Novo regime da mobilidade elétrica dita “incerteza” sobre acesso universal, alerta PwC

Consultora PwC afirma que, no médio prazo, pode existir um isolamento parcial das redes de carregamento elétrico, na sequência da liberalização da mobilidade elétrica.

Portugal tem um novo regime da mobilidade elétrica desde meados do ano passado, sendo 2026 um ano de transição em que os dois – o antigo e o novo – convivem. Olhando ao futuro, a consultora PwC alerta que a continuidade do acesso universal tem pela frente algumas “incertezas”. A médio prazo pode existir um isolamento parcial das redes de carregamento elétrico.

“O novo regime abre possibilidades para diferenciação de modelos de negócio e inovação nos serviços, mas introduz variáveis de incerteza sobre a continuidade de acesso universal”, alerta a PwC, no comunicado que acompanha o estudo “A mobilidade elétrica em Portugal e o percurso de países europeus selecionados”, encomendado pela Goldenergy. No mesmo documento, a PwC observa que a interoperabilidade foi das principais vantagens apontadas ao antigo modelo português, além do acesso à entrada para novos concorrentes.

Na ótica da consultora, “a evolução do mercado português poderá resultar numa rede mais ou menos fragmentada, com implicações diretas na facilidade de comparação de preços, mobilidade entre operadores e concorrência efetiva”.

O regime mais recente, destaca a PwC, traz “uma mudança fundamental: o fim da interoperabilidade obrigatória”. Isto significa que fica nas mãos dos operadores de pontos de carregamento (OPC) a decisão de abrir ou fechar as suas redes a outros operadores, “conforme considerarem mais vantajoso para o seu modelo de negócio”. Esta será uma decisão estratégica entre o isolamento de redes ou parcerias voluntárias de integração.

Em 2025, Portugal contava com 136 OPC licenciados – com os cinco maiores a concentrar cerca de 68% das tomadas. A Galp liderava (28%), seguida da EDP Comercial (15%) e da Powerdot (15%). Nas palavras da PwC, Portugal apresentava “alguma concentração” no que diz respeito às tomadas de carregamento, apesar de contar um “elevado número de players“.

Olhando para o cenário português, os autores aferem que, no curto prazo, “o cenário mais provável é o de interoperabilidade universal via plataformas de roaming, já que existe uma “baixa taxa de utilização das tomadas e a necessidade de otimizar a experiência do utilizador”.

Já a médio prazo, das duas, uma: ou vai existir um isolamento parcial, com redes comercialmente fechadas mas tecnicamente operacionais, ou fica-se por um isolamento reduzido ou nulo, onde a integração via hubs se torna o padrão de mercado. A evolução vai depender de variáveis de incerteza relativamente à densidade da infraestrutura própria que cada operador conseguir desenvolver, do crescimento da procura de carregamento e das decisões políticas.

Nesta última frente, caso aumentem os incentivos governamentais, “a adoção de veículos elétricos acelera e justifica investimentos mais agressivos por parte dos operadores”. Processos de licenciamento mais ágeis também favorecem este mercado. Em relação à infraestrutura, no médio prazo, caso avance rápido e com uma boa distribuição, melhora a concorrência, mas se avançar lentamente cria escassez em zonas críticas e dá poder a poucos operadores. A entrada de novos players favorece concorrência, inovação, transparência e até interoperabilidade. Caso contrário, existirão redes “demasiado fechadas”.

Apesar da incerteza, a consultora realça alguns dos pontos fortes da legislação. “A lei traz avanços claros: pagamentos ad hoc sem contrato prévio (por cartão bancário ou QR code), maior transparência de preços e metas ambiciosas de expansão da infraestrutura”.

Interoperabilidade garante sucesso a França e falta dela trama Espanha. Na Alemanha, nasce do mercado

A PwC olha para os casos de França, Espanha e Alemanha, que dão pistas sobre o que pode ser o futuro da mobilidade elétrica com e sem interoperabilidade obrigatória.

Em França, em 2017, foi imposta a interoperabilidade obrigatória, retirando este país de uma situação inicial fragmentada, com redes isoladas, métodos de pagamento incompatíveis e dados incompletos sobre disponibilidade e preços, para passar a haver “um mercado concorrencial e dinâmico”. “O resultado foi uma das melhores taxas de adoção de veículos elétricos na Europa, com uma experiência de utilizador padronizada e fluida, mesmo entre operadores concorrentes”, concluem os autores do estudo.

Espanha, pelo contrário, optou por um menor envolvimento público na rede. Gigantes do setor energético, como a Repsol, Iberdrola e Endesa investiram nas suas redes, “frequentemente fechadas aos concorrentes”. Neste contexto, emergiram Mobile Service Providers (MSP), como a Electromaps, que funcionam como agregadores para mitigar a falta de interoperabilidade. “Embora Espanha tenha registado uma adoção considerável, o mercado caracteriza-se por menor transparência de preços e pela necessidade de múltiplas aplicações para aceder a diferentes redes”, relata o estudo.

Na Alemanha, a interoperabilidade também não é obrigatória, mas a PwC observa um padrão de “integração crescente” dos operadores, em plataformas de roaming. Isto porque “a fragmentação muito elevada no segmento de OPC (muitos pequenos operadores) e a concentração reduzida de MSP criam um incentivo económico para integração”, entende a consultora. Tendo em conta a baixa abrangência dos OPC, a integração em plataformas “tornou-se essencial para manter operadores viáveis e acessíveis”, concluem.

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