Fundo da Sonae Sierra com dinheiro alemão compra lojas do Continente

Braço imobiliário da Sonae monta fundo com Hahn Gruppe e primeiras cinco aquisições em Portugal e Espanha custam 70 milhões. Três hotéis em Lisboa entram em veículo de investimento com americanos.

A Sonae Sierra juntou-se ao alemão Hahn Gruppe para montar um fundo de investimento imobiliário com um volume alvo aproximado de 600 milhões de euros e focado no retalho alimentar do sul da Europa, que acaba de fechar as primeiras aquisições em Portugal e em Espanha.

O portefólio inicial inclui dois supermercados Continente Bom Dia localizados na Marinha Grande e na Benedita, inaugurados em 2025 e 2026. Mas foram desde já garantidas opções de aquisição para mais duas lojas ocupadas igualmente pela insígnia da Sonae MC que lidera o retalho alimentar em Portugal, com essas transações a poderem ser concluídas até ao final deste ano.

Questionada pelo ECO sobre a localização desses imóveis adicionais, a empresa liderada por Fernando Guedes de Oliveira respondeu que são ativos similares e localizados na mesma região, dando continuidade ao portefólio inicial do fundo”. Nos primeiros três meses de 2026, o braço imobiliário do grupo liderado por Cláudia Azevedo baixou os lucros em 31% face ao mesmo período do ano passado, para 20 milhões de euros.

Em conjunto, a carteira nacional no Hahn Sierra Food Retail Fund, obtida através da Magnify Partners, tem uma área locável combinada de cerca de 8.000 metros quadrados. Em paralelo, comprou também um hipermercado da Eroski (grupo Mondragon) no Garbera Shopping Centre em San Sebastián (País Basco, Espanha), construído em 1997 e requalificado há três anos.

A loja do Continente Bom Dia na Marinha Grande foi inaugurada em agosto de 2025

Incluindo já nestas contas as duas opções de aquisição futuras em Portugal, o volume total de investimento nestes cinco imóveis ultrapassa os 70 milhões de euros. O grupo alemão, que atua como gestor de ativos e investimentos desde 1982, avança ainda aos investidores que está em negociações exclusivas para somar outros imóveis avaliados em mais de 60 milhões.

Além de Portugal e Espanha, também Itália está na mira deste veículo destinado a investidores profissionais alemães –– na primeira ronda captou seis institucionais que subscreveram aproximadamente 150 milhões de euros e permanece aberto — e em que a empresa portuguesa tem como parceiro um grupo que diz já ter lançado “com sucesso” mais de 200 fundos imobiliários.

O lançamento deste fundo e estas primeiras aquisições “impulsionam a estratégia de gestão de investimentos da Sonae Sierra para expandir significativamente sua presença na Europa”, aponta Christoph Billwiller, diretor desta área de negócio, reclamando que a empresa portuguesa “oferece acesso privilegiado a oportunidades de investimento atraentes no sul da Europa com fluxos de caixa estáveis ​​e visibilidade de rendimento a longo prazo”.

Já a administração do Hahn Gruppe fala num “sinal forte” com esta primeira movimentação no mercado. Citado igualmente numa nota publicada no LinkedIn, Christoph Horbach frisa como “apenas alguns meses” após o lançamento do fundo, garantiu um “portefólio inicial de alta qualidade” que reflete a sua estratégia de investimento: “ativos de retalho alimentar de primeira linha, com inquilinos de bom crédito, contratos de longo prazo e um perfil de receitas defensivo”.

Três hotéis em Lisboa no veículo com americano

A expansão do negócio de investment management, com a criação de veículos de investimento fora dos centros comerciais e com novos investidores, foi precisamente um dos vetores da nova estratégia traçada em 2021 pela Sonae Sierra, a par da expansão das plataformas de prestação de serviços e da retoma da atividade de promoção imobiliária — a última operação foi aliar-se ao Bankinter Investment para comprar a Torre Oriente, edifício de escritórios com 14 pisos junto ao Colombo.

Já este ano, a Sierra juntou-se ao Crédito Agrícola para lançar o CA Mais Capital, fundo de investimento imobiliário aberto pan-europeu com um investimento inicial de 72,2 milhões de euros e que, como ativos seed, integrou uma participação de 40% no capital de dois centros comerciais da Sonae localizados em Vila Nova de Gaia: o ArrábidaShopping e o GaiaShopping.

Sobre outros ativos em pipeline para serem fechados em breve através deste fundo, antecipa ao ECO “uma diversificação geográfica e por segmento de negócio, baseada numa alocação indicativa que contempla Portugal, Espanha, Alemanha e Itália”. Em termos de segmentos, predomina o imobiliário comercial – centros comerciais, lojas de rua, distribuição alimentar, lojas de restauração e parques comerciais -, “complementado por investimentos em escritórios e outros segmentos, como logística, hotelaria, residências especializadas, saúde e residencial”.

Como anunciou no lançamento do CA Mais Capital, em janeiro deste ano, este instrumento é destinado a clientes particulares, empresas e investidores profissionais que procurem “produtos de baixo risco e com uma rentabilidade atrativa, incluindo distribuição periódica de rendimentos”.

Ainda nesta área do investiment management, empresa nortenha tem vindo a aprofundar a diversificação em termos de setores e de ativos. É o caso da área da hospitalidade, em que acaba de avançar com a aquisição de três ativos hoteleiros em Lisboa, que não quis identificar ao ECO. Isto no âmbito do veículo de investimento que criou com a gigante norte-americana PGIM. Juntam-se ao Hilton com que se estreou no Porto e ao futuro resort turístico de cinco estrelas na Meia Praia, que ainda está em construção em Lagos (Algarve).

Fernando Guedes de Oliveira, CEO da Sonae Sierra

Fundada em 1989 com o nome original de Sonae Imobiliária, a dona do Colombo (Lisboa) ou do NorteShopping (Matosinhos) continua a ser conhecida sobretudo pela atividade core dos centros comerciais. Na reta final do ano passado, em linha com a orientação de criar valor no portefólio na Europa, mais do que construir novos shoppings, fechou um negócio “histórico” para ser o segundo maior gestor de centros comerciais na Alemanha. Por outro lado, desfez-se da posição que detinha num shopping do Brasil (Campinas, no estado de São Paulo) por 95 milhões de euros.

Em perspetiva está igualmente a possibilidade de fechar um grande negócio em Espanha, num consórcio que integra com o norueguês Norges Bank Investment Management, gestor do maior fundo soberano do mundo. Está entre os quatro finalistas na corrida à aquisição dos 17 centros comerciais da família Balkany, num negócio avaliado em cerca de 1,5 mil milhões de euros e em que tem concorrentes como o espanhol Grupo Lar e o francês Klepierre. A Sierra recusou comentar o andamento deste dossiê.

Finalmente, na componente da habitação assinou em março um acordo com a construtora Casais para o desenvolvimento de projetos de construção para o mercado de arrendamento e que marca a entrada da Sierra no segmento ‘Build To Rent’ em Portugal. A joint venture, que tem o primeiro projeto no Porto (Carvalhido) a concluir em 2027, prevê que a empresa liderada por António Carlos Rodrigues desenhe e faça os edifícios, ficando a gestora imobiliária encarregue da promoção, gestão, operação dos ativos e relação com os investidores.

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