Nuno Cerejeira Namora x Pedro Chagas Freitas. A palavra é um “ato de joalharia”, mas “mal colocada pode estragar tudo”

Pedro Chagas Freitas, escritor, e Nuno Cerejeira Namora, founding partner da Cerejeira Namora, Marinho Falcão, e unidos ‘Entre a palavra e o combate’.

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Se há coisa que um advogado e um escritor têm em comum é a palavra. Disso, Nuno Cerejeira Namora e Pedro Chagas Freitas não mostraram dúvidas na conversa improvável que tiveram no Festival ECO.

Cada um tem de ser cirúrgico no que faz. Eu olho para a palavra como uma espécie de ato de joalharia. Eu tenho de esculpir o texto, tenho de o desenhar de acordo com o que eu quero transmitir”, atirou o autor de Prometo Falhar.

Um advogado também tem de fazer isso, tem um objetivo, tem algo para comunicar”, acrescentou.

O sócio fundador da Cerejeira Namora Marinho Falcão não só concordou como também fez questão de lembrar que o mau uso da palavra pode comprometer tudo. “Era o Eça que dizia: ‘Com uma caneta de dez reis, dou-te problemas para dez anos’. Uma palavra mal colocada pode estragar tudo. Pode estragar um livro, pode estragar uma peça, pode estragar um artigo. Elas têm de ser escolhidas uma a uma.”

Nuno Cerejeira Namora lembrou que foi a palavra que uniu os dois. E depois veio a Covid e resolveram escrever um livro. “Não, mentira. Ele escreveu um livro sobre os 30 anos da minha sociedade de advogados. De uma forma estúpida, por videoconferência. Foi assim que falámos e lhe contei 30 histórias da minha vida de advogado e que ele fez um livro lindo, lindo, daquelas histórias vulgares da vida de um advogado. E, depois, mais recentemente…”, contou, virando-se para o lado: “Pedro, vamos ter de falar disso. E tu falas disso. Vamos ter de falar porque aproximamo-nos também um bocadinho por causa do Benjamim. E é isto, é a palavra.”

A doença do filho levou Chagas Freitas a outro caminho: a ‘religião’ da empatia. Ou da falsa empatia. “Eu percebi [isso] com o que me aconteceu, quando morreu o meu pai, dois meses depois o meu filho foi internado e ficámos aqueles meses todos no hospital, (…) E o que eu sentia no olhar das pessoas era, ‘oh, coitadinho, morreu-lhe o pai, oh, coitadinho, tem um filho internado, está doente, coitadinho, tem tanta pena dele, sou tão empático’. Não és, és um brutamontes”.

“A pena é a coisa mais brutamonte que existe, é a coisa mais insensível que existe. É o contrário da empatia”, prosseguiu.

No final Nuno Cerejeira Namora admitiu que já foi meio “brutamonte” — para usar a palavra de Chagas Freitas, mas também diz que consegue dar a mão ao outro e “levantar com empatia”.

E qual foi o maior gesto de empatia que conseguiu ter ao longo destes anos de trabalho? “Isto não vai ficar bonito”, disse o advogado, soltando logo alguns risos na plateia. “Mas eu gosto de ser o Robin dos Bosques. Eu gosto ajudar os pobres a lutar contra os ricos. Gosto de causas difíceis. Gosto do David contra Golias. E gosto de dar força aos fracos. E, portanto, há muitas situações em que até me sinto socialista de não levar dinheiro a pessoas que não tinham capacidade”.

Os perfis

  • Nuno Cerejeira Namora é advogado especialista em Direito do Trabalho e sócio fundador da Cerejeira Namora, Marinho Falcão. Alia a prática forense à reflexão académica, sendo também cofundador da Law Academy e presença regular no debate jurídico em Portugal. Destaca-se também pelo seu papel ativo como comentador e colunista. “A beleza da minha profissão reside em ora defender empregadores, ora defender trabalhadores. Consigo estar dos dois lados da barricada”, dizia em entrevista ao Trabalho/ECO.
  • Prometo Falhar é o maior sucesso de Pedro Chagas Freitas, um dos escritores portugueses que mais publica e um dos mais lidos, mas cujo estilo o deixa longe da aclamação pela crítica. O que para o autor vimaranense, 46 anos, tanto faz: “Não perco um segundo a ler o que dizem sobre mim”, disse numa entrevista há quatro anos. “Benjamim e os Dias Cheios de Nada” é título do seu próximo livro.

O momento de humor

Num painel no qual se falou da força da palavra e do seu uso cirúrgico, de empatia e desempatia, de stress, foco, adrenalina ou das melhores ideias, que podem surgir quando se ‘desliga’ e passeia o cão, houve dois temas aos quais Nuno Cerejeira Namora e Pedro Chagas Freitas fugiram: reforma laboral e futebol. “O Pedro não ganhou nada este ano”, diz o sócio da firma de advogados. “Eu ganhei a Taça da Liga”, corrigiu o escritor de Guimarães.

O momento de tensão

Pedro Chagas Freitas abordou a doença do filho Benjamim e a suposta empatia das pessoas com quem se vai encontrando no hospital.

Somos todos muito empáticos, estamos sempre a levantar a bandeira da empatia“, começou por dizer. O problema: “A maioria das pessoas pensa que ter empatia é o mesmo que ter pena.”

No hospital experienciou várias situações de desempatia. “O que eu sentia no olhar das pessoas era, ‘oh, coitadinho, morreu-lhe o pai, oh, coitadinho, tem um filho internado, está doente, coitadinho, tem tanta pena dele, sou tão empático.’ Não és, és um brutamontes“, disse.

A ideia para o futuro

Não deixar de lutar e utilizar a palavra, nomeadamente para combater o assédio laboral. “As pessoas estão mais fracas, mas começam a ter alguma coragem para se exporem e combaterem”, conta Nuno Cerejeira Namora. “Gosto de ser o Robin dos Bosques, gosto de causas difíceis, do David contra Golias, de dar força aos fracos“, diz o sócio fundador da Cerejeira Namora, Marinho Falcão.

Cada um tem de ser cirúrgico no que faz. Eu olho para a palavra como uma espécie de ato de joalharia. Eu tenho de esculpir o texto, tenho de o desenhar de acordo com o que eu quero transmitir.

Pedro Chagas Freitas

Escritor

Isto não vai ficar bonito, mas eu gosto de ser o Robin dos Bosques. Eu gosto ajudar os pobres a lutar contra os ricos. Gosto de causas difíceis. Gosto do David contra Golias. E gosto de dar força aos fracos. E, portanto, há muitas situações em que até me sinto socialista de não levar dinheiro a pessoas que não tinham capacidade.

Nuno Cerejeira Namora

sócio fundador da Cerejeira Namora Marinho Falcão

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