Pedro Duarte x André Villas-Boas. Liderança exigente e sucessão sem ruturas nas “cadeiras de sonho”

Pedro Duarte e André Villas-Boas confessaram a “exigência” que sentem na presidência da cidade e do clube, depois de terem sucedido a lideranças longas e carismáticas.

  • O Festival ECO, que decorre esta quarta-feira no CCB em Lisboa, marca o arranque das celebrações do 10.º aniversário do ECO com um festival de ideias, cultura, encontros e jornalismo ao vivo, reunindo leitores, parceiros e protagonistas de diferentes áreas num encontro que cruza economia, política, cultura, liderança e inovação

Poucos dias depois de estarem juntos nas celebrações do campeonato nacional de futebol, Pedro Duarte e André Villas-Boas sentaram-se lado a lado no Festival ECO para confessar a “exigência” da liderança que assumem na cidade e no clube. O autarca até sente mais o “peso da responsabilidade” nos Aliados do que nas anteriores funções como gestor da Microsoft ou como ministro — “no Porto, para o bem e para o mal, as pessoas são extraordinariamente exigentes, mais do que em Lisboa” –, ao passo que o presidente do FC Porto sente “na pele a exigência diária de todos os portistas” depois de ter herdado “um legado único” e uma “responsabilidade enorme que [lhe] causa ansiedade e medo de falhar às pessoas e às suas ambições”.

Ambos sucederem recentemente a lideranças longas e carismáticas. Pedro Duarte fala em “diferenças óbvias” face a Rui Moreira, mas adverte que “não se destrói o que está feito” e está a “construir em cima” do que recebeu. Está, sim, a “impor um ritmo e um estilo diferente de liderança”. Sobre a distinção em relação à era Pinto da Costa, Villas-Boas recusa igualmente ter havido “ruturas”, embora admita que o clube “apontou a uma melhor gestão dos seus recursos, de governance, de responsabilidade económica, de gestão dos seus poucos recursos financeiros e de reestruturação da dívida”. E está a reforçar o ecletismo com novas modalidades, como o futsal, contabilizando que custa 12 milhões de euros por ano à SAD.

“Alívio”, mais do que felicidade, reconheceu, foi o que André Villas-Boas sentiu com a conquista do título no futebol, que escapava há quatro anos e por isso motivou uma “explosão de alegria enorme”. Já os festejos, que se estenderam da Ribeira aos Aliados, com um desfile que durou várias horas, mostraram que o FC Porto “tem uma cidade” a suportá-lo, embora Pedro Duarte assinale que na Invicta também há “muita gente que apoia outros clubes”, como o Sporting e o Benfica. Mas mesmo esses, acrescentou o autarca, reconhecem que o clube “é uma das grandes marcas da cidade e respeitam isso”.

Enfrentando forte concorrência dos rivais a nível nacional, mas também internacional, André Villas-Boas admite que voltar a ganhar a Liga dos Campeões “é quase impossível”, até porque os clubes ingleses estão “noutro patamar” – “também devia haver um Brexit para as competições europeias”, gracejou. Do ponto de vista autárquico, completou Pedro Duarte, o Porto beneficia de um “aspeto de diferenciação”. “Não temos o arrojo de dizer que somos melhores do que os outros; somos únicos. Diferenciamo-nos pela identidade e, a partir daí, podemos atrair turistas, talento, investimento e dinâmica para a cidade, melhorando a qualidade de vida das pessoas, que é a minha bússola enquanto presidente da Câmara”, resumiu.

 

Os perfis

André Villas-Boas é o presidente do FC Porto desde 2024, quando venceu as eleições de 27 de abril, quebrando um ciclo de 15 mandatos e mais de 40 anos de Pinto da Costa à frente dos Dragões. “Hoje o FC Porto está livre de novo”, foi com esta frase que assumiu a liderança do clube do coração, onde assumiu vários cargos e chegou a treinar, tendo ganho nessa “cadeira de sonho”, como referiu na altura, tudo o que havia para vencer na época 2010/2011. Nascido e criado no Porto, Villas-Boas passou por grandes clubes internacionais, como o Chelsea ou o Tottenham.

Pedro Duarte é presidente da Câmara Municipal do Porto desde novembro de 2025, depois de ter vencido as autárquicas de outubro, ficando à frente de Manuel Pizarro. Licenciado em Direito pela Universidade Católica Portuguesa e com um mestrado em Economia e Gestão pelo ISEG, um MBA em Gestão pela Porto Business School e um doutoramento em Estudos de Desenvolvimento pelo ISEG, Pedro Duarte assumiu o cargo de ministro dos Assuntos Parlamentares, em 2024. Uma função que abandonou para se candidatar à Câmara da Invicta.

O momento de humor

Logo na abertura do painel, André Villas-Boas disse ser “um prazer estar em Lisboa”, mas acreditar que “seguramente” esta iniciativa será organizada futuramente no Porto, à imagem de outras do jornal, como a conferência anual Fábrica 2030. Ou, nas palavras do presidente do FC Porto, que arrancaram sorrisos da plateia, “transitar o Festival ECO para melhores ambientes”.

O momento de tensão

Seria mais fácil Villas-Boas ser presidente de Câmara ou Pedro Duarte liderar o FC Porto? Foi este o desafio que colocou os protagonistas a divergir. Duarte vê “características de liderança” em Villas-Boas que o “habilitam imediatamente para poder a exercer a função de presidente da Câmara”, enquanto “o inverso manifestamente não acontece”. “Gosto muito de futebol e do FC Porto, mas até por essa razão não teria depois o discernimento suficiente para poder gerir o clube”, resumiu. “Estamos em discordância absoluta: há competências técnicas específicas que fazem também um líder, nas quais o Pedro Duarte está mais do que habilitado. Política? Acho que nem tenho jeito. Gostava muito de servir o país, mas sirvo o país servindo o FC Porto”, atirou o líder portista.

A ideia para o futuro

Às portas do Mundial, André Villas-Boas assumiu que Portugal conquistar o troféu é “um sonho difícil”, mas não impossível. E se tal acontece é porque a indústria do futebol tem “uma capacidade de gerar e desenvolver talento que é única” e que assenta muito na “evolução ao nível das metodologias de treino” que tornaram o país numa “referência” e fazem com que tenhamos “muito treinadores a trabalhar bem na formação”. Pedro Duarte concorda que “há um enorme mérito do futebol português no posicionamento que conseguiu já atingir e [que] devia ser um caso mais estudado no país”. “É excecional como nesta área conseguimos estar no primeiro mundo. Termos possibilidades de sonhar [com o Mundial] é já uma vitória e sinal que há um trabalho notável que foi feito”, acrescentou o autarca, que quer ver o futebol a “inspirar o país noutras áreas”.

As frases

As pessoas no Porto são extraordinariamente exigentes, mais do que em Lisboa. Para o bem e para o mal. Há uma componente de grande proximidade e calor humano quando é positivo, mas a exigência também é muito radical. Sinto essa pressão, mas é positiva.

Pedro Duarte

Presidente da Câmara do Porto

Sinto na pele a exigência e ambição de todos os portistas. Foi-me passado um legado único e para quem tem 48 anos de afiliação, é uma responsabilidade enorme. Causa-me ansiedade e medo de falhar às pessoas e às suas ambições. Medo de não ganhar títulos? Sempre, claro.

André Villas-Boas

Presidente do FC Porto

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