As maiores fortunas mundiais estão a fugir do dólar e a apostar na inteligência artificial
Seis em cada dez 'family offices' vão reorganizar os seus investimentos este ano, no movimento mais amplo alguma vez registado pelo UBS, à boleia da perda de confiança no dólar e na atração pela IA.
- Pela primeira vez, 60% dos 'family offices' planeiam alterar a sua alocação estratégica de ativos nos próximos 12 meses, segundo o relatório do UBS.
- Os 'family offices' europeus destacam-se com 67% a preverem mudanças, enquanto os americanos concentram 88% das suas carteiras em ativos domésticos.
- A transferência de riqueza entre gerações está em risco, com apenas 35% dos 'family offices' a terem um plano de sucessão definido.
O “Global Family Office Report 2026” do UBS, publicado esta quinta-feira, que inquiriu 307 family offices em mais de 30 mercados com um valor médio de 2,7 mil milhões de dólares por família, mostra que, pela primeira vez, 60% destas entidades planeiam alterar a sua alocação estratégica de ativos nos próximos 12 meses. Trata-se do valor mais elevado desde que o UBS começou a publicar este relatório há sete anos.
As diferenças face aos resultados de há um ano são também significativas. Se em 2025 o mesmo o estudo — que então analisou 317 family offices representando cerca de 651 mil milhões de dólares –, apontava a guerra comercial como o risco número um. Hoje, o conflito geopolítico ocupou esse lugar de forma permanente, a dois horizontes: o imediato e o de cinco anos.
As mudanças que estão a acontecer não são cortes radicais nas carteiras, mas sim ajustes cirúrgicos com o objetivo de reduzir a concentração de risco.
Os mercados desenvolvidos continuam a ser a base das carteiras das grandes fortunas familiares, com as ações e as obrigações de mercados desenvolvidos a representarem 41% das alocações estratégicas.
Em termos regionais, a Europa (excluindo a Suíça) destaca-se como uma das zonas mais ativas na revisão de carteiras, com dois terços dos family offices europeus a planearem mudanças na alocação estratégica, um dos valores mais elevados a nível global.
Enquanto nos EUA o viés doméstico se aprofundou — os family offices americanos têm agora 88% das suas carteiras em ativos norte-americanos –, os europeus querem reduzir a sua dependência de ativos americanos e reequilibrar para a Europa Ocidental e Ásia-Pacífico.
“Este relatório mostra que os family offices continuam a ajustar as carteiras de forma ponderada, diversificando por ativos, moedas e regiões, mantendo ao mesmo tempo a exposição a tendências de longo prazo como a inteligência artificial com maior seletividade”, sublinha Benjamin Cavalli, responsável pelos clientes estratégicos e conetividade global da UBS Global Wealth Management.
Desconfiança no dólar e aposta central na inteligência artificial
Os mercados desenvolvidos continuam a ser a base das carteiras das grandes fortunas familiares, com as ações e as obrigações de mercados desenvolvidos a representarem 41% das alocações estratégicas, mas a direção é de uma maior exposição a ações de mercados emergentes, mais infraestruturas, menos imobiliário, que deverá cair de 11% para 8% entre aqueles que planeiam mudanças.
O ouro também está a ganhar espaço nos portefólios. Se em 2025 o ouro pesava 2% nas carteiras, o UBS revela que os family offices planeiam subir essa fasquia para 3%. “O ouro desempenha um papel significativo tanto na diversificação geral da nossa carteira como no apoio aos nossos esforços para reduzir a exposição ao dólar americano”, disse o CEO de um family office de investimento europeu, citado no relatório.
Além disso, 88% destas entidades já mantêm ativos em duas ou mais jurisdições, numa estratégia de multishoring que visa preservar flexibilidade e limitar a dependência de um único mercado.
Portefólio médio das grandes fortunas
As ações são o ativo que mais brilha na carteira dos family offices, apesar do portefólio médio das grandes fortunas dividir-se quase a meio entre ativos tradicionais, como ações e obrigações, e ativos alternativos, como imobiliário, private equity e infraestruturas.

Uma das mensagens mais fortes do relatório é a erosão da confiança no dólar americano, com 65% dos family offices a esperarem que o papel do dólar como moeda de reserva mundial enfraqueça ao longo do próximo ano, enquanto 47% afirmam estar sobreexpostos à divisa americana.
Em resposta a este sentimento, as grandes fortunas familiares estão a diversificar para um quadro multidivisa, com o franco suíço e o euro a emergirem como as alternativas preferenciais nos portefólios.
Na Europa (excluindo a Suíça), onde 67% dos family offices planeiam mudanças de alocação, um dos valores mais altos do mundo, a redução da exposição a ativos em dólares é uma das prioridades mais marcadas, com 33% dos europeus a revelam que já agiram nesse sentido ou estão a ponderar fazê-lo.
A América do Norte mantém-se, ainda assim, o destino com maior peso nas carteiras globais (52% das alocações em 2026), mas a tendência é de encurtamento gradual dessa dominância, com crescente interesse na Ásia-Pacífico, Grande China e Europa Ocidental, destacam os números do relatório do UBS.
A inteligência artificial continua a destacar-se como o tema de investimento definidor desta década [e] os family offices estão a abordá-la com convicção e seletividade, procurando oportunidades em toda a cadeia de valor e ao mesmo tempo equilibrando o potencial de crescimento a longo prazo com a disciplina de risco.
Em oposição à desconfiança do dólar está a aposta central na inteligência artificial (IA), que continua a ser o tema de investimento dominante e não dá sinais de abrandamento.
De acordo com o relatório, 65% dos family offices já têm posições ao longo de toda a cadeia de valor da IA, desde infraestruturas de centros de dados, a plataformas de software e produtores de semicondutores, e a maioria planeia manter ou aumentar essa exposição, apesar das preocupações com valorizações excessivas em bolsa.
“A inteligência artificial continua a destacar-se como o tema de investimento definidor desta década”, afirma Yves-Alain Sommerhalder, responsável pelas soluções de gestão de fortunas do UBS, notando que “os family offices estão a abordá-la com convicção e seletividade, procurando oportunidades em toda a cadeia de valor e ao mesmo tempo equilibrando o potencial de crescimento a longo prazo com a disciplina de risco.”
Além da IA em si, as apostas mais relevantes ligadas a este ecossistema são a energia e recursos (37%), infraestruturas (37%) e saúde potenciada por IA (33%). Os criptoativos ficam num plano bem mais discreto, com apenas 24% têm alguma exposição e, quando a têm, é tipicamente de apenas 1% da carteira. Ainda assim, 44% dos que investem em cripto já o consideram parte da sua alocação estratégica.
Por detrás de toda esta reconfiguração estratégica, o relatório do UBS deixa, porém, um aviso que ultrapassa os números das carteiras: a transferência de riqueza entre gerações que se aproxima, estimada em 71 de biliões de euros nas próximas décadas, está em risco de ser mal gerida.
Segundo a sociedade gestora suíça, apenas 35% dos family offices têm um plano de sucessão definido para a própria entidade, e só 27% dispõem de um processo estruturado para preparar os herdeiros para assumirem responsabilidades no futuro.
Num momento em que estas famílias reforçam a resiliência das suas carteiras face à imprevisibilidade do mundo, a maior vulnerabilidade pode estar, afinal, dentro de casa.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
As maiores fortunas mundiais estão a fugir do dólar e a apostar na inteligência artificial
{{ noCommentsLabel }}