Investimento alavanca crescimento este ano, mas sofre das maiores desacelerações da UE em 2027
Bruxelas prevê crescimento do investimento a desacelerar em Portugal, após impulso do Plano de Recuperação e Resiliência, que chega este verão ao fim. Só há três países com abrandamentos superiores.
- O investimento será um dos principais motores do crescimento da economia portuguesa em 2026, mas há riscos no horizonte após o fim do PRR.
- Bruxelas prevê que o investimento cresça apenas 1,6% em 2027, um valor que fica abaixo da média da UE (2%) e aquém dos países que mantêm ritmos elevados.
- Portugal enfrenta o risco de um 'cliff effect' pós-fundos europeus, colocando à superfície o risco de apenas conseguir acelerar o investimento enquanto existe o impulso do PRR.
O investimento será uma das principais forças a puxar pelo crescimento da economia este ano, na visão do Governo e da generalidade das instituições económicas. Porém, os números estão inflacionados pelo pico da execução do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), pelo que o país arrisca a ter uma das maiores desacelerações da União Europeia desta componente no pós-PRR, em 2027.
No final de abril, o Governo cortou a previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano para 2%, na sequência da guerra no Médio Oriente. No entanto, para o Ministério das Finanças, apesar da incerteza internacional poder levar ao adiamento de decisões de investimento, a execução do PRR, cujo prazo termina este ano, e o efeito da reconstrução após as tempestades do início do ano, irão compensar e impulsionar a atividade.
Deste modo, o Executivo aponta para um crescimento do investimento de 5,6% este ano, face aos 3,6% registados em 2025, com um contributo da procura interna (que inclui também o consumo) para a evolução do PIB de 2,5 pontos percentuais. A taxa de aumento esperado é mais otimista do que os 3,9% previstos pela Comissão Europeia, 4,3% pelo Conselho das Finanças Públicas (CFP) e 3,8% pelo Banco de Portugal (BdP).
A revisão do cenário macroeconómico reportado a Bruxelas pelo Governo não inclui o ano de 2027 e o Terreiro do Paço também não o divulgou. Contudo, nas previsões económicas da Comissão Europeia (nas quais, a instituição prevê uma expansão do PIB português de 1,7%), o forte crescimento do investimento este ano, claramente acima da média europeia (2,2%), perde tração rapidamente quando o impulso do PRR começa a desaparecer.
Deste modo, o Executivo comunitário prevê que o investimento suba apenas 1,6% em 2027, um valor que fica abaixo da média da UE (2%) e aquém dos países que mantêm ritmos elevados. Entre um ano e outro, são menos 2,3 pontos percentuais (pp.) de crescimento, uma das maiores desacelerações entre os países da União Europeia. Apenas a Grécia (-6 pp.), Estónia (-4,8 pp.) e Finlândia (-3,5 pp.) apresentam uma redução mais significativa, enquanto o investimento acelera no caso francês ou alemão.
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E os números de Bruxelas não são os mais cinzentos, uma vez que (num cenário de políticas invariantes) o CFP e o Banco de Portugal preveem que o investimento aumente apenas 1,1% e 1,3%, respetivamente, no próximo ano.
Um cenário que revela que o país arrisca a estar vulnerável a um cliff effect pós-fundos europeus, colocando à superfície o risco de apenas conseguir acelerar o investimento enquanto existe o impulso do PRR. E que ganha mais força quando a vizinha Espanha é apanhada na fotografia: as previsões da Comissão Europeia para Madrid apontam para uma subida do investimento de 4,4% este ano e de 2,8% em 2027.
Num país como Portugal, cujo tecido empresarial é dominado por PME, com menor capitalização e baixa produtividade média, ou o setor privado ganha escala suficiente para substituir o Estado como motor do investimento ou a atração de investimento terá de disparar para continuar a suportar as taxas registadas até então.
Nas mais recentes previsões divulgadas em setembro, os números da instituição liderada por Nazaré da Costa Cabral deixam isso a cru, apontando para um aumento do investimento público no PIB de 3% em 2025 para 3,4% em 2026, o nível mais elevado desde 2011, que compara com um crescimento do investimento privado ligeiramente acima de 2%, um ritmo próximo do registado em 2025″.
No relatório do CFP, as perspetivas são apoiadas pela “manutenção de condições monetárias e financeiras ainda favoráveis e pelo esforço de recuperação das intempéries”, embora admita que “o aumento da incerteza e a fragilidade da procura externa a condicionarem as decisões de investimento das empresas portuguesas”.
Contudo, Portugal não está isolado no desafio de continuar a alavancar o crescimento da economia nesta componente no próximo ano. No quadro geral, Bruxelas recorda que o investimento europeu este ano continua a ser sustentado pelo “aumento da utilização de fundos da UE” à medida que o PRR “se aproxima do fim”. Mas segue-se um contexto que, conforme descreve a Comissão Europeia, será particularmente adverso para o investimento privado, com juros mais altos, condições de crédito mais apertadas, margens empresariais pressionadas e elevada incerteza geopolítica.
Ainda assim, e apesar de prever que, na média da UE, o investimento ligado aos equipamentos industriais e empresariais deverá ser o segmento mais penalizado, a Comissão acredita que a construção deverá resistir melhor no curto prazo, enquanto o investimento em software, digitalização e investigação e desenvolvimento vai continuar relativamente resiliente, crescendo perto de 2%.
É neste sentido que a instituição liderada por Ursula von der Leyen insiste que a UE precisa de envidar esforços para um novo grande ciclo de investimento estrutural ligado à defesa, transição energética, competitividade e inteligência artificial (IA) para voltar a ganhar poder económico.
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