“Há espaços mais adequados para celebrações do que a Avenida da Liberdade”
Eric Van Leuven, novo presidente da Associação Avenida, defende os clubes celebrem em outros locais. Também quer ver o espaço público requalificado.

Eric van Leuven, neerlandês a viver em Portugal há cerca de 40 anos, passou 35 anos à frente da consultora imobiliária Cushman & Wakefield em Portugal. Agora, assume uma nova posição, como presidente da Associação Avenida. Quer acelerar a requalificação do espaço público, reforçar a projeção internacional da Avenida da Liberdade. “É o cartão-de-visita do país. Não há turista que venha a Lisboa e não passe pela Avenida da Liberdade”, diz, em entrevista ao ECO Avenida. Defende, por isso, que nem todas as comemorações tenham lugar aqui.
“Não são só os festejos de futebol. Há muitas manifestações, muitos eventos desportivos e muitas celebrações que obrigam ao fecho de lojas. Isso tem obviamente um impacto negativo”, diz. “No ano passado, por exemplo, fomos duplamente penalizados porque o Sporting falhou o primeiro dia em que podia ser campeão, mas todo o aparato já estava montado. Depois, uma semana mais tarde, voltou a acontecer. Houve dois sábados em que, à tarde e ao final do dia, o comércio teve de fechar”, explica.
O presidente da Associação Avenida defende que “há espaços mais adequados para esse tipo de eventos, como o Parque Parque Francisco, onde há espaço e se incomoda menos a atividade económica”, afirma, reconhecendo, no entanto, a relação emocional dos lisboetas com a Avenida. “A Avenida da Liberdade não é exclusivamente um espaço de lojas de luxo, longe disso. É uma entidade orgânica, com muitas vivências e uma grande diversidade de frequentadores. Isso é bonito e tem de continuar. O que digo é que a frequência deste tipo de eventos é elevada e, muitas vezes, obriga ao encerramento do comércio. Nem sempre compreendo porque é que as lojas têm de fechar. No caso dos festejos de futebol, por exemplo, recebemos comunicação da Polícia Municipal para encerrar”.
O consultor imobiliário conheceu uma Avenida da Liberdade muito diferente da atual nos seus tempos de estudante universitário. “Lembro-me de descer a Avenida da Liberdade às 8h30 da noite, depois de uma refeição no refeitório da universidade, e ser parado pela polícia em frente ao Hotel Tivoli. Perguntaram-me o que é que eu estava a fazer àquela hora naquele sítio, que consideravam perigoso e pouco frequentado”, conta. Quatro décadas depois, “a Avenida tem uma dinâmica incrível. Não diria que tem vida 24 horas por dia, mas quase. É frequentada por turistas, por nacionais, por quem trabalha, por quem visita. A comparação é quase impossível”.
Enquanto líder da Cushman & Wakefield, que trabalha essencialmente na área do imobiliário comercial, não residencial, e está sediada na Avenida da Liberdade, viu a zona transformar-se de zona residencial de luxo “onde muitos andares estavam a ser convertidos em consultórios, sobretudo médicos, e em escritórios de advogados, e onde os rés-do-chão eram ocupados por escritórios, bancos, seguradoras ou companhias aéreas”, para, nos dias de hoje, uma artéria de “marcas de luxo e pisos térreos e, nos pisos superiores, escritórios modernos, edifícios convertidos em escritórios e, cada vez mais, novamente residências de gama alta”, conta.
“A Avenida é finita. Tem cerca de um quilómetro e não há muito mais espaço livre. Mas o comércio está sempre em movimento, está sempre a reinventar-se”, diz. “Há várias operações em curso para trazer novas marcas para a Avenida. Há espaços que se libertam, há edifícios que são reconvertidos. A antiga sede do Novobanco, por exemplo, foi vendida a uma promotora e investidor espanhol, e o rés-do-chão será ocupado por várias lojas”. Como o ECO já escreveu, duas dessas lojas estão destinadas à Loro Piana e à Celine, duas insígnias do grupo LVMH. “Além disso, algumas transversais começam também a ganhar o mesmo tipo de utilização, sobretudo a Rua Rosa Araújo e a Rua Braamcamp, principalmente do lado esquerdo ascendente”, diz. Mais: “Neste momento, por exemplo, há um movimento de transformar alguns primeiros andares em comércio. Isso aumenta o espaço comercial disponível.”
A avenida pode e “vai crescer”, sustenta o presidente da Associação Avenida. “Com as novas marcas que vão entrar, crescerá não só em número de compradores, mas também em número de visitantes. Mas não podemos esquecer outra população muito importante para a Associação: as empresas e os escritórios. É o meu caso, por exemplo. Não tenho loja, mas trabalho na Avenida. Há muitas empresas sediadas ali que talvez não queiram atrair clientes da mesma forma que as lojas, mas estão muito interessadas na qualidade do espaço público” – uma das principais batalhas da associação.
Batalha pela requalificação da Avenida da Liberdade
“As pessoas podem não ter esta noção, mas o eixo central de Lisboa, do Campo Grande ao Terreiro do Paço, foi praticamente todo intervencionado ao longo dos últimos 20 anos, menos a Avenida da Liberdade. E estamos a falar, modéstia à parte, da avenida mais importante do país. Não há turista que venha a Lisboa e não passe pela Avenida da Liberdade”, diz Eric van Leuven, que está há oito anos na direção da associação e sucede na presidência a Pedro Mendes Leal, proprietário e CEO do Hotel Valverde.
A lista de aspetos a melhorar é longa: “Pavimentação irregular”, mobiliário urbano “antiquado”, “os canteiros, que às vezes estão lindos e outras vezes menos bem cuidados…”, estacionamento – sempre um assunto polémico. “Por um lado, é necessário para quem acede às lojas e aos escritórios. Por outro, gostava de ver passeios laterais mais largos, talvez com algum estacionamento sacrificado, mas não todo”, diz Eric van Leuven ao ECO Avenida. E os quiosques, que também deviam ser melhorados. “Os quiosques são hoje muito semelhantes entre si e acho que falta variedade e qualidade. O JNcQUOI, ao lado do Tivoli, está a construir um quiosque que será certamente um espaço muito qualificado”, refere. “Também há um projeto da DreamMedia para quiosques de imprensa mais modernos e com maior impacto social, que está em aprovação”.
Há mudanças em curso, de acordo com a informação que tem vindo a ser prestada à associação pela vereadora com o pelouro do Espaço Público na Câmara Municipal de Lisboa, Joana Batista. “Foi-nos apresentado um cronograma de obras para requalificar o espaço público da Avenida. Algumas intervenções já começaram. Há cerca de um mês foi inaugurado o Lago Tejo, no lado descendente da Avenida, que foi completamente recuperado. Esta semana começou também uma intervenção importante nos canteiros”. As obras decorrem ao longo deste ano. “Depois, há um projeto mais estrutural, que inclui a repavimentação das ruas, a criação de ciclovias e a supressão de algum estacionamento”, refere o Eric Van Leuven.
Do lado da associação está a organização da feira da Avenida da Liberdade, uma concessão da Junta de Freguesia de Santo António à Associação Avenida e “uma fonte de receita importante”, mas também alvo de controvérsia. “Há quem diga que a feira não combina com o perfil das lojas da Avenida. É uma discussão legítima, mas acho que a feira cumpre uma função, sobretudo para o turista que gosta de levar para casa uma peça de artesanato ou um produto tipicamente português”, diz. “Reconheço, no entanto, que é possível fazer melhor: no aspeto das tendas, na qualidade dos produtos, na curadoria. Estamos a fazer um trabalho muito apurado e intenso nessa área”, assegura.
No final, a associação pretende que mais pessoas se desloquem ao coração da cidade. “A Avenida tem uma matéria-prima belíssima. É uma das avenidas mais bonitas do mundo: pelas árvores, pela largura dos passeios laterais, pela relação com o Parque Eduardo VII. Vista de cima, é uma fotografia belíssima. Mas essa matéria-prima precisa de ser cuidada”, defende. “O nosso objetivo é defender os interesses dos nossos associados. E os interesses dos associados passam, entre outras coisas, por ter cada vez mais e melhor clientela. Não é o único objetivo, mas é um dos principais”, afirma o presidente.
Poderá a Avenida da Liberdade tornar-se uma avenida demasiado igual a outras grandes artérias europeias? Eric van Leuven tem resposta pronta. “Se for igual à Calle Serrano, em Madrid, ou à Avenue Montaigne, em Paris, não me importo nada. São belíssimas avenidas, com ótimo espaço público, cuidadas, limpas e com excelentes lojas. Em Portugal, julgo que não há outra igual à Avenida da Liberdade. A Avenida dos Aliados, no Porto, talvez caminhe nesse sentido, mas é ainda mais curta [do que a Avenida da Liberdade]”.
Enquanto algumas marcas se questionam até quando podem estar nas avenidas mais valorizadas das cidades, Eric Van Leuven diz que “enquanto houver marcas dispostas a pagar rendas altas, esses arrendamentos acontecem. No momento em que as marcas considerarem que está demasiado caro, as rendas terão de se ajustar. É uma questão de oferta e procura”.
Outra das missões da associação é a internacionalização da Avenida, colocá-la “no mapa europeu e global como destino de compras”, diz, lembrando que os turistas não comunitários podem recuperar o IVA pago nas compras. “As estatísticas indicam que 80% do IVA restituído a não comunitários em Portugal vem da Avenida da Liberdade”.
Eric van Leuven veria com bons olhos que comércio e serviços da Avenida da Liberdade fossem geridos como um centro comercial. “Se me é permitido sonhar, seria interessante conseguir gerir melhor o mix de usos, atividades e lojas, para tornar a experiência de compras e de consumo mais rica e diversificada”, assume. Não seria caso único, como recorda. Regent Street, em Londres, é totalmente gerida pela Cushman & Wakefield. É, porém, o próprio Eric van Leuven quem reconhece que esta ideia é “difícil de concretizar, porque a Avenida tem muitos donos e um centro comercial tem apenas um”. “Num centro comercial, o proprietário pode sacrificar a renda de uma determinada loja porque entende que aquela atividade faz falta ao conjunto. Na Avenida, com muitos proprietários diferentes, isso é muito mais difícil”, opina. Até Regent Street tem apenas um senhorio. A Coroa Britânica.

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