Stress, velocidade e sono. Emoções ditam a primazia do humano num festival a 300 km/h
Dormir não é uma perda de tempo. “É um seguro de vida”. “Não há resiliência sem falhar”, e num mundo em que o futuro será a inteligência artificial “o fator diferenciador continuará a ser o humano".
- O Festival ECO, que decorre esta quarta-feira no CCB em Lisboa, marca o arranque das celebrações do 10.º aniversário do ECO com um festival de ideias, cultura, encontros e jornalismo ao vivo, reunindo leitores, parceiros e protagonistas de diferentes áreas num encontro que cruza economia, política, cultura, liderança e inovação.
Stress, velocidade, sono, confiança e Inteligência artificial. Estas foram algumas das palavras-chave para gestores, advogados, desportistas e chefs. O stress está a ser diabolizado, mas na dose certa aumenta o desempenho. Já se engorda ou não, depende dos casos. E dormir é uma perda de tempo? Não, “é um seguro de vida”. E já agora “não há resiliência sem falhar”, e num mundo em que o futuro será a inteligência artificial “o fator diferenciador continuará a ser o humano”.
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A tarde no Festival ECO arrancou a 350 quilómetros por hora com o piloto de superbikes, Miguel Oliveira, a contar que a essa velocidade, na verdade, não se tomam muitas “decisões ativamente”. Apenas se reage à informação que vai surgindo. Admitindo que a sua carreira “foi sempre a alta velocidade fora de pista”, a correr entre as provas dos campeonatos de motociclismo, garante que não é maluco e assume que ter medo é algo que o “protege”. “Deixa-nos num estado mais apurado, alerta”, explica.
Esse estado “mais alerta” e até “mais eficiente” também pode ser conseguido com as doses certas de stress, explica a neurocientista Luísa Lopes. O CEO do BCP explica que é exatamente essa a sua estratégia: “Quem tem a responsabilidade de liderar tem de gerar stress nas equipas, sem deixar que se transforme em stress tóxico”, explicou Miguel Maya.

O chairman da EDP António Lobo Xavier reconheceu que não podia estar mais de acordo com Miguel Maya sobre a necessidade de “um bocado de stress na vida”. “Mas agora sou bombardeado com Instagrams a dizer que o stress engorda, isso já não queria muito”, reconhece. “Eu tenho stress, mas no caso do Miguel não se vê”, ironizou numa alusão à compleição longilínea do CEO do BCP.
Miguel Maya defende que introduzir picos de stress “cria uma cultura de alto desempenho”.
Para ter esse alto desempenho há uma condição prévia – dormir. “É um seguro de vida”, explica a neurocientista no Gulbenkian Institute for Molecular Medicine. Respondendo diretamente à CEO da Siemens, que tinha marcado presença no painel anterior disse “Dormir três horas, nunca!!”.
Sofia Tenreiro tinha confessado que, antes dos 40, dormia cerca de três horas por noite, por achar que “dormir era uma perda de tempo” – algo que deixou de fazer para passar a dar mais atenção aos sinais do corpo. Foi uma ideia que se popularizou nos anos 80, explicou Luísa Lopes, deixando o recado: “a falta de sono é das piores coisas que se faz ao cérebro”. “Não tentem escamotear os factos científicos. São sete a oito horas por noite”. A especialista frisou ainda que “se há coisa que mata a criatividade é a falta de descanso”.

A criatividade é a marca distintiva da arte e esta existe até no direito, garante o advogado Rui Patrício. “Entre o direito e a arte há uma ligação muito profunda, embora possa não parecer”, disse. “A arte ajuda-nos a compreender os outros. E o direito também é uma arte, porque tem um conjunto de valências que vão para além da técnica. Um tribunal tem muito de arte performativa, tem muita mise en scéne”, concluiu.
Para o advogado compreender o fenómeno criminal implica compreender a vida, as pessoas e as emoções, porque “são as emoções que motivam os crimes”.
Mas foram também as emoções que, no passado, foram usadas para afastar as mulheres dos cargos de topo. “Não há emoção sem razão”, recorda Luísa Lopes, frisando que a emoção é importante para moldar as próprias decisões racionais.
A neurocientista indica também que é importante ter nas equipas pessoas mais jovens porque estão mais abertas ao risco.

E correr riscos é importante. Miguel Maya sublinhou que “uma organização depende muito da capacidade de empreender e inovar. E para isso é preciso tomar risco”. O CEO contou o exemplo do próprio banco. “No passado, houve coisas que não nos correram bem, mas estes traumas não nos podem impedir de tomar risco”, disse, explicando que pediu a Luísa Lopes para explicar no banco a uma plateia de 400 pessoas que esses erros, no futuro, “devem servir de aprendizagem e não de condicionante”.
“É muito importante saber lidar com a frustração e o fracasso”, disse Miguel Maya. Mas a nova geração que está a chegar ao mercado de trabalho “tem menos resiliência” e, para isso, a melhor forma é falhar, explicou a neurocientista.
António Lobo Xavier é uma das exceções. Teve de provar ao pai que a sua paixão pela gastronomia não era passageira. Trabalhou 15 horas por dias, ao longo de seis meses, para provar ao pai que ser chef era a sua vida e que o direito não era a sua vocação. O pai teve mesmo de o ajudar a tratar das feridas no pés após tantas horas em pé.
Nas empresas, outra fonte de risco reside na introdução da inteligência artificial. A CEO da Siemens defende que “a IA é como ter mais uma pessoa na equipa”. “É ter uma equipa infinita”, diz Sofia Tenreiro. Mas a CEO alerta: “A IA não é uma caixa mágica que vai dar o output perfeito”. O segredo está no prompt. “A IA vai ser uma commodity a que todos têm acesso. A forma como o ser humano interage ao nível dos prompts é que fará a diferença”, defende.
Miguel Oliveira corrobora a ideia de que a IA nunca substituirá os humanos. Recordando que no motociclismo se usa muita tecnologia, frisa que “nada substitui o feeling humano”. “A performance não é ditada por 100% de eficiência técnica” e “o material pode falhar”, alerta.
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