BRANDS' ECO Europa prepara nova era de faturação e reporte digital
As novas regras europeias de conformidade estão a acelerar uma digitalização fiscal sem precedentes. O papel das administrações fiscais e das empresas esteve em destaque no Tax Compliance Summit.
Nos últimos anos, a digitalização contribuiu para a redução da burocracia em diversas vertentes da administração pública e acelerou a transição dos documentos e faturas em papel para formato digital. No ano passado, a Europa publicou novas regras que pretendem levar os sistemas fiscais ao nível seguinte.
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Rui Fontoura, Managing Director Europe, Sovos -
Marcus Laube, Owner & CEO, Billentis -
Susana Caetano, Director / Indirect Tax (VAT, Customs and Excise), PwC -
“O Estado da Conformidade Fiscal em 2026” juntou Christiaan van der Valk, Chief Regulatory & Industry Affairs Officer da Sovos, e Anna Nordén, Principal, Regulatory Affairs na Sovos -
“ViDA na Prática: Fatura Eletrónica e e-Reporting – Da Política à Implementação”, moderado por Anna Nordén (Sovos), contou com Eva Mihalova (Ministry of Finance of the Slovak Republic), Salvatore Stanziale (Ministry of Economy and Finance, Italy), Celina Ruiz (Dirección General de Tributos, Spain) e Anne Dullea (Revenue Irish Tax and Customs)
Entre os Estados-membros, a digitalização fiscal avança a diferentes velocidades, mas com um destino comum: um sistema mais digital, com dados em tempo real e interoperabilidade. Estes temas estiveram em destaque no Tax Compliance Summit, organizada pela Sovos, em Lisboa, que recebeu especialistas, decisores, entidades reguladoras e líderes da indústria para debater o novo paradigma fiscal europeu.
No centro da transformação está o Pacote Europeu VAT in the Digital Age (ViDA na sigla em inglês), publicado a 11 de março de 2025 e com aplicação progressiva até janeiro de 2035, que pretende adaptar o sistema europeu de IVA à economia digital.
Entre as principais mudanças está a passagem para faturas eletrónicas estruturadas e para o reporte digital mais próximo do momento da transação, sobretudo nas operações Business to Business (B2B) na União Europeia (UE).
A digitalização das administrações fiscais é um reset total na relação entre empresas, indivíduos e governos
Embora os conceitos possam parecer recentes, na verdade são prática comum na América Latina desde o início do milénio. O Chile foi pioneiro na matéria e introduziu a fatura eletrónica em 2003, modelo que rapidamente se espalhou pelos países vizinhos.
Na Europa, o processo começou mais tarde, mas atualmente já se percorre esse caminho, apontou Christiaan van der Valk. Para o chief regulatory & industry affairs officer da Sovos, a digitalização das administrações fiscais é um “reset total na relação entre empresas, indivíduos e governos” e é expectável que a maior parte do mundo venha a adotar algum tipo de digitalização e faturação eletrónica.
Faturas na base do novo sistema
A partir de 1 de julho de 2030, a faturação eletrónica estruturada e o reporte digital passam a ser obrigatórios para transações B2B entre empresas de diferentes Estados-membros da UE. No novo cenário, as faturas passam a ser documentos legíveis por sistemas informáticos e os dados que contêm serão capazes de “alimentar contabilidade, reportes fiscais e pagamentos”, sublinhou Anna Nordén.
Desta forma, explicou a responsável pela área de regulatory affairs da Sovos, será possível chegar a uma base central da UE que receberá os dados reportados e permitirá aceder à informação “em tempo real ou quase”. Para que esta realidade seja possível, os Estados devem adotar quadros regulatórios em linha com o pacote ViDA, processo que ainda apresenta diferentes níveis de maturidade entre os países europeus.
A primeira experiência com o sistema de faturas eletrónicas foi em 2015. Não está ainda de acordo com os padrões europeus, mas não deverá ser complicado adaptá-lo
Em Espanha, por exemplo, o processo de transição iniciou-se há alguns anos, mas ainda não está concluído. “A primeira experiência com o sistema de faturas eletrónicas foi em 2015. Não está ainda de acordo com os padrões europeus, mas não deverá ser complicado adaptá-lo”, apontou Celina Ruiz, coordenadora da Subdireção-Geral de Impostos sobre o Consumo da Direção-Geral de Tributos de Espanha.
Em 2017, foi introduzido o sistema de informação imediata – já obrigatório para as grandes empresas –, que passará a ser a norma para todos os negócios a partir de 2027. “A administração está a fazer os possíveis para simplificar e tornar o sistema o mais benéfico possível para os negócios”, disse a responsável, assegurando que Espanha está “devagar, mas com segurança, a avançar na direção do ViDA”.
O facto de começarmos do zero torna o processo mais fácil do que se fosse necessário adaptar coisas que já existiam
Outros países europeus, como a Irlanda, iniciaram a mudança recentemente e sem experiências prévias ou sistemas nacionais instituídos, o que não é necessariamente uma desvantagem. “O facto de começarmos do zero torna o processo mais fácil do que se fosse necessário adaptar coisas que já existiam”, considerou Anne Dullea, da Autoridade Fiscal e Aduaneira da Irlanda, sublinhando que o país segue uma implementação faseada dividida, para já, em três fases. O objetivo, referiu, é “garantir uma transição suave para as empresas”.
Já em Portugal, e comparando com o país vizinho, a transição não está tão avançada, particularmente porque Espanha tem em prática sistemas que já correspondem a algumas das exigências europeias. De qualquer forma, até 2035, todos os sistemas nacionais de reporte digital terão de estar alinhados com o enquadramento europeu.
Empresas enfrentam desafios
Se há cerca de dois anos o setor observava de longe a transformação, atualmente as empresas estão “no centro do tornado da faturação e reporte digital”, considerou Marcus Laube, proprietário e CEO da Billentis. O que aparentava ser uma “revolução silenciosa”, mostra agora o seu potencial para mudar processos de pagamento, logística, financiamento e controlo de transações.
A diferença entre as empresas bem preparadas e as restantes estará na governança, na tecnologia e na estratégia
Contudo, alertou, várias empresas ainda encontram barreiras à mudança. Os dados inconsistentes, a dependência dos processos manuais e a multiplicidade de faturas estão entre os principais desafios para as organizações. “A diferença entre as empresas bem preparadas e as restantes estará na governança, na tecnologia e na estratégia”, concluiu.
Não obstante as dificuldades que se impõem aos negócios, há desafios que podem ser minimizados. Em Portugal, a Autoridade Tributária e Aduaneira (AT) é um bom exemplo de progressão digital, mas mantém procedimentos burocráticos e morosos que não contribuem para agilizar o cumprimento das obrigações fiscais.
“É preciso avançar para uma administração mais assente em dados, pré-preenchimento, simplificação e menor intrusão”, afirmou Susana Caetano, diretora da área de Indirect Taxes e Direitos Aduaneiros da PwC. Aplicar as normas previstas no ViDA, defendeu, não implica apenas comunicar mais informação: é necessário garantir que existe capacidade crítica por parte da administração fiscal para a analisar.
Para os especialistas presentes no Tax Compliance Summit, a transformação vai além do cumprimento das normas fiscais e da implementação obrigatória da fatura eletrónica. O caminho é longo e exige redesenhar processos empresariais, modelos fiscais e a própria relação entre empresas e administrações fiscais.
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