Marcelo Nico x Chakall: Portugal é um país de talentos que não sabe vender-se
Marcelo Nico, diretor-geral da Tabaqueira, e o chef Chakall, discutiram os ingredientes que encontraram em Portugal para o sucesso.

- O Festival ECO, que decorre esta quarta-feira no CCB em Lisboa, marca o arranque das celebrações do 10.º aniversário do ECO com um festival de ideias, cultura, encontros e jornalismo ao vivo, reunindo leitores, parceiros e protagonistas de diferentes áreas num encontro que cruza economia, política, cultura, liderança e inovação
As pessoas são o melhor ingrediente de Portugal. A opinião é partilhada pelo chef de cozinha Chakall e por Marcelo Nico, diretor-geral da Tabaqueira, que marcaram presença no painel ‘Que ingredientes encontraram em Portugal para o sucesso?’, no Festival ECO.
Tanto Chakall como Marcelo Nico frisaram que as pessoas são o maior ativo português. “Há muitos países com bom clima e boa comida. Mas não há muitos países com bom clima, boa comida e boas pessoas“, aponta Chakall, que veio para o país há cerca de 27 anos. A ideia era passar algum tempo, enquanto planeava uma viagem por África, e acabou por ficar. A “humildade” é a característica que mais destaca nos portugueses.
Já Marcelo Nico, que já trabalhou em países como Itália ou Suíça, deixa claro que “Portugal está a criar uma geração de talento incrível”. “O talento está aqui, falta investimento”, frisou, considerando que a humildade com que os portugueses se observam a si mesmos não deve ser um entrave ao investimento no país. “
“Temos de criar condições para que esse talento fique em Portugal”, porque só faltam “ações concretas” para aproveitar o potencial já existente no país.
A humildade, tão apreciada por Chakkal, pode efetivamente funcionar como um pau de dois bicos. “Uma pessoa humilde não mostra o que vale. E, quando diz que tem talento, os outros ficam chateados”.
A comparação é feita com Itália. O talento é idêntico, mas os italianos vendem-se melhor. “Em Trás-os-Montes faz-se o melhor azeite do mundo. Mas não sabem, porque não sabem vender-se. Os italianos fazem um azeite ‘ranhoso’, colocam uma etiqueta gira e uma embalagem fantástica” e é um sucesso, exemplifica, para concluir que em Portugal, tanto nas marcas como nas pessoas, “a embalagem muitas vezes falha”. “Os portugueses falham na ‘embalagem, falham no marketing”.
Já no caso de Nico, e pegando também na ideia de Chakall, para satisfazer o cliente, a consistência é fundamental. “O consumidor está a comprar uma marca que transmite muitas coisas”, por exemplo, valores ou perceções, e “essa consistência é construída, trabalhada ao longo do tempo. Então é fundamental que se mantenha”, afirma. No entanto, prossegue, também a inovação é essencial, pois sem ela uma empresa pode tornar-se obsoleta. “Os consumidores continuam a mudar e a procurar alternativas diferentes, isso é uma constante. Portanto, ou se vai inovando, ou devagarinho [a marca] vai desaparecendo do mercado”.
Perfis
- De origem argentina, Marcelo Nico é atualmente diretor-geral da Tabaqueira, subsidiária portuguesa da Philip Morris International. Assumiu o cargo em 2021, após liderar operações da Philip Morris International na África do Sul e nas Ilhas do Índico. Construiu carreira nas áreas de vendas, marketing e gestão internacional, com passagem por mercados como Itália, Suíça, Rússia, América Latina e África Austral.
- Chakall (Eduardo Andrés López), chef argentino nascido em 1972, teve um percurso inicial ligado ao jornalismo antes de se dedicar à gastronomia. Figura mediática em Portugal, construiu a carreira entre televisão, consultoria e autoria de livros. É conhecido pela cozinha de fusão, influenciada pelas viagens e encontros culturais. Defende uma abordagem simples e emocional da comida: “O sabor é o objetivo final. Cresci com comida de verdade e gosto de comer — e de servir — comida de verdade; tem mais coração”, dizia em 2020, na Expo Dubai.
O momento de humor
Durante o painel também houve espaço para uma boa gargalhada. Marcelo Nico referiu que ficou surpreendido com o grau de formalidade dos portugueses. “Nunca tinha usado a gravata tantas vezes como quando cheguei a Portugal. Agora já não tanto, mas estão sempre todos tão engravatados”, recordou, provocando risos entre a audiência.
No caso de Chakall, o turbante, que começou por utilizar no Sudão, é a sua imagem de marca. “Um gajo com turbante é diferente. Se tens a sorte de ter sucesso, o caminho está feito. Se acham que é um palhaço, corre mal”, comenta. No caso correu bem e corre também fronteiras. A prova é que até Richard Branson, o dono da Virgin, na Fórmula 1, em Abu Dhabi, pediu para tirar uma fotografia com o homem do turbante.
O momento de tensão
Com o Mundial de futebol a bater à porta — e a intervenção anterior de André Villas-Boas, presidente do FC Porto, ainda em mente –, também houve espaço para alguma rivalidade com a moderadora do painel, Ana Sofia Cardoso, jornalista da CNN Portugal. Nico provocou: somos “dois campeões do mundo. Portugal tem grandes chances mas, por enquanto, a Argentina continua a ser campeã”. Chakall não perdeu tempo e, lembrando que ambos estavam entre portugueses, brincou “não vais sair vivo daqui hoje”.
A ideia para o futuro
Maior união entre as pessoas e as marcas. É esta a dica dada por Chakall, pegando no exemplo da carne dos Açores, com a qual trabalha, mas extrapolando para todo o país. “A falta de união entre as partes é o maior problema do país. Nos Açores há carne extraordinária, mais ou menos ou má”, mas os produtores “odeiam-se”. “Não há união, é ‘cotovelos na cara'”, aponta. “As pessoas têm de se juntar para triunfar”, defende o chef argentino, embaixador de marcas como Continente, Delta ou até Portugal, na Expo Dubai.
O principal problema do país, na minha humilde opinião, é a falta de união entre as partes. Portugal tem tudo, tem os melhores produtos, os melhores vinhos, tem muitas coisas extraordinárias. Mas não há união para o mostrar.
Nós, que gerimos empresas em Portugal, temos que criar as condições para que esse talento fique em Portugal. Para que mais investimento venha para o país e, depois, daqui exportar para o resto do mundo, porque a capacidade está aqui.
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