Ana Figueiredo x Francisco Neto. Bons líderes sabem “levar as pessoas onde elas não acham que precisam de ir”

Ana Figueiredo e Francisco Neto partilham o desafio de se reinventarem todos os dias, uma enquanto líder da maior operadora e outro enquanto treinador da seleção feminina há 12 anos.

  • O Festival ECO, que decorre esta quarta-feira no CCB em Lisboa, marca o arranque das celebrações do 10.º aniversário do ECO com um festival de ideias, cultura, encontros e jornalismo ao vivo, reunindo leitores, parceiros e protagonistas de diferentes áreas num encontro que cruza economia, política, cultura, liderança e inovação

Mais do que mudar os processos, o difícil é mudar as pessoas — mas, em grandes organizações — ou nas que têm mais responsabilidade — essa é uma condição. No palco do Festival ECO, a CEO da Meo, Ana Figueiredo, admitiu que a operadora tem de se “reinventar permanentemente”, e isso requer bons líderes, que devem saber “levar as pessoas para onde elas não acham que precisam de ir, mas precisam de estar”.

Por seu turno, Francisco Neto, treinador da Seleção Portuguesa de Futebol Feminino, afirmou que um bom líder não pode “ter medo”. “Acima de tudo, temos de ser muito coerentes num grupo de jogadores, um grupo de mulheres. A coerência é algo que para mim é muito importante. Depois, também temos de perceber que por detrás da jogadora está uma pessoa, e nós estamos a liderar pessoas, não estamos a liderar só jogadoras”, destacou.

Também lhe é requerida essa tal capacidade de reinvenção. Selecionador há mais de uma década, Francisco Neto confessou que, “para passar uma mensagem ao fim de 12 anos, também nos temos de ir reinventando. E o próprio processo de liderança tem de ser alterado” para que essa mensagem passe, indicou, rematando: “Costumo dizer: queremos ganhar os jogos todos, mas a verdade é que temos de ganhar os jogos certos”.

Já a Meo “sempre foi uma empresa líder”. “Todos os trimestres reforçamos a nossa liderança”, assinalou Ana Figueiredo, e isso tem outras consequências, até porque é a operadora incumbente: “O que nos é exigido é muito superior ao que é exigido aos nossos concorrentes”, atirou a gestora, que completou recentemente quatro anos aos comandos da empresa.

Perfis

  • Ana Figueiredo é CEO da Meo desde abril de 2022, função que acumula com a de chairwoman desde 2023. É licenciada em Administração e Gestão de Empresas pelo ISEG e possui um MBA pela Universidade Católica Portuguesa e Nova Business School. Entrou no grupo Altice em 2003 e, antes de chegar a Portugal, era CEO da Altice na República Dominicana, a primeira mulher a liderar o grupo nesse mercado.
  • Natural de Mortágua, Viseu, Francisco Neto, de 44 anos, é selecionador da Seleção Portuguesa de Futebol Feminino desde 2017, tendo conduzido Portugal a várias presenças em fases finais de competições internacionais, nomeadamente três Campeonatos da Europa e ao primeiro Campeonato do Mundo em que a seleção se qualificou, em 2023. É formado em Desporto, na vertente de alto rendimento, tendo concluído o mestrado na Universidade do Porto entre 2000 e 2005.

O momento de humor

Para explicar por que convidou para esta ‘conversa improvável’ o selecionador da Seleção Portuguesa de Futebol Feminino, Ana Figueiredo destacou: “O convite acaba por ser natural. Eu e o Francisco temos desafios muito semelhantes. Ele é um homem num desporto que é considerado masculino a liderar uma equipa feminina. E eu associo-me a uma líder numa indústria que maioritariamente masculina. Portanto, acho que há aqui algumas semelhanças e muitos elos de ligação entre os dois.”

O momento de tensão

Os dois oradores do painel foram questionados sobre a decisão mais difícil que tiveram de tomar em prol da cultura da organização. “Sempre que temos de não convocar jogadoras importantes. São sempre decisões muito duras, muitas vezes incompreendidas pelas jogadoras e por quem está de fora. Mas há uma coisa que para nós é inegociável: o grupo tem de estar sempre acima da individualidade. Para termos sucesso, é isso que é importante.” Por seu turno, Ana Figueiredo respondeu que a decisão mais difícil foi substituir pessoas quando não está em causa o desempenho mas sim o perfil. “Obviamente que, por detrás da pessoa, está uma carreira”, explicou.

A ideia para o futuro

Para “uma menina que jogasse futebol”, há 20 anos, as principais referências eram jogadores masculinos: “Queriam ser o Figo, queriam ser o Vítor Baía.” Francisco Neto considera que o desafio agora “é elas serem as referências das que vêm a seguir”. “Temos de criar referências” no futebol feminino, defende o selecionador, pois no passado “não havia referências”. “Hoje em dia, felizmente, temos a Francisca [Nazareth], a Jéssica [Silva], a Dolores [Silva], a Carole [Costa]…”, elencou.

As frases

Sabemos que o que é nos exigido é muito superior ao que é exigido aos nossos concorrentes, e temos de viver com essa pressão diária.

Ana Figueiredo

CEO da Meo

O talento por si só não garante sucesso. O que o garante é uma cultura de exigência e de trabalho no dia-a-dia.

Francisco Neto

Selecionador nacional da seleção portuguesa de futebol feminino

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