicadas, a formação e a harmonização de processos é já uma realidade.
“Cada vez que entramos num novo país é começar tudo do zero e tentar adaptar-nos à realidade desse país através de parceiros locais acompanhados por equipas centrais”, resumiu Pedro Fino, diretor financeiro do Grupo Pestana, sobre a gestão de operações em múltiplos mercados. O crescimento internacional aumenta a complexidade operacional das empresas, exigindo maior coordenação entre equipas, estandardização de processos e crescente capacidade de adaptação tecnológica, o que obriga à adoção de um novo perfil das pessoas. Este “é um desafio grande, devido à escassez de talento”, para continuar a alimentar o crescimento: “Temos de investir na capacidade de transformação e de supervisão destes novos sistemas”.
Na IA, estamos numa fase que mistura entusiasmo com receio e acelerar a sua adoção passa muito pelo conhecimento
O Grupo Brisa está a crescer e a internacionalizar-se. O responsável fiscal, João Leitão, referiu que o objetivo passa por “acrescentar valor e ajudar a melhorar” junto das operações locais, defendendo modelos de integração mais próximos das subsidiárias e menos centralizados. Em relação à IA, “estamos numa fase que mistura entusiasmo com receio e acelerar a sua adoção passa muito pelo conhecimento” e de “transformação das funções das pessoas, que deixam de ser meros executantes para passarem a gestores de IA”, rematou.
A fiscalidade é uma área determinística. O cálculo do imposto é um número, não é uma probabilidade
Para Mafalda Vasconcelos, o impulso para a adoção de IA na EDP foi o modelo de governance da energética e já está enraizada em várias áreas. Já a sua aplicação nas áreas financeira e fiscal encontra-se, antes de mais, dependente da qualidade dos dados, da interoperabilidade entre os sistemas e das pessoas. A diretora-executiva de contabilidade e fiscalidade insistiu na necessidade de preparar previamente a organização para “esta nova forma de trabalhar”. Isto inclui formar pessoas, adaptar processos e criar novas competências, alertando ainda para um dos principais desafios da tecnologia na área fiscal: a confiança nos resultados. Esta é “uma área determinística. O cálculo do imposto é um número, não é uma probabilidade”, afirmou, lembrando que os modelos de IA ainda trabalham sobretudo com lógica probabilística.
Academia e setor privado sobre o futuro da fiscalidade
O “Crossfire: Academia vs. Mundo Real” colocou frente a frente Carlos Lobo, founding partner da Lobo, Carmona & Associados, e Rita Calçada Pires, professora da NOVA School of Law e diretora do NOVA Tax Research Lab, num debate marcado por visões diferentes sobre o futuro da administração fiscal, o papel dos dados e o impacto da inteligência artificial na relação entre Estado e contribuintes.
Do lado da academia, Rita Calçada Pires referiu que a Europa continua ligada a um modelo, de base social, mais regulado, protetor e consequentemente mais lento do que os Estados Unidos ou a China, alertando para o facto de isso a colocar em desvantagem. A professora e diretora da NOVA acredita ser possível recuperar, mas com dificuldades, defendendo a necessidade de preservar princípios como confiança, proporcionalidade e proteção dos contribuintes. “A questão é não abdicar dos princípios estruturantes”, frisando que a utilização intensiva de dados e IA não pode comprometer garantias fundamentais do sistema fiscal.
Já Carlos Lobo apresentou uma visão mais crítica dos Estados europeus: “A Europa ainda tem a ilusão de que o Estado é uma entidade autónoma com princípios diferenciados que muitas vezes gera ineficiência do mercado”, apontou Carlos Lobo, enquanto um chinês ou norte-americano olham para o “Estado enquanto parceiro do mercado”. Em Portugal, o Estado ainda é visto como entidade autónoma, superior, formalista e “napoleónica”, ou seja, legalista e autoritária.
A administração fiscal tem de deixar de ser uma autoridade cobradora de impostos para passar a ser a entidade gestora da informação global e parceira do contribuinte
De acordo com o fiscalista, “a Administração fiscal tem de deixar de ser uma autoridade cobradora de impostos para passar a ser a entidade gestora da informação global e parceira do contribuinte”, apelando a maior automatização, interoperabilidade, descentralização e simplificação dos processos fiscais.
Apesar das diferenças de abordagem, ambos concordaram que os dados são o futuro, pelo que a governação fiscal deverá assentar na gestão inteligente de dados e que a administração tributária não pode continuar a operar apenas na lógica tradicional de cobrança e inspeção.
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