Cristina Rodrigues x Roberta Medina. Mulheres sem impossíveis nos festivais e na tecnologia

Cristina Rodrigues, CEO da Capgemini em Portugal, e Roberta Medina, empresária e vice-presidente do festival Rock in Rio, partilharam o palco do Festival ECO para falar de coragem e empreendedorismo.

  • O Festival ECO, que decorre esta quarta-feira no CCB em Lisboa, marca o arranque das celebrações do 10.º aniversário do ECO com um festival de ideias, cultura, encontros e jornalismo ao vivo, reunindo leitores, parceiros e protagonistas de diferentes áreas num encontro que cruza economia, política, cultura, liderança e inovação.

“Nada é impossível” é a regra comum entre Cristina Rodrigues, CEO da Capgemini em Portugal, e Roberta Medina, vice-presidente do festival Rock in Rio, duas mulheres que se assumem como empreendedoras. Se há lição que se pode tirar do painel entre as duas empresárias e que teve como mote “o negócio da transformação e da experiência” é que é preciso sonhar, mas mais importante do que isso é preciso arriscar.

A responsável pela organização do Rock in Rio em Lisboa e Madrid, Roberta Medina, fez uma viagem aos primórdios da implementação do evento em Portugal, em 2004, destacando na altura o papel do “maluco certo”, Pedro Santana Lopes, em acreditar “no sonho”, o que permitiu assinar o protocolo em tempo recorde e que levou a uma subsequência de encontros “de pessoas que foram acreditando naquele sonho”.

“A primeira regra no grupo é que nada é impossível. Quando surgiu a provocação de fazer Portugal, a gente não acreditava”, explicou. No entanto, “encontrar pessoas dentro das empresas que acreditavam no sonho que a música podia” transformar permitiu concretizar o “objetivo de construir um Rock in Rio” diferente. Apesar de admitir que “financeiramente é mais desafiante” fazer o evento em Portugal do que no Brasil, a empresária brasileira mostrou-se satisfeita com os desafios superados, nomeadamente o peso do sucesso do pai, criador do evento.

Na sua opinião, o espírito empreendedor devia fazer parte dos currículos escolares e em conversas e momentos familiares. “O empreendedorismo devia estar nas escolas. Construir algo diferente e novo em vez de aprender o que os outros já fizeram. Ao fazer o que ninguém fez é que vamos passar a ser brilhantes”, referiu Cristina Rodrigues.

A CEO da consultora digital tem experiência no que diz, até porque trocou a carreira na banca pela tecnologia, aquela área dos que “estavam em frente a um computador, aquelas pessoas do Técnico com o cabelo espetado”. “Toda a gente dizia que era lunática”, mas simplesmente acreditou no setor e “numa empresa com 4.000 pessoas”, hoje em dia. “Em 2000 saí da Caixa Geral de Depósitos. Foi muito difícil explicar a saída, porque toda a gente gostava da banca. Tive de dizer que acreditei num sonho. Foi um risco enorme, mas se calhar se tivesse ouvido quem me disse para não ir não estava onde estou”, afirmou.

“O empreendedorismo devia estar nas escolas. Construir algo diferente e novo em vez de aprender o que os outros já fizeram. Ao fazer o que ninguém fez é que vamos passar a ser brilhantes”, referiu Cristina Rodrigues. A líder da multinacional francesa em Portugal aproveitou o evento de 10º aniversário do ECO para alertar para a promoção do país além-fronteiras e de nos sentarmos “na fila da frente”.

“Estala-nos o verniz se queremos ser quem não somos. Não temos escala, somos pequeninos, mas somos muito bons. Se não formos orgulhosos do que somos ninguém vai ser, se não soubermos vender-nos ninguém nos vai vender”, asseverou.

Os perfis

  • Roberta Medina é empresária e produtora brasileira, vice-presidente executiva do Rock in Rio e responsável pela internacionalização do festival, com edições em Lisboa e Madrid. Filha de Roberto Medina, vive em Portugal desde 2003 e destacou-se pela aposta em sustentabilidade, inovação e entretenimento, ajudando a transformar o Rock in Rio numa marca global de eventos.
  • Cristina Rodrigues é CEO da Capgemini Portugal desde 2018, quando se tornou na primeira mulher a liderar uma filial da consultora tecnológica francesa. Costuma dizer que “o futuro é das mulheres”, mas foi no passado que também se destacou. A carreira de Cristina Rodrigues começou em 1994, na Caixa Geral de Depósitos, depois de se ter licenciado em Gestão pela Universidade Lusíada. Nos anos seguintes, frequentou formações e especializações na Universidade Católica, no ISCTE e na norte-americana Kellogg School of Management. Hoje é um exemplo de promoção da ‘prata da casa’ e a 43ª na lista das “Mais Poderosa nos Negócios” da revista Forbes.

O momento de humor

Cristina Rodrigues protagonizou um momento de boa disposição quando contou um episódio que teve, há cerca de 10-15 anos, com um antigo chefe francês que geria 30 mil pessoas e lhe disse “vens comigo a um banco para te ensinar como se gere um negócio”. Mal chegou o dia da tal visita à instituição bancária, a gestora portuguesa vestiu-se de encarnado, exatamente a cor do banco a visitar. “Tu não vens de encarnado para vir a um banco. Tens de vir de cinzento”, disse o chefe gaulês quando viu o vestido escolhido. “Tu é que estás errado porque não vens de gravada encarnada”, retorquiu Cristina Rodrigues, contando que, desde então, esse banco criou uma regra – made in Portugal – em que todos envergam uma peça com a cor da empresa que vão visitar.

O momento de tensão

Para Roberta Medina, “a escola da ousadia está dentro de casa, não está noutro lugar”. É talvez por isso que um dos maiores arrependimentos da empresária carioca – que se tivesse que escolher outra profissão seria a de produtora de eventos – foi “colocar na mão dos outros a minha valorização”. Um mote que a CEO da consultora tecnológica Capgemini Portugal defende para Portugal enquanto país: saber investir na autopromoção além-fronteiras e sentar-se “na fila da frente”. “Não temos escala, somos pequeninos, mas somos muito bons. Se não formos orgulhosos do que somos ninguém vai ser, se não soubermos vender-nos ninguém nos vai vender”, asseverou Cristina Rodrigues.

A ideia para o futuro

Em vésperas de Rock in Rio Lisboa, a empresária brasileira não se quis comprometer com a continuação do festival a 20 anos. Mas entre sorrisos e gargalhas, prometeu continuar o objetivo a que se propôs, pelo que deixou uma ideia clara sobre para o futuro. “Daqui a cinco anos, vai ser sem dúvida o evento de referência do verão europeu“, atirou. Sobre a parceira de painel, Cristina Rodrigues, imagina-a, no futuro, com o cargo de primeira-ministra de Portugal.

Frases

Estala-nos o verniz se queremos ser quem não somos.

Cristina Rodrigues

CEO da Capgemini Portugal

Batemos no maluco certo, que é bom ter esse nível de ousadia, que foi o Santana [Lopes]. Nunca um protocolo foi assinado tão rápido.

Roberta Medina

Empresária

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