António Brochado Correia x Martim Sousa Tavares. O que as empresas ainda não aprenderam com as orquestras
Martim Sousa Tavares e António Brochado Correia chegaram à mesma conclusão por caminhos diferentes: nenhuma organização prospera sem equipa e nenhuma equipa funciona sem confiança.

- O Festival ECO, que decorre esta quarta-feira no CCB em Lisboa, marca o arranque das celebrações do 10º aniversário do ECO com um festival de ideias, cultura, encontros e jornalismo ao vivo, reunindo leitores, parceiros e protagonistas de diferentes áreas num encontro que cruza economia, política, cultura, liderança e inovação.
Para Martim Sousa Tavares, a lição começa logo na forma como uma orquestra avança. “A orquestra é uma ótima metáfora. É um lugar onde o grupo não anda ao ritmo do que anda mais rápido, mas do que anda mais devagar”, explicou o maestro da Orquestra do Algarve onde dirige cerca de cem músicos num espaço de apenas cem metros quadrados.
Para Martim Sousa Tavares, essa proximidade obriga a uma cumplicidade que poucos ambientes de trabalho conhecem. E vai mais longe na crítica ao culto do talento individual: “Não me interessa ter grandes virtuosistas, tecnocratas, quando as pessoas não são capazes de trabalhar umas com as outras.”
António Brochado Correia, presidente da Pwc Portugal, músico desde os 11 anos e que já teve Martim Sousa Tavares como maestro, trouxe a mesma convicção para o mundo empresarial. “Hoje medimos mais comportamentos do que inteligência individual de cada um. Se um elemento numa equipa falhar é suficiente para perder tudo”, disse o líder da consultora, acrescentando que “tendencialmente, o ser humano é individualista e tende a cooperar pouco”, e que é precisamente isso que é preciso contrariar.
Para o gestor, envolver os profissionais nas artes não é um luxo, é uma necessidade estratégica: “As artes ajudam-nos a pensar além da nossa capacidade técnica.”
A inteligência artificial (IA) também entrou no debate, mas sem alarmar o maestro. “Estou zero preocupado com a IA porque fazer música em conjunto é das coisas mais humanas que se pode fazer”, afirmou Martim Sousa Tavares, ilustrando o argumento com uma imagem que ficou na sala: “Se Mozart entrasse numa sala de ensaio, saberia o que estava a acontecer. Se entrasse aqui e agora nesta sala podia ser qualquer coisa.”
Já António Brochado Correia preferiu uma posição mais cautelosa: a IA pode “melhorar uma empresa e um cidadão como também a pode estragar se não a soubermos utilizar bem”, considerou, defendendo que as fronteiras desta tecnologia “vão estar relacionadas com a nossa capacidade de discernimento.”
No final, ambos convergiram no que define o sucesso ou o fracasso de qualquer organização. “As maiores desilusões que vivi foi porque não tinha uma equipa e as maiores alegrias foi porque tinha uma equipa”, confessou Martim Sousa Tavares, num raciocínio que dispensa qualquer elaboração teórica.
“Ter uma equipa não depende dos salários, do ar condicionado – depende das pessoas. E se tenho uma equipa, posso sonhar.” Uma conclusão que, curiosamente, soa mais a gestão do que a música, mas que nasceu de um palco.
Os perfis
- António Brochado Correia é o presidente da PwC Portugal, uma consultora com mais de 70 sócios e cerca de 3.000 colaboradores distribuídos pelos escritórios de Lisboa, Porto, Coimbra, Funchal, Luanda, Cidade da Praia e Maputo. Licenciado em Gestão e Administração de Empresas pela Universidade Católica Portuguesa, tornou-se Revisor Oficial de Contas e professor académico em 1999, até se juntar à PwC como sócio em 2003. Apesar da auditoria e consultoria, manteve-se ligado à academia, nomeadamente enquanto membro do Conselho Superior da Universidade Católica Portuguesa.
- Martim Sousa Tavares é maestro na Orquestra do Algarve, fundador do projeto musical Orquestra Sem Fronteiras e diretor artístico do Festival de Sintra, o mais antigo de música erudita em Portugal. Nascido em Lisboa em 1991, no seio de uma família com tradição literária, é formado em Ciências Musicais pela Universidade Nova de Lisboa e também em Direção de Orquestra entre Itália e Estados Unidos. Em 2022, venceu o Prémio Carlos Magno para a Juventude, do Parlamento Europeu e o prémio de música da Mirpuri Foundation.
O momento de humor
Antes de subir ao palco como presidente da PwC Portugal, António Brochado Correia poderia muito bem ter subido a um palco diferente, com trompete na mão. Músico desde os 11 anos, o líder de uma das maiores auditoras do país teve até “a honra”, como ele próprio disse, de ser dirigido por Martim Sousa Tavares numa banda filarmónica. A sala sorriu quando António Brochado Correia garantiu, com humor, que hoje reserva “exclusividade com a banda da PwC”, deixando no ar a questão de saber se o maestro ao lado levou o comentário a bem.
O momento de tensão
O confronto mais subtil do debate não foi declarado em voz alta, mas esteve sempre presente: a tensão entre controlo e confiança como modelos de liderança. Martim Sousa Tavares foi o primeiro a colocá-la em cima da mesa com uma clareza desarmante. “O maestro tem a prerrogativa de tocar nos botões do controlo e da confiança para acionar certas tarefas”, disse, mas advertiu que usar mal esses botões tem consequências.
Em contextos de pressão, o controlo funciona. Quando o ambiente o permite, é a confiança que lidera. “Defino o objetivo e o caminho decidem vocês.” O problema é que a maioria dos gestores, mesmo sem o admitir, opera quase sempre no registo do controlo — com ou sem pressão.
António Brochado Correia, vindo de um setor onde a auditoria e a conformidade são a espinha dorsal do negócio, reconheceu que o ser humano “tende a cooperar pouco” e que é preciso contrariar essa tendência. Mas a questão ficou por resolver: como se constrói confiança em organizações onde o erro tem custo imediato? Os dois concordaram no diagnóstico, divergiram na facilidade da receita — e foi precisamente nessa fratura que o debate ganhou vida.
A ideia para o futuro
Se há uma ideia que ficou suspensa no ar, depois deste debate, é a de que as empresas deveriam olhar para as artes, e em particular para a música clássica, não como entretenimento, mas como escola de liderança. “Todos os líderes devem aprender a formar humanos”, refere António Brochado Correia. Uma afirmação que parece simples, mas que, na prática, inverte a lógica dominante nas organizações, onde se forma para competências técnicas e se improvisa no que diz respeito ao comportamento.
O presidente da PwC Portugal foi mais longe e deixou um apelo que poucos esperavam num debate de gestão. “Portugal é um país que consome muito pouca cultura.” A ideia implícita é clara: investir em cultura não é um custo social, é uma vantagem competitiva. Martim Sousa Tavares deu-lhe substância com o conceito de co-liderança.
“Sempre que falo em liderança, falo em co-liderança, em que as pessoas são co-líderes. As orquestras são uma espécie de laboratório humano.” É esse laboratório que as empresas ainda não souberam replicar, e que o debate deixou como proposta concreta para quem quiser levar a gestão de equipas a outro nível.
As frases
Não me interessa ter grandes virtuosistas, tecnocratas, quando as pessoas não são capazes de trabalhar umas com as outras.
A inteligência artificial pode melhorar a vida de uma empresa e um cidadão como também a pode estragar se não a soubermos utilizar bem.
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