Oportunidade “colossal” na defesa força parcerias para superar barreiras

Empresas que produzem para o setor da defesa reconhecem que há maiores oportunidades, mas avisam que é preciso tempo — e muito dinheiro — para aceder a estas oportunidades.

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O setor da defesa tem grandes oportunidades para as empresas portuguesas, especialmente nas tecnologias com duplo uso. Mas nem tudo são rosas. Entre licenças, certificações, concorrência de grandes players, as barreiras para produzir ou fornecer material para a defesa e aeronáutica podem afastar muitas empresas destes processos. Num debate em Braga, especialistas e empresários concluíram que fazer parcerias com outras empresas pode ajudar a saltar obstáculos e garantir uma parte dos muitos milhões de investimentos esperados em defesa nos próximos anos.

Para atacar o mercado da defesa, onde há uma oportunidade muito atual, precisamos de parcerias. Precisamos de ter parcerias com empresas“, destaca Fernando Pedrosa, operations manager da Vangest, no IMPULSE 2026, um fórum estratégico promovido pela Fibrenamics, dedicado à identificação de oportunidades no setor da Defesa e proteção, que decorreu a 21 de maio, em Braga.

O responsável da empresa da Marinha Grande, que fornece componentes metálicas para área aeronáutica e defesa — é uma das empresas nacionais a trabalhar com a Saab nos caças Gripen — e atua neste segmento há 15 anos, explica que, neste momento, tem “muitas parcerias com empresas espanholas, em Portugal não conseguimos”.

Filipe Guimarães, da Endutex, Filipe Duarte, da Optimal Defense, Wilson Antunes, tenente-coronel do Exército Português, Hermano Rodrigues, da EY, e Fernando Pedrosa, da Vangest, num debate sobre oportunidades na defesa

“Trabalhamos muito para aviação civil, militar, também para drones de uma empresa muito conhecida em Portugal e de outros programas europeus e não conseguimos fornecer chave na mão um produto totalmente feito em Portugal“, destaca, acrescentando que é preciso “criar condições para as empresas se unirem“.

Apesar destas dificuldades, Fernando Pedrosa reconhece que “há oportunidades muito maiores do que há 15 anos”, quando a empresa concorreu ao programa da Embraer para novos fornecedores para KC-390. “Durante vários anos foi fabricado em Portugal e no Brasil. Faziam-se dois, três, quatro até 2021. Em 2022, seis aviões. 2024, já vamos em oito e, em 2026, 10 aviões e a perspetiva é que se façam 12, 14 aviões e até mais.”

“É um grande exemplo da procura na área da defesa e militar”, nota, acrescentando ainda que, nos últimos anos, houve outros players a instalarem-se em Portugal, como a Airbus. Empresas que procuram capacidade, pessoas, empresas para serem parceiros em várias áreas. Com certificação há 14 anos, a empresa, que é fornecedora direta de OEM (Fabricante Original), assume que gostaria de “fazer tudo em Portugal”.

Tal como a Vangest, também a Optimal Defence, que produz peças em compósitos para setores que vão desde o automóvel ao aeroespacial e está há vários anos a desenvolver atividade no setor de Defesa, está a explorar parcerias com outras empresas portuguesas, focada no mesmo objetivo: “Procuramos produtos novos para fazer e queremos fazer tudo em Portugal“. Para Filipe Duarte, CEO da Optimal Defence “a perspetiva é fazer tudo cá”.

Mas o líder da companhia de Santarém destaca que “a área da defesa é muito específica”, reconhecendo, desde logo, as dificuldades ao nível do licenciamento e das certificações. “Foi mencionada a questão do duplo uso, na área militar é um bocadinho mais complexo, não é só ser licenciado, uma coisa é o processo de licenciamento — e não sei se aqui estão empresas que tenham tido licenciamento o ano passado, provavelmente não, aí há dois anos estava bloqueado” — como é preciso a licença de exportação, “que também é um processo giro, que vai ao Ministério da Defesa, vai ao Ministério dos Bancos Estrangeiros, que tem de ver se há conflito, não há conflito, se é um país aliado”.

E a complicação não se fica por aqui. “Por exemplo, o Gabinete Nacional de Segurança tem que fazer credenciação de segurança e tem de ir lá. E falta um papel tem de ir lá no dia a seguir entregar. E o Ministério da Defesa é a mesma coisa“, sintetiza. “Somos uma empresa de Santarém e já nos causa um transtorno e Lisboa, por isso aqui nem sei como é. É um desafio. E se não conhecem a senhora Isabel Pires é porque não conhecem o processo ainda, é uma pessoa que trata do processo”.

Além desta parte burocrática há ainda a questão das certificações, que, na aeronáutica e defesa, são muitas, exigentes e caras. “São precisas muitas qualificações para todos os processos. Estamos a investir em processos especiais in-house, mas sabemos que tomando a decisão hoje, daqui a dois ou três anos é que temos o processo qualificado”, detalha. “É muito tempo, é muita demora, além de ser necessário um grande investimento por parte da empresa na qualificação das pessoas, também na certificação nesses processos são realmente muito demorados e muito lentos”, reforça.

Filipe Guimarães, sales manager da Endutex, que produz têxtil técnico, em diferentes áreas de negócio, desde o segmento automóvel, ao médico, vestuário de proteção e arquitetura têxtil, concorda que “na área da defesa existem muitas particularidades específicas”, lamentando as dificuldades em manter contacto com o exército e as forças armadas. “É muito importante ter contacto com eles”, destaca.

Num momento em que o setor da defesa surge com uma relevância cada vez maior, Raul Fangueiro, pró-reitor para a Inovação, Empreendedorismo e Transferência de Conhecimento da Universidade do Minho e presidente da Fibrenamics, realça que se vive um “momento de profunda transformação global”, em que se está a alterar a forma como pensamos a inovação, indústria, defesa, segurança”.

Por outro lado, Raul Fangueiro refere que “durante décadas, a defesa funcionou como um setor relativamente fechado, atualmente, essa lógica alterou-se profundamente“, com grande parte das tecnologias mais avançadas a nascer no ecossistema civil de investigação. O setor militar “deixou de ser o principal produtor de tecnologia estratégica e passou a depender do contexto civil” e é assim que o conceito de “dual use” ganha relevância.

“O dual use representa um novo paradigma de inovação”, um paradigma onde as universidades assumem um papel importante. Perante esta oportunidade, o Fibrenamics decidiu avançar com a criação do hub de defesa e proteção, no AvePark, em Guimarães, pensado como uma plataforma de inovação colaborativa para aproximar investigação, indústria e utilizadores finais. Para o presidente da Fibrenamics, “uma das maiores oportunidades é mobilizar empresas para novas áreas de desenvolvimento estratégico”, permitindo-lhes posicionar-se para o dual use. “O futuro da defesa dependerá cada vez menos da possibilidade de produzir tecnologias exclusivamente militares” e apostar nesta lógica de duplo uso, explica.

Álvaro Santos, presidente da CCDR-N, admite que o “setor da defesa ainda tem uma expressão relativamente reduzida no norte de Portugal”, mas o potencial que existe. “Há empresas altamente competitivas, competências em áreas como materiais avançados, compósitos, material técnico” que podem posicionar-se para fornecer o setor da defesa, refere. “É uma oportunidade concreta de diversificação industrial“, acrescenta.

Também Hermano Rodrigues, principal de Ernest & Young, destaca o “valor colossal que se espera que venha a ser investido”, tornando este setor atrativo para as empresas. Mas, avisa, “esta atratividade resulta também da dificuldade de entrar nas indústrias da defesa. Tipicamente isto é dominado por grandes players. Como se entra nas cadeias de valor?”, questiona. “As barreiras da entrada são altas, isso torna essas indústrias atrativas”, conclui. É precisamente por isto que os responsáveis destacam a importância das parcerias.

“As empresas têm de se olhar umas às outras, como parceiras, se estão no mesmo consórcio, outras como concorrentes, mas essencialmente como parceiras”, explica Jorge Manuel Duque, dirigente no IAPMEI. Para o responsável, as empresas “têm de se juntar em consórcios, dar-se a conhecer. Têm de se dar a conhecer à comunidade internacional“.

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