Ter tecnologia de uso duplo é oportunidade para a defesa

  • Lusa
  • 26 Maio 2026

A tecnológica espanhola XRF.ai tem atividade nas áreas da emergência, segurança e defesa, tendo sido considerada pela NATO uma das 10 empresas mais inovadoras.

O presidente executivo (CEO) da XRF, que usa IA generativa e ajuda na tomada de decisões complexas, afirma, em entrevista à Lusa, que ter tecnologia de uso duplo traz uma grande oportunidade para a defesa.

A tecnológica espanhola XRF.ai tem atividade nas áreas da emergência, segurança e defesa, tendo sido considerada pela NATO uma das 10 empresas mais inovadoras.

Questionado sobre se a aposta em tecnologia dual, que pode ser aplicada para fins civis ou militares, veio no momento certo, Gustavo Medina del Rosario admite que sim. “Somos uma empresa jovem, com apenas três anos. Portanto, como homenagem à onda que vocês têm aqui na Nazaré, em Portugal, imagino-a sempre como uma onda que vem e apanha a nossa empresa já a nadar”, salienta o CEO, nomeadamente porque a Europa reforçou o investimento na área da defesa.

“Muitas pessoas estão a vir surfar nesta onda agora [sistema dual], mas para aqueles como nós que começámos há três anos, muito jovens, esta onda veio no ano passado”, refere. Portanto, “de facto, há uma grande oportunidade para a defesa e acho que muitas pessoas que querem vir surfar nesta onda ainda têm tempo”.

Agora, “penso que temos mais quatro ou cinco anos de investimento europeu para nos tornarmos independentes da nossa dependência de outros países”.

Questionado sobre o caso que envolveu a norte-americana de IA Anthropic e o Pentágono, porque a primeira recusou o uso irrestrito da Inteligência Artificial na área da defesa, Gustavo Medina considera que ter os humanos na supervisão faz sentido neste momento. “Vou ser um pouco controverso aqui: Na minha opinião, o conceito de Human-In-The-Loop (HITL) [supervisão humano] é o mais adequado atualmente.” Nesse sentido, “a decisão final deve ser controlada por um ser humano, isso reduzirá sempre o nosso tempo de resposta, mas o problema é que os ‘maus’ não estão a fazer isso”, prossegue.

Na Europa, “sofremos de um certo idealismo ingénuo, achamos que somos boas pessoas, valorizamos os aspetos sociais e humanos da sociedade mais do que outros países e continentes”, agora “a minha única preocupação é que nem todos pensam da mesma forma”. E, neste caso específico, de uso sem supervisão humana, “pode tornar-se uma desvantagem significativa, se necessário”, salienta Gustavo Medina. Para o CEO da XRF, esta “não é uma questão simples”.

Questionado sobre se a Europa deverá debater o tema do uso dual da IA, já que a regulação de inteligência artificial (AI Act) não se aplica ao setor da defesa, o responsável admite que a visão europeia poderá mudar. “Penso que a Europa começará a eliminar as suas próprias regulações quando as coisas se complicarem”, admite.

Se, por hipótese, “a Rússia começar a atacar a Europa com sistemas totalmente autónomos que tomam decisões e matam pessoas sem pensar duas vezes” como irá reagir a Europa, questiona. Ou se a China usar, “imagine-se um robô, um daqueles cães-robô armados que nunca falham”, exemplifica.

“Imagine a desvantagem competitiva que teremos em algum momento. Não é uma questão simples. Isto, como dizemos em Espanha, é um caso de ‘quero, mas não posso'”, salienta.

Quer dizer, “adoraríamos manter as coisas assim, mas nem os acordos nucleares da Guerra Fria se mantiveram”, aponta, manifestando-se um pouco pessimista em relação a este tema.

Sobre se a tecnológica está a participar na guerra da Ucrânia, Rosário Medina diz que “indiretamente sim, através da NATO”. “Em vários exercícios da NATO fomos identificados como estando entre os 10 melhores em inovação”, diz, salientando que “a única forma de uma startup competir com uma grande empresa de defesa é sendo mais rápida”.

“Nunca teremos mais dinheiro, nunca teremos mais recursos, mas somos muito mais rápidos e esta é a oportunidade”, remata Gustavo Medina.

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